Acompanhe nas redes sociais:

23 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 846 / 2015

11/11/2015 - 00:47:00

Economista defende novo pacto entre Governo Dilma e Congresso

Mestre e PhD Maurício Romão diz que este é o momento de buscar uma “saída de concertação nacional”

Da Redação

O agravamento da crise enfrentada pelo Brasil tem preocupado a população em geral e não poderia ser diferente segundo avalia o mestre e PhD em economia pela Universidade de Illinois Maurício Romão. O economista garante que é possível reverter a situação, mas para isso o governo brasileiro precisa preservar conquistas como democracia, estabilidade monetária e a inclusão social.

Romão diz que diante da paralisia do Brasil em termos econômicos e sociais e o embate entre situação e oposição a alternativa é encontrar uma solução coordenada que favoreça uma saída de concertação, de acordo e consenso. E cita o exemplo do pacto de Moncloa, na Espanha em 1977, onde um acordo modificou a estrutura daquele país que passou a ser eficiente. Relembrou ainda da “Agenda 2010” na Alemanha (2003), onde a parte política após a incorporação da parte Oriental sentiu a necessidade de entendimentos entre os partidos e as centrais sindicais para absorver o contingente. Com isso, a Alemanha conseguiu lidar com a época da crise de 2008, na zona do Euro.

O economista cita ainda o caso mais recente, do México, onde um conjunto de partidos, pessoas e centrais sindicais se uniram para formar o Pacto Pelo México (2012), que também foi um movimento de concertação, onde se buscou o interesse comum e o desenvolvimento. Na verdade, foram mais de 100 acordos que deverão vingar até 2018, mas que estão em andamento. Diante desses casos, Romão afirma que no Brasil é possível um consenso, um entendimento nacional.

Romão explica que a agenda de concertação brasileira só será possível com a preservação de conquistas que estão ameaçadas como a democracia, a estabilidade monetária que nos trouxe de volta a dignidade, enquanto País e a própria inclusão social que demora para ser conquistada, mas se dissipa rapidamente. “Você vê que alguns movimentos de rua pedindo a volta da ditadura militar. Sei que isso está longe, mas são indícios de que se você não preservar esse legado, pode prejudicar o País. E o caso da estabilidade da moeda, nós estamos com uma inflação de 10%, enquanto a média mundial é de 3%. Pouquíssimos países do mundo, como a Argentina, Rússia e Venezuela, têm inflação maiores que a nossa.”

O economista diz ainda que uma pesquisa recente apontou que o grupo de família que ganha de dois a quatro salários mínimos e compreende a Classe C, a chamada nova classe média, e que compreende cerca de 40% das famílias brasileiras, é muito mais crítico ao governo do que a média do Brasil. “Então, se a Dilma tem 68% de ruim/péssimo, essa classe representa 73%. Se a presidente tem 10% de ótimo ou bom, essa classe compreende 7%. A Classe C está revoltada, porque está sentindo os efeitos da crise. Teve que devolver a linha branca que comprou no crediário, teve que devolver a bicicleta, ou o marido está sem trabalho. Logo, a gente entra nessa luta. Tira Dilma, fica Dilma, bota Dilma… É uma situação de desleixo com o que está acontecendo. As estatísticas mostram que 2015 está perdido e 2016 está praticamente perdido se a gente não tomar outras providências. Então, este contexto me incentiva a me enfileirar junto com aqueles que hoje estão propondo o entendimento”.

O economista disse ainda que é difícil a situação ser revertida, pois há a ausência de líderes para promover a concertação, mas não é impossível. E afirma que devemos primeiro resolver esse problema da dívida, que é o grande empecilho, um ciclo vicioso que se promoveu e segundo, inaugurar uma ação emergencial para Estados e municípios. “Por último, criaríamos uma ação também emergencial de proteção contra a recessão e desemprego”, explica.

Ele não descarta a aceitação de uma CPMF, porque estaria no bojo de uma formatação mais ampla. Mas alerta que aceitar a CPMF agora, para tapar um buraco das contas públicas que nem o governo sabe quanto é, fica difícil. “Hoje, temos a notícia de que a dívida pode ser de R$ 52 bilhões ou R$ 63 bilhões, se as usinas não forem vendidas. Ela também pode aumentar para R$ 100 bilhões se o TCU exigir o pagamento das pedaladas. Que sinalização você tem para o mercado, se o País não tem condições de mostrar nem suas próprias contas?”, questiona.

A longo prazo, Romão inclui a chamada “agenda das reformas estruturais”, que compreende as reformas da previdência, reforma trabalhista, reforma política e um novo projeto de inserção internacional do Brasil. “Hoje, estamos perdendo espaço entre os grandes blocos econômicos mundiais. Não vamos sair desse buraco se não for através de entendimento”, sinalizou.

Para o economista, a situação do Congresso, hoje, é uma decorrência da fragilidade do Executivo, que transferiu para os outros poderes algumas das suas prerrogativas políticas, inclusive a econômica. E mostra que o governo está completamente desacreditado para tomar qualquer iniciativa que possa melhorar essa situação. Como está sem credibilidade e a presidente está com a popularidade em baixa, o protagonismo muda de locus. “Sai do Executivo e vai para o Congresso, que é uma casa que tem 513 parlamentares, de várias tendências distintas. O governo, que está incapaz de sinalizar como é que ele vai resolver o problema, deve primeiro sinalizar para o comprometimento com o ajuste. Mas hoje, até o próprio PT é contra. Lula é contra, pede a saída do ministro da Economia e a presidente não o faz. Isso mostra que o Executivo não está comprometido. A questão política afetou a questão econômica e ela se retroalimenta”, disse, ao acrescentar que quanto mais desgaste político, mais a situação econômica se deteriora, porque sinaliza para os mercados que você não tem condições de reverter a situação.

Na visão do economista, os investidores percebem que o governo não tem como estabilizar a dívida e não está comprometido com o ajuste. Então vai para o porto seguro, que é o dólar. “Quando o dólar aumenta, encarece as importações e isso também afeta a inflação. Na sequência, o Banco Central tem que atuar aumentando os juros para baixar a poeira daquela inflação, o que aumenta a nossa dívida. Parte dos nossos títulos está atrelada à taxa Selic, que está em 14,25% ao ano e custa R$ 500 bilhões por ano, só de juros. Quando você aumenta isso, aumenta o déficit nominal e sinaliza que não tem condições de manter aquela trajetória constante. Então, os investidores vão para o dólar. E aí começa o ciclo novamente. Esse ciclo é vicioso. E o epicentro disso é exatamente o déficit fiscal. Enquanto não resolver esse déficit, você não tem condições de fazer nada”.

Romão aconselha ao governo Dilma que é melhor assumir o déficit, porque sinaliza para o mercado que está com dificuldades. Isso vai baixar a nota do País de novo, mas o Brasil não consegue mais enganar o mercado, que está trabalhando com o déficit primário. Também disse que acha difícil o País atravessar este momento sem mexer nos programas sociais, pois embora sejam importantes, hoje ultrapassam a capacidade que o Estado tem de mantê-los.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia