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Edição nº 853 / 2015

25/12/2015 - 18:18:16

Ivan Barros revela: “Quando Divaldo Suruagy perdeu o poder, foram-se os amigos”

Edberto Ticianeli Jornalista

Ivan Bezerra de Barros é jornalista experiente, um dos remanescentes do grupo de ouro dos profissionais alagoanos que trabalhou na imprensa carioca. Natural de Palmeira dos Índios, voltou a Alagoas após ser aprovado em concurso público para promotor de Justiça. Amigo de Divaldo Suruagy, recebeu deste a incumbência de escrever a sua biografia. 

A promessa foi cumprida e o livro Divaldo Suruagy, vida e obra de um estadista foi lançado no dia 23 de outubro na Academia Alagoana de Letras. A entrevista a seguir expõe a amizade que existia entre os dois acadêmicos e revela o ostracismo político em que viveu Divaldo Suruagy nos seus últimos anos de vida.

História de Alagoas – O senhor foi um dos grandes amigos de Divaldo Suruagy. Como se estabeleceu essa relação?

Ivan Barros – Em 1970 fui candidato a deputado estadual pelo MDB. Eu estava fazendo um comício em São Marcos, antigo Riacho do Sertão, distrito de Major Izidoro, e apareceu lá o Divaldo acompanhado do Aderval Tenório e Antônio Amaral. Ele me parabenizou dizendo que eu estava fazendo um discurso de deputado e que me desejava êxito. Agradeci.

Em São Marcos tinha 800 eleitores e eu esperava ter no mínimo 400 votos, mas tive uma decepção. O Divaldo teve 400 e tantos votos e eu tive apenas 180 votos. No Estado, Divaldo teve quase 10.000 votos e eu 6.000 e poucos votos. Divaldo pela Arena e eu pelo MDB.

Perdi a eleição para o Walter Figueiredo de Rio Largo por 60 votos. Fiquei na primeira suplência. Sabendo disso, o Divaldo me procurou e disse que se soubesse que os votos que ele teve em São Marcos iriam me prejudicar, não teria ido lá. Disse ainda que eu merecia ser deputado e me convidou para ocupar uma assessoria na Assembleia. Ele estava muito cotado para ser o presidente. Disse também que iria trabalhar, depois, para que eu assumisse o mandato.

Disse a ele que não trabalhei para ser suplente ou assessor e resolvi, a convite do Tobias Granja, ir para o Rio de Janeiro. Cheguei lá com a cara e a coragem. Tobias Granja era diretor da revista O Cruzeiro e tentou me levar para trabalhar lá, mas, infelizmente, o David Nasser disse a ele que a revista estava fazendo uma contenção de despesas e que não ia admitir mais repórteres.

Foi então que o Tobias me levou para conversar com o Jairo Costa, intelectual e empresário poderoso, que era de Capela e muito bem relacionado no Rio de Janeiro. Jairo ligou para Arnaldo Niskier, diretor da revista Manchete que estava surgindo, e me recomendou. Levei o currículo para o Arnaldo Niskier, que me admitiu. Passei oito anos como repórter da Manchete, ao mesmo tempo que fazia o curso de Direito.  

Dois anos depois, surgiu a vaga de deputado em Alagoas. O Walter Figueiredo tinha sido eleito prefeito de Rio Largo. Eu estava decidido a não voltar para Alagoas; estava fazendo Direito e estava bem. Avaliei que não valia a pena. Quem assumiu foi o Castro Filho, segundo suplente. Continuei a trabalhar na Manchete e a estudar. 

Nessa época, comecei a trabalhar no Escritório de Alagoas no Rio de Janeiro e quando Divaldo ia para lá, eu chamava os jornalistas Tobias Granja, Joarez Ferreira, Jorge Segundo, Tércio Barros, Jorge Oliveira e fazíamos algumas entrevistas com ele.

Certa vez, no segundo mandato de Divaldo no governo de Alagoas, Câmara Cascudo, que trabalhava na Manchete e dirigia a sucursal do Nordeste, sabendo do meu relacionamento com o Divaldo e da expressiva votação que ele teve — mais de 65% dos votos —, pediu para convidá-lo para um jantar na Manchete. Ele tinha interesse em captar publicidade dos usineiros e vender livros didáticos ao governo do Estado.

No jantar estavam presentes Geraldo Bulhões, Teotônio Vilela, Pontes de Miranda, Afrânio Melo, Tobias Granja, José Alípio Ferreira. Após o jantar, o Divaldo Suruagy falou para mim — eu estava me formando em Direito — que era chegada a hora de voltar para Alagoas. Informou-me que ia fazer um concurso para promotor de Justiça e recomendou que eu fizesse a inscrição. Concordei e ele me mandou a passagem.

