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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 842 / 2015

14/10/2015 - 06:44:00

Os olhos de Deus

Fernando Tenório* [email protected]

PRIMEIRO ATO: O ROUBO DO SORVETE

As pessoas já se escondiam em suas casas, pois uma garoa fina começava a cair e o relógio já marcava quase dez horas da noite, quando desci do ônibus na Rua Barata Ribeiro.

Fui andando em direção ao meu antigo prédio sem ser importunado pela imagem de ninguém. Vi que uma mulher varria a sorveteria, enquanto outra empilhava os bancos. Senti que em breve o local com o melhor sorvete de Copacabana fecharia e resolvi comprar uma amarena de que gosto tanto, mesmo que a noite chuvosa fosse quase um impedimento.

Saí de lá depois de perceber a cara feia da atendente destinada ao último cliente, mas sem dar a mínima para isso. Atravessei o cruzamento que me levaria à Rua Santa Clara de maneira preguiçosa e distraída, com o sorvete quase intacto. Sem esperar, senti um impacto na mão direita e vi um vulto correndo. Demorei a perceber que tive o meu sorvete – e somente o sorvete – roubado.

SEGUNDO ATO: O VULTO GANHA ROSTO

Cheguei ao meu prédio com a sensação de impotência e compartilhei o ocorrido com Reginaldo, o porteiro. Ele serenamente disse:

- É maluco que mora aqui na rua chamado Natanael. Você deve ter visto já quem é, mas não deve lembrar. O coitado só faz isso quando está com fome. Perdoe o bichinho! Aquele mendigo é pinel!

Aquela frase de Reginaldo tirou um pouco da minha impotência e da responsabilidade do vulto que acabara de me tomar o sorvete. Agora o gatuno era alguém com fome que atacou ferozmente minha sobremesa e que só podia saciar a única coisa que tinha em si.

No dia seguinte, acordei logo cedinho e a troca de porteiros ainda nem havia ocorrido. Passei pela portaria e Reginaldo falou:

- O ladrão de sorvetes está dormindo na marquise aí do lado.Antes de ir ao trabalho, olhei a figura atirada no chão com curiosidade, medo e espanto. Ele estava entregue ao sono dos justos, sem nenhum sobressalto, tão entregue ao mundo que parecia saber tudo sobre o todo que o cercava.

O vulto agora ganhava contorno: a barba grande, a poeira dos intermináveis dias sem banho entranhava a pele mulata queimada pelo sol, a roupa preta, o sapato preto e face serena de quem espera muito da vida.

TERCEIRO ATO: O CONTATO VITAL

Sempre via Natanael depois do incidente que nos uniu. Ele sempre esteve ali, mas meu preconceito salpicado com pressa não me deixava ver. O medo transformou-o numa figura imensa que eu podia ver ao longe, sentindo a presença no ar.

O tempo passou e o homem que havia me roubado já havia virado novamente sombra. Porém, ao receber meus familiares no último fim de semana de agosto, percebi, quando estávamos lanchando próximos a minha casa, os olhos famintos de Natanael voltados ao sanduíche que minha irmã comia. Agi mais rápido e falei:

- Você quer um?Ele arregalou os olhos e assustado respondeu:

- Sim.O homem se atirou ali na comida como se não houvesse o amanhã. Não havia bondade no meu ato. Não havia uma caridade genuína. O que eu desejava era evitar um susto para os meus, e assim reduzir os danos com a atitude.Quando eu estava indo embora, uma voz familiar disse:

- Aí...Eu também tenho um negócio aqui para te dar na moral. É bom, de primeira!De dentro da mochila, Natanael puxou vários jornais, revistas, roupas e lá no fundo, escondida como um tesouro, encontrou uma garrafa pequena de cachaça com mel. Disparou:

- Só um golinho, hein?

Quebra o frio, vá por mim!Vi naquele simples presente muita coisa. Sabe-se lá o motivo, acabamos nos aproximando, se é que podemos chamar assim, e o homem sempre me acompanhava até meu apartamento pedindo algo e chamando para “beber uma gelada qualquer dia”, dizendo que um dia Deus iria me retribuir aqueles lanches subvencionados.

QUARTO ATO: ZONA SUL X ZONA NORTE

No dia vinte de setembro, saindo do Cine Joia, após ver “Que horas ela volta?”, fui informado pelos transeuntes:- Não pode sair agora. A galera da zona sul resolveu quebrar esses “bandidozinhos” da zona norte.Quando saí, vi um cenário de guerra. A Avenida Nossa Senhora de Copacabana estava em polvorosa, com um trânsito imenso.

Ouvi “bem feito!” aqui e “agora eles estão vendo o que é bom...” ali. O medo dominava no meu regresso ao lar, mas logo vi Natanael e não consegui passar sem falar nada. Ele estava encostado num carro vermelho, vendo tudo. Eu alertei:- Vá para outro lugar, rapaz. Aqui está perigoso!- Não há perigo para mim. Eu sou os olhos de Deus! Ele já viu tudo: os brancos batendo nos pretos.- Vá para outro lugar!

- Vou não! Deus precisa ver isso. Preciso entregar para Ele o mundo em ordem!Fui para casa pensando. Pensei nas questões que uniam Natanael tão firmemente ao criador, mas logo tangenciei para a pergunta: e se Deus visse o mundo pelos olhos do mendigo, como seria?

Deus nos olharia curioso e receberia de volta o desprezo, a comida negada, a escola fechada, a casa que não existe, o pontapé dado pelo dono de boteco, a indiferença por parte da beata, o meu medo.

Deus nos olharia curioso e receberia de volta uma reprimenda da Polícia Militar por não ter dinheiro no bolso para ir à praia, levaria um baculejo dentro dos ônibus lotados que vão até a zona norte, apanharia de quem defende a violência como forma de aprendizado, seria amarrado no poste, queimado em pontos de ônibus, assaltado enquanto ia ver o pôr do sol no Arpoador, veria as mulheres buscando seus direitos e sendo reprimidas, assediadas e estupradas. Deus nos olharia com preguiça ao saber que renegamos tantos por não serem exatamente como queremos.

Ao ver pelos olhos de Natanael, Deus deve fechar os Seus, envergonhado e arrependido, para não ver a quantidade de besteira que andamos fazendo por aqui, enquanto clamamos por Ele.

*Médico formado pela Ufal, é alagoano de Maribondo e tem 26 anos. Residente em Psiquiatria no Hospital Philip-pe Pinel, no Rio de Janeiro, é autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela Editora Viva em 2014.

 

 

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