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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 839 / 2015

23/09/2015 - 18:14:00

Cícero Péricles de Carvalho “Alagoas precisa de uma revolução como a francesa de 1789”

Edberto Ticianeli Jornalista

Mesmo sendo uma das maiores referências quando o assunto é economia alagoana, o professor Cícero Péricles de Carvalho nunca deixou de estender o olhar político sobre a realidade de sua terra. Com sólida formação política adquirida na militância estudantil dos anos 70 e 80, o hoje doutor em Economia pela Universidade de Córdoba (Espanha) retorna à pesquisa histórica e publica a 3ª edição do livro Formação Histórica de Alagoas, que foi um sucesso editorial já na 1ª edição em 1982.

A nova versão do livro, que recebeu atualizações importantes, ganhou musculatura e um projeto gráfico mais bem elaborado que as versões anteriores, agora com a assinatura de Simone Cavalcante. As ilustrações são de Weber Salles Bagetti e a editora é a Edufal.

Na entrevista a seguir, Cícero Péricles explica as razões da reedição do livro e analisa questões importantes da história de Alagoas.  P. O que levou você, 33 anos depois da primeira edição, a relançar o livro “Formação Histórica de Alagoas”?

CPC. Quando a Grafitex publicou a primeira edição em 1982, foi uma ousadia da minha parte, principalmente por não ter formação de historiador. Eram notas de leituras elaboradas em um período em que tínhamos muito mais dificuldades que as de hoje para produzir o que quer que seja, tanto o texto quanto a própria produção do livro. 

Na época, esse livro esgotou e foi reimpresso numa segunda edição. Mas ele tinha limites: os acessos às fontes, de pesquisa e os erros metodológicos. Quando esgotou a segunda edição, eu deixei de ter interesse. Também tive um impedimento profissional. Passei a ensinar no curso de Economia da Ufal, me afastando inteiramente da pesquisa histórica.

Nesse intervalo de tempo, uma coisa fica patente nos cursos de graduação da Ufal: uma carência de textos referentes à formação social e econômica do que é Alagoas hoje, não temos. Alagoas tem hoje vários cursos de graduação vinculados à realidade regional, todos demandando textos nessas áreas de conhecimento e nós não tínhamos. Então, dois anos atrás resolvi reelaborar esse texto em função dessa necessidade.

É um livro introdutório, como ele já era em 1982, mantendo o mesmo sumário e lógica, mas com alterações em todos os temas, que foram refeitos. Existe hoje muito mais facilidade de acesso às informações, além de ter aparecido nesse intervalo de tempo toda uma releitura de Alagoas nas obras de Dirceu Lindoso, Sávio Almeida, Douglas Apratto, Élcio Verçoza e de jovens pesquisadores como Oswaldo Maciel e muitos outros. Além disso, também há mais facilidade no acesso a revistas, jornais de época, e de livros que antes não se tinha como chegar a eles.

P. Sobre a Emancipação de Alagoas, o livro traz alguma releitura?

CPC. Há uma divisão na leitura sobre a Emancipação: se Alagoas foi premiada pela traição à Revolução de 1817 em Pernambuco ou foi um reconhecimento pelo seu desenvolvimento social e econômico. São divergências entre autores que vêm de Thomaz Espíndola, que inaugurou a ideia da “adesão ao Império”, até Dirceu Lindoso, que acha, por exemplo, que foi um prêmio ao desenvolvimento. Diégues Júnior também assim avalia. Mas há autores que acham que Alagoas se posicionou de forma “corcunda”, referência ao Partido Monarquista da época.

Evidentemente que Alagoas era a parte rica de Pernambuco, que tinha um desenvolvimento econômico expressivo. Quando comparado com a Paraíba da época, Alagoas era muito mais desenvolvida. Não se sabe quando, mas Alagoas poderia ter conquistado sua independência a partir dessa base econômica, mas o fato é que a Revolução de 1817 acelerou esse processo de emancipação.

Como Alagoas e Pernambuco eram um só corpo, como diz Evaldo Cabral de Mello, a emancipação foi uma cisão traumática para Alagoas, porque passou a ter estatuto independente, e para Pernambuco, porque perdeu toda a sua comarca da região sul.

Não existe uma posição fechada nesta polêmica. Manoel Maurício de Albuquerque, que é de Viçosa e era um grande intelectual, coloca de forma duríssima que foi um prêmio à traição. 

Há os que, como Manuel Diégues Júnior, Dirceu Lindoso e Douglas Apratto entre outros, explicam a emancipação como fruto natural do desenvolvimento e que o fato político apenas acelerou.

P. Você avalia que essa possibilidade de Emancipação como prêmio pela traição pode ter influenciado na formação do povo alagoano, na sua autoestima?

CPC. Não. Claro que não. Essa não é uma discussão que esteja popularizada. Esse é um tema restrito a poucos autores e pouquíssimos leitores. Na verdade, a história alagoana nunca foi trabalhada de forma a gerar grandes debates. Nós tivemos aqui em Alagoas o fenômeno da maior rebelião de escravos da América Latina, no entanto, não é um tema popular; é uma construção muito intelectual que joga para a sociedade. Não há um sentimento popular de identificação com Palmares.

