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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 852 / 2015

20/12/2015 - 07:40:21

Mário Lago e a descoberta de um grande poeta

Edberto Ticianeli Jornalista

A histórica Viçosa, em Alagoas, vivia dias agitados em 1971. A cidade recebia a equipe que filmava São Bernardo, produção cinematográfica baseada no livro homônimo do alagoano Graciliano Ramos.

Numa noite quente, um dos atores sai a perambular pelas ruas da cidade e é atraído pelo som de um cavaquinho.

Foi assim que o advogado, poeta, radialista, letrista e ator Mário Lago descobriu o Trovador Berrante, local de poucos negócios e de muitas farras, quase sempre lideradas por seu proprietário, o lendário Zé do Cavaquinho.

Como boêmio atrai boêmio na proporção direta do tamanho da farra, Mário Lago e Zé do Cavaquinho foram ficando amigos de mesa de bar – uma das amizades mais sólidas entre as que existem por aí.

Conversa vai, conversa vem, e Mário Lago não demorou a ser apresentado à obra de outro boêmio, Chico Nunes, o Rouxinol da Palmeira.

Chico Nunes nasceu Francisco Nunes de Oliveira no dia 4 de maio de 1904, em Palmeira dos Índios, onde faleceu no dia 21 de fevereiro de 1953. Já poeta famoso, mudou o nome para Francisco Nunes Brasil, mas terminou simplificando para Chico Nunes. Era filho de José Nunes da Costa e Francisca Nunes de Oliveira.

Como bom conhecedor da cultura popular, Lago percebeu que tinha encontrado um tesouro guardado na tradição oral, com joias do improviso de um dos maiores poetas das Alagoas. Assim surgiu a pesquisa e, posteriormente, o livro Chico Nunes das Alagoas.

Lançado comercialmente em 1975 pela Editora Civilização Brasileira, com grande sucesso, o livro recebeu crítica elogiosa de Luiz da Câmara Cascudo e de Artur da Távola. Hoje é uma raridade encontrar um exemplar para venda.

A obra, na sua última página, traz uma relação de pessoas a quem o autor agradece pela ajuda na pesquisa que forneceu as informações para o livro. Lago se refere ao grupo como “à turma do mutirão”. No grupo estão dois viçosenses ilustres: José Aloísio Vilela e Théo Brandão, estudiosos consagrados da cultura nordestina.

Essa informação, inevitavelmente, provoca uma indagação: por que José Aloísio Vilela e Théo Brandão, viçosenses e conhecedores do poeta, não produziram nada sobre Chico Nunes?

A pista para entender porque foi um carioca, ligado ao Partido Comunista, que descobriu o valor da obra de Chico Nunes, talvez esteja na vida de boêmio do poeta, sem apego ao dinheiro, à família ou ao poder. Um libertário como Mário Lago.

Para Chico Nunes, autoridade era mote para uma glosa, como mostra um episódio acontecido nos anos 20, quando o governador Costa Rego visitou Palmeira dos Índios e cobrou do prefeito a presença de Chico Nunes para conhecer o famoso glosador. 

O que Costa Rego não sabia é que o poeta estava revoltado com a medida do governo proibindo o jogo do bicho e a jogatina nos bordéis, onde o poeta ganhava uns trocados.

Intimado a mostrar suas habilidades na frente das autoridades, Chico Nunes sapecou:

Existe um governador

Que se chama Costa Rego,

Que tirou o meu emprego

Porque o jogo acabou,

Isso me contrariou,

Mas o destino assim quis,

A sorte me contradiz,

Eu fiquei desmantelado…

Largue de ser desgraçado,

Seu Costa Rego infeliz.

Graças a Mário Lago e a sua sensibilidade com a cultura popular, essa e muitas outras obras primas estão registradas no Chico Nunes das Alagoas.

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