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17 de Novembro de 2018

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Edição nº 841 / 2015

07/10/2015 - 17:39:00

A guerrilha de Pariconha

Edberto Ticianeli Jornalista

O início dos anos da década de 1960 foram marcados por intensa mobilização dos trabalhadores rurais no Nordeste, principalmente em Pernambuco, onde Francisco Julião liderava um amplo movimento de organização dos camponeses.

Em Alagoas, a formação de sindicatos rurais e cooperativas também aconteciam, mas com a particularidade de exporem a disputa entre as organizações da Igreja Católica e os partidos de esquerda.

 Em Água Branca, com a militância de José Novaes, uma liderança vinculada à Ação Católica e ao Movimento de Educação de Base, os primeiros passos para a organização sindical foram dados ainda em 1962, com a criação de uma Congregação Mariana no povoado de Pariconha.

José Correia relata que foi o próprio padre que estimulou a formação do sindicato, ainda em 1962. “Um belo dia, o padre chegou e disse: ‘A vontade de vocês é criar o sindicato? O Julião está criando sindicato aí, a zona da mata de Alagoas; é um comunista. É bom que a gente crie antes que ele crie’”.

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Água Branca se fortaleceu rapidamente ao enfrentar o poder político e econômico dominante no município, criando condições para a formação da Cooperativa, outra conquista importante dos pequenos produtores rurais da região.

Após o Golpe Militar de 1964, os setores da Igreja mais ligados aos movimentos sociais iniciaram uma discussão política que evoluiu para a organização da Ação Popular - AP. Como consequência, o trabalho social também passou a ter forte conotação política.

Em 1968, a direção nacional da AP adota o chamado Esquema dos Seis Pontos, que abraçava algumas experiências da Revolução Cultural chinesa, entre elas a política de Integração na produção, que levou a maioria dos militantes a trabalhar em fábricas ou no campo.

Aldo Arantes, um dos dirigentes nacionais da AP, resolveu vir para Pariconha, em Alagoas, onde dirigiria a Escola de Formação Político-Militar de Quadros Camponeses. Com o codinome de Roberto Ferreira, veio acompanhado por sua companheira, Maria Auxiliadora Cunha Ferreira, a Dodora, e seus dois filhos, André e Priscila.

Em Pariconha já se encontrava outro dirigente da AP, Gilberto Franco Teixeira, o Juarez Johaudes Echeveria, também acompanhado pela esposa, Rosa Maria dos Santos, a Rosimary, e sua filha Rita. Eles chegaram ainda em 1967. Juarez legalmente era o contador da Cooperativa. Enquanto Aldo Arantes e Gilberto Franco cuidavam da Escola de Quadros e dos treinamentos militares rudimentares, Dodora e Rosa davam aula de alfabetização pelo método Paulo Freire. O trabalho político tinha a participação das lideranças locais, que além de Zé Novaes contava com os irmãos Correia: Zé, Josué e Jayme. 

AS PRISÕES
Em plena campanha para eleições municipais, que ocorreriam no dia 15 de novembro de 1968, o governador Lamenha Filho participa de um comício em Pariconha. Com a praça cheia de camponeses, muitos deles mobilizados pela AP, Gilberto interrompe o governador e denuncia a situação de miséria em que viviam os moradores daquela região. 

Lamenha não consegue mais falar por causa das vaias e convida Gilberto para subir no palanque. Ele não aceita e as vaias continuam. A polícia cerca Gilberto com a clara intenção de prendê-lo, mas os camponeses criam um cordão de proteção, impedindo a prisão. Esse episódio chamou a atenção da polícia, que passou a vigiar os movimentos do grupo.

Com a adoção do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, a polícia passou a ter poderes ilimitados. Como o episódio de Pariconha ainda estava sob investigação, o AI 5 veio para facilitar a ação ilegal da polícia, que resolveu prender todos os envolvidos na manifestação contra o governador.

Poucos dias depois, dezenas de trabalhadores rurais foram presos em Pariconha. Destes, Zé Novaes, Zé Correia e Josué Correia foram transferidos para a DOPSE em Maceió. Em seguida, no dia 24 de dezembro de 1968, foram presos Aldo Arantes, Gilberto Franco, Dodora, Rosa e as crianças. 

