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Edição nº 842 / 2015

14/10/2015 - 08:20:00

Jaraguá e a praça em que os leões venceram um general

Edberto Ticianeli Jornalista

Quando o tenente coronel português Sebastião Francisco de Mello e Povoas desembarcou em Jaraguá no ano de 1818, a região portuária era ainda um arruado apartado de Maceió. Nos anos seguintes, vários investimentos seriam realizados na Vila de Maceió, principalmente os voltados para as atividades do porto com a instalação das repartições fiscais e a defesa da área de atracação e de construção de barcos.

Em 1820, ao mesmo tempo em que são instaladas as baterias reais de São João e São Pedro, Jaraguá também recebe investimentos da Igreja Católica com o início da construção de uma capela em homenagem a Nossa Senhora Mãe do Povo. O local escolhido foi o final do arruado, próximo aos casebres de palhas dos pescadores do começo da Pajuçara.

A exemplo de outras obras iniciadas nesse período, que evoluíam lentamente por falta de recursos, a simples capela só foi concluída em 1º de agosto de 1827,no mesmo ano em que foi criada a freguesia.

Localizada onde hoje é a Praça Bom Jesus dos Navegantes, a capela, seguindo a tradição da época, teve uma área à sua frente naturalmente reservada para as festas religiosas.

O crescimento das atividades portuárias de Jaraguá e o consequente desenvolvimento da Vila de Maceió levam segmentos econômicos de Alagoas a discutirem a mudança da capital de Alagoas (então Marechal Deodoro) para Maceió, fato que só aconteceria em 1939, após muita disputa política.

Maiores investimentos em Jaraguá só voltariam a acontecer a partir de 1865, quando o engenheiro Carlos de Mornay projetou a Ponte de Embarque para uma área próxima da Praia da Avenida. Entretanto, em 1868, quando a obra mal tinha começado, o então governador Graciliano Arestides convenceu a empresa construtora a mudar a sua localização. 

“O local destinado para esta obra não me pareceu o mais apropriado. Em conferência com o superintendente Hugh Wilson fiz ver isto e exigi que declarasse se podia ser em frente do largo da Matriz, que por mais espaçoso e mais próximo ao recife, onde o mar é menos encapelado, mais comodidade oferece aos passageiros”. A mudança foi aceita pela empresa construtora e a ponte foi inaugurada no novo local em 1870.

Com a capela e a Ponte de Embarque, o local passou a ser mais valorizado e atraiu a construção do Consulado Provincial. Em 1868, o presidente da província José Bento Figueiredo Júnior considerava um desperdício do dinheiro público pagar aluguel de 60$000 rs (reis) para se ter instalado o Consulado Provincial. “Melhor fora construir um edifício próprio nas proporções indispensáveis”.

Em 1870, o presidente José Bento Figueiredo Júnior inaugura o consulado projetado pelo engenheiro Carlos Mornayce autoriza a construção de um jardim no Largo da Capela, justificando que “além do pequeno jardim do Palacete, não havia outro ponto que servisse de refrigério e recreio à população”.

No relatório à Assembleia, o presidente informa que o jardim ficará em frente ao edifício do consulado e que será fechado com muro, gradeamento e portão de ferro. “O viajante, ao saltar, ficará agradavelmente impressionado, deparando com uma praça de estilo moderno, tendo em frente um elegante chafariz, no centro bancos, canteiros e arborização, e sobre pilares do muro lampiões que mais tarde podem ser iluminados a gás carbônico”. Assim surgiu o Jardim do Jaraguá, ocupando a área onde hoje se situa a Praça Dois Leões.

Preocupado em guardar simetria entre as obras da Ponte de Embarque, consulado e a praça, José Bento Júnior observou que a construção de entrada da Ponte de Embarque, que ficava em um dos lados do consulado, exigia uma obra semelhante do outro lado. Ele preocupou-se em dar utilidade para a obra: serviria para acomodar o corpo da guarda do consulado.

Prova da importância que adquiriu o entorno da praça foi a iniciativa do presidente da província que conseguiu com a Companhia Bahiana que os trilhos de ferro, que ligavam Jaraguá ao Trapiche, fossem prolongados até a nova Ponte de Embarque.