Vim para Alagoas, e em Palácio, o Divaldo Suruagy chamou o Carlito Lobo e disse a ele que eu ia fazer o concurso e que me desse as orientações de como estudar Direito Civil, Processo Penal etc. Estudei muito, com afinco, e tirei em primeiro lugar no concurso.

Fui ao Rio de Janeiro pedir demissão da Manchete e voltei para assumir o cargo de promotor de Justiça, nomeado pelo Divaldo Suruagy, que acompanhou toda minha trajetória no Ministério Público.

Em 1990, com o apoio de Medeiros Neto, ocupei a vaga de Adalberon Lins na Academia Alagoana de Letras. Foi Divaldo quem fez a minha saudação acadêmica.

HA – Como o senhor avalia a trajetória política de Divaldo Suruagy? Ele foi um político competente?

IB – É isso que conto em meu livro. Narro toda a trajetória política do Divaldo, os cargos que ele assumiu. Ele foi eleito três vezes governador. Era muito competente. Ele explica no meu livro o que aconteceu no dia 17 de julho de 1997 quando ele renunciou e ficou por cinco anos no ostracismo, conversando com os amigos e escrevendo.

HA – Alagoas foi ingrata com o Suruagy?

IB – Eu não diria que foi ingrata. O que aconteceu com ele no 17 de julho foi uma confiança excessiva que ele teve no secretário da Fazenda, que preferia comprar as chamadas Letras Podres do que pagar o funcionário público. Um dia, na casa do Geraldo Sampaio, o secretário me disse que era melhor investir nas Letras, ganhar dinheiro, e com o dinheiro pagar o funcionário público. Então houve aquele atraso danado que provocou uma insatisfação geral no estado, gerando o 17 de julho e a renúncia do Divaldo.

HA – Qual o maior legado do político Divaldo Suruagy?

IB – Foi um homem que conseguiu emprego para duas mil pessoas, numa época em que havia um índice de desemprego muito grande no estado de Alagoas. Foi o governante que construiu mais obras: 20 mil quilômetros de estradas pavimentadas, construiu casas populares, o Conjunto Benedito Bentes e trouxe a indústria química Salgema.

Como deputado federal, trouxe mais recursos, a exemplo da rodovia Palmeira dos Índios/Carié, a rodovia Palmeira dos Índios/Santana do Ipanema, a rodovia para Penedo, para São Luiz do Quitunde. 

HA – O político Divaldo Suruagy fez mais amigos que inimigos?

IB – Ele tinha muitos amigos, mas quando perdeu o poder, foram-se os amigos, poucos ficaram ao lado dele. A Marlene Lanverly tinha uma casa na Rua Santa Fernanda, na Jatiúca, e doou esta casa para que ele fizesse ali seu escritório, conversasse com amigos, escrevendo seus livros e artigos para os jornais. Mas no anonimato, os amigos desapareceram. A verdade é que foi-se o poder, foram-se os amigos. 

Continuou no ostracismo, amargurado. Em 2014, tentou voltar à política candidatando-se a deputado estadual, mas foi quando adoeceu e viajou para São Paulo. Os médicos o desenganaram e ele voltou para a família. Quando chegou, foi me visitar na Barra Nova — eu também tinha tido um problema de saúde. Na ocasião, disse a Divaldo que ele devia escrever a sua biografia. Argumentou que estava doente e me pediu para escrever sua história de vida. Ponderei que a responsabilidade era muito grande e deixamos para lá. Quando morreu, eu senti a necessidade de escrever a biografia dele.

HA – O livro é uma homenagem ou um documento que trata da história de Divaldo Suruagy?

IB – Não é a homenagem. É o cumprimento de uma promessa feita a ele quando me visitou na Barra Nova. É a biografia dele, a vida dele, as obras que produziu, o administrador e o escritor. A biografia completa, porque ela faltava em Alagoas. Eu escrevi uma biografia que servisse para as novas gerações conhecerem uma vida venturosa, exemplar como foi a vida de Divaldo Suruagy.

HA – Um homem como Divaldo Suruagy faz falta na política alagoana?

IB – Já faz e fará muita falta. Nos próximos 50 anos não vai surgir em Alagoas um político como Suruagy. O homem, o pai de família, o amigo, o companheiro, o governante. Ele foi um estadista.

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