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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 853 / 2015

25/12/2015 - 18:17:35

Natal sem preconceitos

Alari Romariz Torres

Sempre gostei da época natalina! Quando criança, ainda, acreditando em Papai Noel, ficava feliz esperando o presente do bom velhinho, mas meus pais me contaram muito cedo quem comprava os meus presentes. “Entenda, filha, você pode ganhar coisas bonitas e caras; as crianças pobres esperam pela boa vontade de pessoas caridosas”.

Nunca fui muito chegada a boneca e no Natal de 1946, enquanto meu irmão mais velho ganhou uma mesa de estudos, eu ganhei uma boneca negra e linda. Anos depois, minha mãe doou para a filha de uma empregada nossa o brinquedo rejeitado. Aí, ela entendeu que eu preferia ganhar roupas e bola de vôlei.

Tínhamos uma vizinha bem alegre e que só aparecia depois do meio-dia.  No começo da noite, saía de casa exageradamente enfeitada. Brincava sempre comigo e no Natal aparecia em nossa casa. Não entendia eu, inocente criança, qual a profissão da moça e porque as outras famílias não simpatizavam muito com ela. A Irene era prostituta e fazia “ponto” no bairro de Jaraguá, mas era de boa família e irradiava simpatia. 

Nessa mesma época, também morávamos próximos de uma família cujo pai era do antigo Partido Comunista, o velho partidão. Ele era preso de tempos em tempos e a família ficava desamparada. Minha mãe se emocionava e ajudava aos vizinhos neste período difícil. Uma das filhas namorava com um rapaz ciumento, complicado, e ela não podia nem olhar de lado; imagine conversar com a Irene. Casaram e tiveram vários filhos.  Não sei se foram felizes, mas sei que o preconceito era grande.

Quando comecei a trabalhar na Assembleia, com 18 anos, andava por lá um mestre-de-obras, bem calado e muito respeitador com as jovens funcionárias. Chamavam-no de Mossoró e os políticos brincavam com ele e nós, jovens, não entendíamos o teor dos gracejos. Soube depois que o moço tinha uma boate no meretrício de Maceió e lá recebia pessoas famosas. 

Casei e fui morar no Farol. Na mesma rua morava o Mossoró numa boa casa com sua família devidamente constituída. E ele reclamava ao meu irmão: “Sua irmã é muito chata, não fala com ninguém; eu a conheço desde que trabalhei na Assembleia”, E, reconheço, devia ser muito preconceituosa mesmo.

Recentemente, conheci Rosa, filha do Mossoró e ela achou interessantes as estórias que contei a respeito do pai dela. Contou-me então, um fato engraçado: um político famoso era candidato e pediu ajuda ao Mossoró. Ele ampliou várias fotos do amigo e as colocou em todos os quartos da boate. Então os visitantes namoravam com as meninas e olhavam para a foto do candidato que solicitou ajuda. Interessante!!!

Estudei no ginásio com uma moça magrinha e bonitinha chamada Marly. Desapareceu e nos encontramos anos após, num salão de beleza. Passados alguns dias, meu irmão Sabino me encontrou e revoltado, me perguntou: “Soube que você conversou longamente com a Marly num ambiente público? Ela é prostituta e tem uma boate não sei onde”. Disse então: “Sim, conversei; isso não é uma doença contagiosa; é uma profissão”.

Essas estórias me levaram a um tempo de muito preconceito, até dentro dos próprios colégios. Havia colegas de comportamentos mais liberais com as quais não mantínhamos relacionamentos mais estreitos.

O Natal me faz lembrar solidariedade, amor e nenhum preconceito. Hoje, o mundo é mais livre, as pessoas se casam várias vezes, ou não se casam. Algumas resolvem ter filhos através de produção independente e o fazem com naturalidade. Conheço uma família linda onde a mãe teve 3 filhos, o pai outros 3 e os dois tiveram mais um. Já se tornou oficial o casamento entre pessoas do mesmo sexo.Todos são amigos, vivem bem e a vida continua.

Prometi a mim mesma que hoje não falaria aos meus leitores de pessoas ruins, fatos negativos. Estamos no Natal. Vamos lembrar de Jesus Cristo, Gandhi, Irmã Dulce, Padre Cícero e gente do bem.

Os meus amigos de quem falei no início (alguns dos quais já se foram), são lembranças de minha infância, minha adolescência e minha maturidade. Aprendi com eles que todos somos iguais, irmãos e irmãs do Menino Deus: nascemos, vivemos e morremos.

Feliz Natal!  

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