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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 851 / 2015

10/12/2015 - 20:08:00

Sob um sol que castiga almas

Especialista em Graciliano Ramos produz estudo inédito sobre o autor

Reinaldo Cabral Especial para o EXTRA
Eliana Bueno

Eliana Bueno Ribeiro é dessas raras pessoas que começaram a respirar livros desde criança.Por causa do pai começou a ler Graciliano Ramos ainda adolescente.Não imaginava que estava iniciando ali uma paixão, que acabaria num grande amor à literatura do mestre, um casamento coroado em 1989 quando teve aprovada com a maior nota na Universidade Federal do Rio de Janeiro sua tese maravilhosa “Histórias sob o sol: uma interpretação de Graciliano Ramos”.

De lá para cá, já se produziu mundo afora milhares de teses sobre a obra do mestre Graça, mas nenhuma delas chegou nem perto do trabalho de Eliana.

Essa tese dela ficou inédita até hoje por uma doce ironia do destino: a carioca de Niterói, ela viajou para tirar umas férias em Paris (França) mas acabou ficando lá 16 anos, ensinando literatura brasileira em diferentes universidades (Lyon,por exemplo). E hoje se divide entre Paris e o Rio, onde escreve biografias sobre santos populares como Santo Antonio. Sua entrevista exclusiva ao EXTRA:

De que faceta inédita sobre a obra do mestre Graça trata sua tese de doutorado na UFRJ? 

Minha tese, “Histórias sob o sol: uma interpretação de Graciliano Ramos”, trata dos livros do autor escritos em primeira pessoa: Caetés, São Bernardo e Angústia, Histórias de Alexandre, Infância e Memórias do Cárcere.  Vai  na contracorrente das interpretações  de Graciliano Ramos pois, ao invés de ver narradores sofridos e vencidos , encara-os como lutadores e, de certa maneira, vencedores.  Seus pontos de apoio teóricos são Nietzsche e Freud.  Foi defendida em 1989 na Faculdade de Letras da UFRJ, sob a orientação do professor Eduardo Portella e obteve conceito Excelente. A banca foi composta, além do professor Portella, por Roberto Acizelo Quelha de Souza (que acabou de ganhar o Jabuti na categoria Teoria Literária), da UFF, Gilberto Mendonça Telles, da PUC-Rio, João Luis Machado Lafeta, da USP (hoje já falecido), e pelo escritor  Cyro dos Anjos, da UFRJ (também já falecido).  Como viajei em 1991 para a França para um pós-doutorado, pretendendo ficar um ano, e fiquei mais de vinte, sua publicação foi sendo adiada.

No rico universo da literatura brasileira, por que Graciliano é o que mais a impressionou com sua obra?

A escolha do tema da tese tem muitos fatores. Quando comecei a tese eu já era professora de literatura há muitos anos e resolvi trabalhar com um autor, testando um modelo de análise literária. Era o que eu mais fazia naquele momento e o que mais se relacionava com meu trabalho. Muita gente escolhe um tema abstrato – “A presença da cidade no modernismo”, por exemplo, ou “O uso da metáfora na poesia de X ou Y”. Eu decidi partir de um autor e ver como poderia apresentá-lo a eventuais leitores. Coisa de professora.  Escolhi Graciliano porque era um autor cuja obra eu conhecia bem, quase de cor, tinha lido na adolescência. Meu pai tinha seus livros, alguns em primeira edição, então havia também um traço afetivo nessa escolha, a presença de meu pai que sempre foi um de meus guias de leitura. Também seu estilo direto, “papo reto” como se diria hoje, que me agradava muito, histórias contadas como quem quer ser compreendido imediatamente, com um humor discreto. E creio que, acima de tudo, nos anos 80 começava-se uma nova história no Brasil e as Memórias do Cárcere obrigavam a que se relativizassem muitos dos mitos da esquerda. Nesse momento Graciliano era, digamos, um dissidente, e isso me interessava muito. Comecei a ler a bibliografia passiva que ia, de modo geral, na mesma direção.  Pretendia fazer uma tese de síntese, reunindo as diversas interpretações em torno de seus pontos-chave. E um dia, relendo São Bernardo, tive “um estalo” e me apaixonei por Paulo Honório. Pois é, por Paulo Honório.  A partir daí reli a obra e achei minha “tese”.

Graciliano é o mais universal dos escritores brasileiros ou mundiais? Ou seria exagero dizer isso, frente a presença de um  Dostoiévsk de “Crime e castigo” ou de um Proust de “Em busca do tempo perdido”ou de um Garcia Marques?

EIiana- Não tenho coragem de responder a essa pergunta, sobretudo hoje, quando o “universal”  se fracionou tanto. Acho difícil se falar em “o mais”. A recepção de um livro depende do repertório dos leitores e os leitores hoje são muito diversos entre si. A questão-chave de Graciliano,  penso eu,  é a questão da solidão da pessoa que quer mudar de classe social sem capital, seja financeiro seja social. Essa é uma questão universal, sem dúvida. É a questão do romance como gênero, o indivíduo só diante do mundo. Mas outros autores tratam de outras questões igualmente importantes, como Guimarães Rosa e a questão do bem e do mal, do bom e do mau.

Você se tornou a brasileira morando em Paris há quase duas décadas mais solicitada pelo mundo acadêmico da Europa para pronunciar conferências sobre literatura brasileira depois de vários anos ensinando esse assunto na universidade de Lyon? Fale sobre isso.

Trabalhei em várias universidades francesas, Rennes, Toulouse leMirail, Paris-Nanterre, Lille, Reims, Lyon, ensinando, entre outras matérias (língua portuguesa, história do Brasil, etc), literatura brasileira. Trabalhei também para o Centro Nacional de Ensino à Distância, escrevendo cursos de literatura brasileira. Mas pelo amor de Deus, não sou “a mais solicitada” para pronunciar conferências, longe disso, amigo Reinaldo, só rindo com você!!!

Depois de Graciliano Ramos, quais foram  os nomes que despontaram na literatura brasileira? 

 Depois de quase 70 anos da morte de Graciliano, a literatura brasileira pode se orgulhar de ter visto nascerem muitos autores e muitos excelentes autores.  Nem vou falar de Guimarães Rosa, Clarice, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, dentre os já consagrados.  Mas queria citar Adriana Lunardi,  Georgina Martins,  Deonísio da Silva, Claudio Aguiar (Prêmio Jabuti deste ano com sua biografia de Francisco Julião), José Arrabal e Reinaldo Cabral, por exemplo!

E depois de Garcia Marques, na literatura mundial?

Ai é uma ampla pergunta que exigiria uma ampla resposta. Fico devendo, mas queria dizer que depois de Garcia Marques na literatura latino-americana houve Isabel Allende que, digam o que disserem, é um sucesso. E seu A Casa dos espíritos é maravilhoso.  Queria dizer também que me parece estar desaparecendo a fronteira que até pouco tempo separava a “alta literatura” da chamada “literatura de entretenimento”.  Penso que não se pode deixar de fora da “literatura” autores como John Le Carré, por exemplo.

Como anda a produção e leitura de livros impressos no mundo depois da internet?

Eliana - Acho que, ao contrário do que muitos querem alardear, a internet ajuda ao mercado do livro pois permite canais de difusão de resenhas e publicidade até então caros e que, por isso, deixavam muita gente de fora.

Afinal, qual o futuro do livro impresso?

Acho que continuaremos lendo livros impressos. E lendo online e nos tablets, mas sobretudo no suporte papel.

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