Os Cabanos, que acontece no século XIX, é uma revolução que só foi resgatada na segunda metade do século XX. A invasão holandesa, que sempre foi vista pela ótica portuguesa, mostrando a sua superioridade, também foi um tema geral. Nenhum desses grandes fatos formadores da história alagoana esteve numa leitura popular a ponto de influenciar cultura ou formação.

P. Com a Emancipação, Alagoas passa ser uma capitania independente, mas sem uma capital desenvolvida como era Recife para Pernambuco. Isso pode ser considerado como uma das perdas com a separação?

CPC. Alagoas na verdade nunca rompeu com Pernambuco, no sentido social e econômico. Permanecemos a vida inteira vinculados ao Recife. Com a inauguração da ferrovia e da rede de estradas, que estabelece uma ligação mais efetiva com a capital pernambucana, essa relação econômica, social e cultural permanece até os dias de hoje.

A importância da Emancipação está na criação de mecanismos políticos e institucionais – como assembleia, poder judiciário e governo autônomo - que possibilitam uma maior proximidade entre estas instituições e a sociedade da antiga Comarca do sul de Pernambuco. Se Alagoas não avança, é por razões sociais e econômicas. Se continuássemos pertencendo a Pernambuco, não teria alterado essa evolução. Tanto que o sertão e o agreste pernambucano sempre foram atrasados.

Entretanto, a região metropolitana de Pernambuco tem um aspecto diferente da formação pernambucana. A região metropolitana sempre se posicionou em apoio à Revolução de 1817, à Confederação do Equador, em 1824, à Revolução Praieira, de 1848 e a todos os movimentos libertários até recentemente, comportando-se diferentemente do restante do território pernambucano. Alagoas ficaria muito próxima ao agreste e ao sertão. Seríamos uma área política e socialmente atrasada. Alagoas sempre se posicionou contra os movimentos libertários pernambucanos.

P. Alagoas deixou de fazer algum dever de casa para alcançar um patamar de desenvolvimento superior ao que temos hoje?

CPC. Alagoas é um território velho. É a primeira parte do Brasil a ser ocupada, diferente das províncias do Sul, que foram colonizadas já no século XIX por outro fluxo migratório, estabelecendo sociedades muito mais democráticas do que a que nós alcançamos aqui. O projeto colonial daqui, durante os séculos XVI, XVII e XVIII, foi muito fortemente baseado numa economia dominada pela monocultura canavieira e a pecuária extensiva, que não permitiam espaços para manifestações de modernidade. 

Também não tivemos um processo de urbanização acelerada ou expressão citadina no século XIX, porque Maceió não comportava; não houve processo de industrialização, como aconteceu com algumas poucas cidades nordestinas.

P. Alagoas cobra uma nova emancipação?

CPC. Penso que sim. Bom seria que nós discutíssemos as eleições de 2017 dentro de uma expectativa democrática. Alagoas precisa de uma revolução, uma revolução francesa. Como nós não modernizamos o estado no século XIX, como nós não modernizamos a sociedade no século XX, então temos déficits acumulados na área econômica e social, que 2017 apontaria como meta para toda a sociedade.

Ou seja: cobrir toda a sociedade com educação básica, que é uma demanda do século XIX. A Argentina fez a sua revolução educacional em 1860. Estamos em 2015 ainda com a maior taxa de analfabetismo do país. Responder aos desafios da saúde pública, do acesso ao trabalho e à moradia, que são bandeiras democráticas, da cidadania, da justiça social, portanto bandeiras de uma revolução no estilo francês, de 1789.

P. O que ou quem impede que isso aconteça?

CPC. Primeiro a nossa frágil formação social. Uma sociedade marcada por este tipo de estruturação, com escravidão, latifúndio, monocultura e modelo agroexportador, não gera uma sociedade democrática em canto nenhum do mundo. É como o Haiti, República Dominicana e outras economias marcadas por este modelo. 

Todos os avanços que Alagoas conseguiu no século XX vieram de fora para dentro, pelas mãos do Estado nacional. A Revolução de 30 fez com que avançássemos na modernização em Alagoas. Nas décadas posteriores, as medidas nacionais tiveram repercussão local. Se dependessemos das forças sociais mobilizadas em Alagoas para obter qualquer avanço, nós estaríamos ainda numa sociedade muito mais atrasada economicamente, subdesenvolvida e violenta da que nós temos hoje.

P. Mas temos potencial para nos desenvolvermos?

CPC. Sim. Para as nossas possibilidades, temos uma economia que pode avançar muito ainda, mas o modelo central persiste, estabelecendo a assimetria de vida: a desigualdade profunda. Nós somos pobres e, como se fosse um castigo, temos uma distribuição de renda que penaliza mais ainda essa pobreza.

 

 

 

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