Quando aconteceram as primeiras prisões, Aldo e Gilberto estavam viajando e só foram detidos quando voltaram a Pariconha e fizeram contato com suas esposas. Tudo indica que foi montada uma armadilha para eles.

Aldo Arantes e Josué Correia confirmam que Gilberto foi levado ao Riacho Salgadinho onde sofreu torturas, incluindo a simulação de afogamento. José Correia também informa que foi torturado. Em um interrogatório, o coronel Adauto derrubou o conteúdo de um cachimbo aceso na sua cabeça, quando ele estava imobilizado por algemas.

Mesmo com as torturas, a polícia não sabia da verdadeira identidade de Aldo Arantes e de Gilberto Franco.  As acusações eram por atos subversivos em Pariconha, principalmente a panfletagem e posse de jornais que pregavam a revolução comunista.

Após as prisões, em dezembro, o processo contra os presos de Pariconha se arrasta sem nenhuma investigação mais séria até o dia 11 de março de 1969, quando o procurador militar Francisco de Paula Acioli, em Recife, requer a prorrogação das prisões preventivas. 

Antes, ele já tinha devolvido o inquérito à polícia alagoana para que fossem realizadas novas diligências, mas sem resultados, “devido à dificuldade que, por certo, têm encontrado”. No dia 13 de março o pedido foi aceito pelo Conselho Permanente de Justiça do Exército.

O sumário de culpa foi concluído no final de maio de 1969 e no dia 19 de junho o Conselho condenou Roberto Ferreira (Aldo Arantes) e Juarez Echeveria (Gilberto Franco) a seis meses de prisão cada. A mesma decisão absolveu todos os outros processados. O procurador militar Carlos Alberto Borges, ao fazer a denúncia, identificou que Roberto Ferreira, Juarez Echeveria, Maria Auxiliadora e Rosa de Oliveira não eram trabalhadores rurais.

A fuga de Aldo Arantes e Gilberto Franco

Mesmo sendo uma pena razoavelmente curta, Aldo Arantes, Gilberto Franco e a AP avaliaram que as verdadeiras identidades dos dois dirigentes poderiam ser descobertas a qualquer momento, e que era recomendado que eles tentassem a fuga. 

O planejamento e a coordenação da operação foi feita por João Batista Franco Drummond, dirigente regional da AP no Nordeste. O momento escolhido foi uma noite de domingo, após um jogo entre CSA e CRB, quando se esperava que a guarda da delegacia do DOPSE, na Rua Cincinato Pinto, ficasse reduzida, como de fato aconteceu. No plano de fuga constava a mistura de sonífero no café dos guardas. Aldo recorda que dois deles tomaram, mas o plantonista se negou a beber. Na hora marcada, às 3h30 da madrugada, o policial, mesmo sem tomar o sonífero, dormia sobre a escrivaninha da portaria. 

Com muito cuidado, Gilberto foi o primeiro a passar, mas quando chegou à porta, policiais da Delegacia de Roubos e Furtos, que ficava do outro lado da rua, gritaram que estava havendo a fuga. Gilberto correu e Aldo, que vinha logo atrás, ouvindo que o guarda havia acordado e derrubado a escrivaninha, também tentou correr, mas caiu duas vezes. O policial, mesmo com o revólver na mão, não atirou.Na esquina estava o carro de José Rocha e um apoio armado. Nervoso, Rocha ainda demorou para ligar o carro, que finalmente funcionou e levou eles para uma casa que ficava também no Centro da cidade.

Quando chegaram ao esconderijo, foram deixados pelo carro e, para surpresa deles, ninguém abriu a porta da casa. Com as sirenes da polícia já sendo ouvidas, às pressas pegaram um táxi, tomando o cuidado de se fazerem de bêbados, e foram para uma outra casa que tinha sido usada para o planejamento da fuga, onde ficaram por dois dias.Depois de terem os cabelos tingidos por uma companheira, com resultados ruins — Aldo avalia que chamava mais a atenção do que se tivessem ficado sem o disfarce —, foram colocados na mala do carro do médico José Rocha, que os levou até Recife.

Aldo Arantes destaca outros militantes que contribuíram para a fuga: Macileia, Maria Alba Correia, Lécio Antônio Mendonça de Morais, Raul Pinto Paes, Jorge Morais, Maria Guadalupe e Marcelo Lavenère.

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