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20 de Novembro de 2018

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Edição nº 846 / 2015

11/11/2015 - 00:07:00

A enlutada

Fernando Tenório* [email protected]

Todo o tédio do mundo acompanhava um chuvoso domingo à noite, quando recebi uma mensagem: 

- Amigo, estou no Rio de Janeiro e quero te encontrar.  Eu estava descansando, esperando a coragem voltar para poder encarar uma pilha de pratos que me desafiava desde o início da tarde.

Tentei utilizar o argumento do trabalho no dia anterior e dos afazeres domésticos pendentes, mas minha amiga jogou duro: - Estou necessitando de um abraço.

Há dois meses perdi o meu amor. Estou enlutada e precisando de atenção. Não tive como negar. Minha amiga goiana, Poliana, sempre teve o sorriso como aliado, mas depois da perda do marido havia mudado. Nas redes sociais eram declarações de amor eterno e mensagens de autoajuda. Gritava sua dor de mulher infeliz. Avaliei tudo isso e pedi para que ela viesse ao meu encontro em Copacabana. A enlutada prontamente aceitou, avisando que sua companheira de viagem - uma prima desanimada

- não queria ir. Imaginei que dali iríamos para algum barzinho falar sobre tristeza, solidão, sonhos desfeitos. Os assuntos não seriam agradáveis, porém a amizade de tantos anos me chamava à situação. Tomei um banho e me pus a esperar no sofá. Estávamos separados por umas dez quadras. Quando percebi estava acordando. Um cochilo. Mais de cinquenta minutos transcorridos. Resolvi ligar para minha amiga, porém o telefone estava desligado.

Mensagens telefônicas foram enviadas, mas os avisos de recebimentos não aconteciam.  Pensei numa raiva súbita de quem havia levado um bolo. Logo, liguei para portaria e o porteiro ratificou que ninguém esteve me procurando, resolvendo parte da culpa. Todavia, naquele momento, gelei. Algo me dizia que aquele sumiço não era um bom sinal. Seguindo meus instintos, resolvi ligar para a prima “desanimada” e companheira de viagem da minha amiga. Ela foi clara: 

 - A Poliana saiu. - Há quanto tempo? -  Pegou um táxi há quarenta minutos. Fiquei ainda mais preocupado. Dez quadras seriam atravessadas em menos de cinco minutos. Liguei dez vezes seguidas e nada de novo: o telefone está desligado. Sentei no sofá a esperar, pois era isso que me restava a fazer.

Olhei para o relógio e o vi marcando onze da noite. Tentei ligar infinitas vezes, pensando em todas as tragédias possíveis, a cada meia hora. A angústia só aumentava, até que às três da manhã meu telefone tocou. Era ela. Era o sequestrador. Era a dúvida. Ao ouvir a voz de Poliana, vibrei. A sumida disse:

 - Desculpe, amigo. Aconteceram uns problemas e tive de resolver.  - Podia ter avisado. - Problemas assim não podem ser comunicados. Fiquei trêmulo, imaginado que aquela frase tinha mais significados e cobrei explicações: 

- O que está acontecendo? - Quer saber das minhas intimidades? Pronto, eu falo. Fiquei com o taxista. - Como assim? - O taxista era um cara bem bacana e perguntou o motivo do meu rosto de choro. Expliquei que perdi o Beroaldo há dois meses e ele me deu uma força. Contei da falta que o finado faz na cama. - E aí?  

- O taxista pensou e disse: “podemos fazer uma coisa”. Ele propôs que fôssemos ao motel, numa homenagem póstuma ao Beroaldo. Eu poderia chamá-lo com o nome do finado e tudo o mais. O corpo era dele, mas o espírito era do meu grande amor. - E você topou? - Foi o jeito. Achei a proposta interessante, uma forma de quebrar o luto.  

- Devia ter me avisado! - Que chato! Fica querendo devassar a minha vida sentimental. Estou relaxada e vou dormir. Acho que você deveria fazer o mesmo. Amanhã a gente se encontra. - Claro, podemos nos ver sim, mas cuidado com o táxi que vai pegar.

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