Acompanhe nas redes sociais:

24 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 841 / 2015

07/10/2015 - 17:59:00

Olhar de Nise é aclamado e emociona plateia no Festival de Cinema de Brasília

Documentário, rodado no Rio, Alagoas e na Alemanha, conta a história da psiquiatra alagoana Nise da Silveira que se rebelou contra o choque elétrico e optou pela arte-terapia no tratamento das doenças mentais em hospitais no Rio

Da redação

Olhar de Nise, o filme de Jorge Oliveira e Pedro Zoca, que abriu a Mostra Panorama Brasil do 48º Festival do Cinema de Brasília, foi ovacionado e aplaudido de pé por uma plateia emocionada que lotou o cine Cultura Liberty Mall, que esgotou a sessão meia hora depois de abrir a bilheteria para a venda de ingressos. A crítica considerou um dos melhores filmes do festival pelo resgate da história, a reconstituição de cenas, a fotografia, a direção e a estética. O filme mostra várias entrevistas com personagens da cultura e da área psiquiátrica que conviveram com a doutora Nise, como o poeta Ferreira Gullar, Elke Maravilha, ex-pacientes, artistas plásticos, escritores e outras pessoas do meio artístico do Rio de Janeiro. Entre pesquisa, produção e finalização, o filme demorou quase seis anos para ser concluído. A última gravação foi feita na Alemanha, onde mora o artista plástico Almir Mavignier, que ajudou  Nise a implantar a arte-terapia dentro do Hospital D. Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio. 

va de Ana Maria Rocha, que também montou o documentário com Tuca Oliveira, resgata a história da psiquiatra Nise da Silveira, a primeira mulher alagoana a se formar em medicina na Bahia, numa turma só de homens. Mostra uma entrevista inédita de 1997, dois anos antes de ela morrer, na qual a doutora conta a sua trajetória vida: a infância em Maceió, a passagem pela Faculdade de Medicina em Salvador, a chegada ao Rio de Janeiro, a sua prisão no governo do ditador Getúlio Vargas, onde ficou uma cela vizinha ao escritor Graciliano Ramos, conterrâneo, e o seu ingresso ao Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, em Botafogo

O filme, um longa-metragem de 90 minutos, também tem reconstituição de cenas no Rio de Janeiro e em Alagoas. Em Maceió, onde ela nasceu e saiu para cursar medicina em Salvador, e, no Rio, onde trabalhou e viveu entre os loucos no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro.  Em uma das cenas, Nise da Silveira, no leito da morte, lembra do marido Mário Magalhães, médico sanitarista, primo legítimo, com quem viveu no Rio de Janeiro até a sua morte, que a chama para dançar uma valsa.

- É uma cena comovente – diz o diretor Jorge Oliveira. – É o início do filme. O casal é interpretado pela atriz Mariana Infante e pelo ator Rafael Cardoso, da TV Globo. Busquei trazer para tela o grande sonho da Nise que, quando estava à beira da morte, falou que o marido a chamava para dançar. Acho que realizei o grande sonho dessa mulher que está, sem dúvida, entre as grandes personagens do século XX.

Uma parte do filme foi rodado no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro. Lá, a produção recriou uma ala do hospital, onde os doentes eram submetidos a choques elétricos, condenados por Nise. O documentário também traz para as telas, pela primeira vez, os principais quadros dos pacientes do Engenho de Dentro. Entre eles, estão pinturas destacadas pelas críticas de Isacc, F. Diniz, Adelina, Rahpael, Carlos, Petrus, Emigdio, cujas histórias são narradas pela própria Nise na entrevista inédita no filme e por Mavignier, na entrevista em seu atelier em Hamburgo, na Alemanha. Resgata cenas antigas do atelier do hospital com os pacientes em atividades, o Museu da Imagem do Inconsciente, no Rio, que guarda um acervo de 350 mil pinturas, e cenas atuais de como vivem hoje os doentes mentais no hospital do Engenho de Dentro, no Rio.

A grande surpresa do filme, no entanto, é a entrevista com Almir Mavignier, o pintor que mora há 60 anos na Alemanha, introdutor do trabalho da arte-terapia no Engenho de Dentro. Foi Mavignier o responsável pela descoberta de todos esses pintores, cujas obras hoje estão expostas no Museu da Imagem do Inconsciente, mas estiveram também em exposição em vários museus do mundo. São milhares de obras catalogadas e tombadas pelo Iphan pelo valor histórico e cultural que representam para o Brasil. 

Na entrevista em Hamburgo, onde mora até hoje, e se aposentou como professor da principal universidade local, Almir Mavignier, com 90 anos de idade, falou sobre a sua história com Nise e como descobriu os pacientes que tinham vocação para pintura naquele manicômio onde, segundo ele, os doentes viviam em total abandono, desprezados pelo poder público até serem resgatados para os ateliês de pinturas criados pela Nise da Silveira e monitorados por ele. 

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia