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12 de Novembro de 2018

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Edição nº 847 / 2015

17/11/2015 - 21:00:00

Olhos verdes

Fernando Tenório* [email protected]

A madrugada já era alta. Lá pelas duas, três da manhã, recebo um comando no rádio: código um, destino Tijuca. Quando a ambulância já havia disparado a mil, deram o endereço de forma mais precisa. Deveríamos rumar até a estrada antiga da Tijuca. Para um asilo de idosos.Chegando ao lugar, reparei numa casa com os ares aristocráticos de outrora. O microclima era próprio. Devido à proximidade da floresta, pude notar um vento gélido, úmido e um tanto quanto limpo. Era uma mansão amarela, e mesmo o negro da noite não conseguiu ofuscar o verde que a cercava.

 

A pressa é uma coisa ridícula. E devo confessar que ela me acompanhou, até pela necessidade. Passei como um raio pela saleta que antecedia o quarto do paciente a ser atendido. Ainda assim, consegui notar uma senhora de olhos verdes que revelavam beleza. Olhos verdes e tristes, que me diziam: já fui bonita.

 

Tive de evitá-los, pois senti que aqueles olhos tinham muito mais a dizer, e a pressa era o que vigorava. Vi unhas vermelhas e bem feitas nas mãos que também carregavam um cigarro. Desviei. Caminhei mais alguns metros e encontrei o paciente. Logo disseram:

 

– Não pergunte nada a ele. Tem demência, não sabe nem localizar a dor.E, de fato, ocronica homem não conseguia responder sobre sua própria condição. Passaram o caso. Ele havia perdido muito sangue e precisava ser encaminhado para um hospital rapidamente. Enquanto a vaga era reservada e algumas medidas tomadas, notei a senhora dos olhos verdes chegar ao recinto. Já sem o cigarro, lânguida, arrastou-se até lá. As acompanhantes do lugar pediram para ela ir dormir.

 

Disseram que era o terror do sono alheio, insone, passando a noite vagando entre os quartos. Antes de qualquer coisa, era um incômodo, uma desviante por não vegetar. Chamaram-na de zumbi e ouvi também rapidamente o nome estorvo. Por não se entregar à cama que nunca foi dela – nem nunca será –, era um estorvo. Contaram rapidamente que ela queria ser o centro das atenções e atribuíram ao fato de, no passado, ter sido chacrete quase famosa. E eu com pressa.

 

Julgando pelo que me diziam.Voltei a atenção para o homem doente. Os olhos perplexos e perdidos pediam socorro. O corpo emagrecido denotava padecimento. Não havia ninguém por ele, exceto desconhecidos. Perguntei internamente: o que fez para merecer isso? Nunca saberei se pecou como pai ou esposo, se abandonou a família e hoje recebe da vida a solidão como eco dos seus próprios feitos, ou se foi presente e recebeu a ingratidão como recompensa. São os desígnios da vida, que não consigo compreender nem explicar.

 

Com a vaga já resolvida, colocamos o paciente na maca, visando a um rápido acesso ao hospital. Passamos pela saleta novamente. Lá estava a senhora, se entregando ao cigarro da insônia. Enquanto abriam a porta, ela balbuciou, apontando para o homem enfermo:

 

– Tenho inveja.Devo ter lançado um olhar de reprovação, típico de quem julga com pressa. De quem avalia por seu crivo único e arrogante. Devo ter raciocinado como alguém inveja a doença de outro, como é capaz de desejar o sofrimento alheio para si. Julguei do meu lugar de jovem que tem esperança no mundo, mas sem saber nada da história dela. Dos motivos de falar aquilo. Ao notar o semblante que esbocei, um olhar vivo surgiu nela. Uma postura ladina foi fabricada para dizer:

 

– Pelo menos esqueceu que se esqueceram dele.Baixei os olhos e torci para que a porta fosse aberta o mais rápido possível.

 

Quando não temos respostas, preferimos a fuga.Enquanto a ambulância seguia e o paciente agonizava, aquelas palavras não saíam da minha cabeça. A imprevisibilidade da vida e sua fugacidade. Ela, na sua época mágica, no auge, quando a beleza era sua aliada, deve ter rejeitado tantas atenções, tantos cuidados – e hoje prefere esquecer que esses já não existam mais. Deve ter tido homens aos seus pés.

 

Frequentado jantares e lugares como se não houvesse amanhã. Hoje, prefere o fim ao esquecimento. Prefere uma dor corpórea, que tem localização exata, à agonia difusa que sente.

 

Uma tão pesada que preenche, sem deixar espaço para mais nada.Chegamos ao hospital e entreguei o paciente aos cuidados de outros colegas. Deixei-o lá, mas os olhos verdes suplicantes daquela mulher continuaram me seguindo.*Médico formado pela Ufal, é alagoano de Maribondo e tem 26 anos. Residente em Psiquiatria no Hospital Philippe Pinel, no Rio de Janeiro, é autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela Editora Viva em 2014.

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