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Edição nº 848 / 2015

25/11/2015 - 00:00:00

Ações da Polícia Militar são temidas por 70% da população do Nordeste

Sensação de segurança deu lugar para o medo de ser vítima de policiais

José Fernando Martins Especial para o EXTRA

Um levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ONG que reúne especialistas em violência urbana do país, revelou que 70% da população do Nordeste teme ser vítima de violência por parte da Polícia Militar. A região ficou em primeiro lugar no “ranking do medo policial”, ultrapassando o Sudeste (62%), Sul (57%) e a somatória das regiões Norte e Centro-Oeste (55%). O dado, divulgado no começo de outubro, faz parte de pesquisa encomendada pela Datafolha. 

O medo da população pela Polícia Militar no estado de Alagoas segue quase a mesma proporção regional. De acordo com o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AL), Daniel Nunes, a maior parte das denúncias que chegam a seu conhecimento é referente à truculência policial. “Apesar de não sabermos precisar em números, 60% das pessoas que procuram a comissão são para reclamar da violência e abuso de autoridade”, informou. 

A tática de “impor o medo”, para Nunes, nada mais é do que um reflexo da falta de investimentos em segurança pública, que conta com baixo efetivo, salários defasados e pouca estrutura para os policiais oferecerem um serviço de qualidade à população. “Promover o medo tem seus limites, porque o bandido também se ajusta à polícia tornando o crime cada vez mais organizado”, destacou. 

Para o presidente da Associação dos Oficiais Militares de Alagoas (Assomal), major Wellington Fragoso, a PM impõe respeito e não medo. “O policial, em muitos casos, tem que ter raciocínio rápido durante uma abordagem para salvar vidas. Posso dizer que a PM é uma corporação de credibilidade, que a população sempre procura em momentos de dificuldades”.

Na quinta-feira da semana passada, 1º de outubro, Fragoso recebeu o Troféu Gogó da Ema 2015, na categoria de Liderança Militar. A premiação seria pelo reconhecimento pelo trabalho prestado em prol dos militares para combate e, consequentemente, redução dos crimes em Alagoas. No entanto, segundo Fragoso, reconhecer o bom do mau policial militar é uma tarefa importante, mas complexa de se fazer.

Em meio a casos como do jovem Davi da Silva, 17, que culminou na denúncia por parte do Ministério Público do Estado de Alagoas (MPE-AL) dos policiais militares Eudecir Gomes de Lima, Carlos Eduardo Ferreira dos Santos, Vitor Rafael Martins da Silva e Nayara Silva de Andrade, acusados de tortura e assassinato da vítima, e mistérios que cercam a morte da soldado Izabelle Pereira dos Santos, metralhada dentro de uma viatura de polícia, o major Fragoso considera crimes envolvendo militares como ocorrências isoladas.

“Fica difícil saber a verdadeira índole das pessoas, mas casos como esses são exceções. O ser humano mente e, claro, que a Assomal é contra qualquer tipo de infração por parte do policial. O papel da PM é de garantir o direito do cidadão”, concluiu. 

A corporação da Polícia Militar existe desde a vinda da Coroa Portuguesa ao Brasil, em 1808. Porém, o medo das ações da PM pode ser mais contemporâneo. Conforme o professor de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Júlio Cezar Gaudêncio, o tempo ainda não apagou da memória do Brasil a truculência da Ditadura Militar. “Além disso, podemos considerar que o medo é alimentado pelas excessivas veiculações da mídia que mostram policiais agindo contra a lei. Contudo, parte da população também acredita que o trabalho da polícia só tem efeito usando a força”. 

Contradição

Embora tema a PM, o uso da força por parte da polícia é apoiado pela metade da população. Ainda de acordo com pesquisa, 50% das pessoas concordam com a afirmação “bandido bom é bandido morto”. Conforme os dados, 45% dos entrevistados discordam dessa posição. Foram ouvidas 1,3 mil pessoas em 84 municípios com mais de 100 mil habitantes.

Na região Nordeste, 52% dos entrevistados concordaram com a máxima. O sociólogo Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, considerou essa divisão no país um bom sinal. “Como o copo está meio cheio e meio vazio, metade da população é contra [a afirmação], e isso pode ser visto com uma janela para a construção de políticas públicas. Há espaço para mudança”, analisou. 

Segundo o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas, a sensação de impunidade faz com que as pessoas transfiram o poder da justiça à polícia. “Esse tipo de argumentação, na verdade, coloca a vida das pessoas na mão da PM sem qualquer possibilidade de defesa e julgamento”.

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