Mas, como nem tudo são flores, mesmo nas praças, em 1872 o então presidente da província, Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, apresenta relatório sobre o ano anterior e informa que encontrou o Jardim de Jaraguá abandonado e que mandou fazer reparos.

“Será um recreio muito agradável que terá no futuro a população de Jaraguá. Já que tão avultada despesa se fez com esta obra, que muito concorrerá para o aformoseamento do porto, cumpre que o governo não abandone-a, e ao contrário lhe dê todo possível aperfeiçoamento”.

Em 1876, foi a vez da construção do consulado também receber críticas. O presidente João Thomé da Silva informou à Assembleia que a cobertura do edifício precisava de reparos por causa das goteiras. “Conviria antes reconstruí-la, em vista da má construção que recebeu”.

Outro investimento importante realizado em Jaraguá, que também afetou a praça, foi calçamento da Rua da Alfândega, concluído em 1877, no governo do presidente Pedro Antonio da Costa Moreira.

Nesta época, o Jardim do Jaraguá era aberto ao público com horário de visitação determinado pela intendência: de segunda à sábado, das 15:00 às 18:00 horas, e aos domingos, das 6:00 da manhã às 18:00 horas. Esse horário também era adotado pelo jardim da Praça D. Pedro II, no Centro de Maceió.

No dia 15 de janeiro de 1888 tem início a construção da atual igreja matriz de Jaraguá, que passou a ocupar a área dos fundos da Capela. Com o recuo a igreja deixou de ter a fachada alinhada com a atual Rua Barão de Jaraguá, mas ganhou a Praça Bom Jesus dos Navegantes. A nova Matriz só foi entregue aos fiéis em 29 de abril de 1923.

Em 1905, o Jardim de Jaraguá está destruído, como relata o Intendente, Manoel Sampaio Marques, ao autorizar a sua demolição para a construção da Praça Wanderley de Mendonça em homenagem ao engenheiro civil José de Barros Wanderley de Mendonça, que foi intendente de Maceió (1901 a 1903), secretário de Estado e deputado federal.

“Realmente o que ali ostentava o nome de jardim não passava de um local destinado ao agazalho dos animais vagabundos daquelle bairro. Foi, pois, meu primeiro cuidado reforma-lo, como dezejava, emprestando-lhe um aspecto que bem dissesse com o nosso adiantamento moral e progresso material”, explica Sampaio Marques.

O projeto da praça fica a encargo de Rosalvo Ribeiro, recém-chegado de Paris. É esta reforma que traz da Europa as estátuas decorativas, entre elas o leão e o tigre que seria promovido a leão. Com a imponente presença da realeza animal, não demorou e a vontade popular se fez valer e a praça passou a ser conhecida como a dos dois leões.

Um dos equipamentos mais importantes da praça, a Recebedoria, é ampliada em 1918 e recebe um segundo pavimento. A reforma do prédio foi acompanhada pelo arquiteto José Diniz da Silva.

Em 1922, como parte das comemorações do centenário da independência do Brasil, a Praça Dois Leões ganha um obelisco.Por força do Decreto nº 33 de 29 de setembro de 1936, a praça passa a se denominar General Lavenère Wanderley, em homenagem ao militar alagoano morto na Paraíba durante a Revolução de 1930. 

De nada adiantou o decreto. Teimosamente, os dois leões foram se impondo regiamente como donos do local e jogaram no esquecimento o intendente e o general. Para oficializar o que a vontade popular já tinha definido, o vereador Enio Lins, em 1990, fez aprovar lei regularizando vários nomes de ruas e praças da capital.  Assim, a Lei nº 3998 de 7 de agosto de 1990 definiu de uma vez por todas que a praça é dos Dois Leões, mesmo que um deles seja um tigre.

Fontes: Memórias de Minha Rua, Félix Lima Júnior, 1981; Irmandades, Félix Lima Júnior, 1970; Maceió, Craveiro Costa, 1981; “Jardim público do Jaraguá”, porta de entrada de Maceió no século XIX e XX. Josemary Omena Passos Ferrare e Tharcila Maria Soares Leão, 2014; site da Câmara Municipal de Maceió; e reportagem de Rivângela Gomes, “Maceió em preto e branco: a história da cidade revelada em fotografias”, de 23 de março de 2013. G1, Alagoas.

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