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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 842 / 2015

14/10/2015 - 08:35:00

Morador de rua cuida de cães em canteiro de avenida em Maceió

Gilberto, que aparenta ter problema mental, vive com os animais há 17 anos

Maria Salésia [email protected]

Luquinha, João, Paulinho, Matheus, Priscila, Paula, entre outros, são alguns dos 16 cachorros que o morador de rua Gilberto cuida há quase 17 anos como se fossem sua família. Tem ainda o Gilberto, um vira-lata de pelo amarelo que ele apresenta como seu xará. O dono da cachorrada passa o dia no canteiro da Avenida Durval de Góes Monteiro, na parte alta de Maceió, com os animais amarrados aos troncos das árvores. À noite, ou quando chove, eles se recolhem debaixo de uma marquise de loja, que aponta como sua casa e dos “meninos”.

A cena afetuosa é um atrativo à parte. É impossível passar pelas imediações do retorno de quadra após o cemitério Parque das Flores e não observar a imagem. Gilberto fica quase sempre sentado em um balde ao lado dos cães que latem em coro se algum estranho se aproxima de seu dono. Arisco, ele se mostra arredio quando alguém tenta puxar conversa e vai logo avisando que não larga seus amigos por dinheiro algum. Dizem que até um pitbull já fez parte do grupo, mas ficou por pouco tempo.

O canil a céu aberto chama a atenção das pessoas. Cada cão tem um vasilhame com água limpa e comida. Aparentemente mostram-se saudáveis e felizes. Para manter os amigos, ele disse que trabalha ali (no sinal), mas um funcionário de uma empresa próxima ao local disse que ele varre a vala e as pessoas ajudam na manutenção dos animais. 

Gilberto reclama que muitas pessoas param no local mas não o ajudam. “Querem apenas atormentar ou pegar meus cachorros”. Alheio ao que acontece ao seu redor, em outro momento da abordagem mostrou uma pasta com alguns papéis e disse que era com documentos, mas guardou em seguida sem dar chance para ver o conteúdo. Não permitiu saber idade, sobrenome e outros dados pessoais.

Na verdade, o morador de rua acolhe os cães que a sociedade descarta. Alguns são animais abandonados por seus donos. A coisa é tão escandalosa que certa vez uma mulher desceu de seu carrão e entregou um animal para Gilberto. Foi o que relatou um trabalhador das proximidades.

A amizade entre Gilberto e os cães depende do tempo de convivência. Ele afirmou com orgulho que protege os amigos e eles cuidam dele também. “Não deixo eles por nada desse mundo. Para onde eu for eles vão junto e ninguém tente tirá-los de mim”, avisou, ao acrescentar que não falta nada para os animais, principalmente carinho. “Não é, meus filhos?”, perguntou olhando para a bicharada. 

A ligação entre eles é tanta que Gilberto afirmou que se tiver que deixar de comer para dar a eles não tem problema. O morador de rua disse ainda que recebe proposta de pessoas que querem acolher seus animais de estimação, mas nenhum está à venda, não tem preço. “Para tirar eles daqui tem que me levar junto”. E falou do sonho de ir viver em São Paulo, que lá não seria morador de rua, mas adiantou que quem quiser ajudar na realização desse sonho tem que abraçar também seus “bichinhos”. “Vão junto”, completou.

O jornal EXTRA entrou em contato com o Centro de Zoonose de Maceió para saber se tem conhecimento do caso. A informação foi que houve inspeção no local e que nenhum animal apresentava sinal de maus tratos. Além do que qualquer animal de rua não é público alvo do Centro e sim o que apresentar suspeita de zoonose.

A coordenadora Fernanda Araújo disse ter conhecimento do envolvimento emocional de Gilberto com os cães e garantiu que os animais não serão retirados dele. Só se estivessem ameaçando a saúde pública, e não é o caso. Ela sugeriu manter contato com órgãos ligados à saúde pública que lidam com pessoas em situação de rua para saber se Gilberto tem algum acompanhamento. “Aqueles animais são a vida dele. O caso envolve outras instâncias que possam cuidar dos animais e do dono”, disse, ao afirmar que o órgão está à disposição se for necessário alguma intervenção.

A FAMÍLIA

Gilberto herdou o nome do pai. É filho de seu Gilberto, um carreteiro. e de uma costureira que não revelou o nome. Ficou órfão de mãe aos 17 anos e disse que o pai a maltratava muito e aos irmãos também. Por isso, não gostava dele.  O morador de rua vivia com a família no Flexal de Baixo, em Bebedouro, com mais três irmãos. Mas sempre gostou de morar na rua. 

A pessoa que nos ajudou a se aproximar de Gilberto disse que trabalhou com o pai dele e que era uma pessoa rude com a família. Lembrou ainda que o carreteiro sempre falava desse filho desajustado e de outro que foi assassinado por fazer coisas erradas. “Pode chegar no Flexal e perguntar quem era seu Gilberto, todo mundo conhecia. Agora da mãe não lembro o nome porque minha convivência era mais com seu Gilberto”,  relembrou, ao acrescentar que ele ficou mais abandonado com a morte dos pais.

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