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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 839 / 2015

23/09/2015 - 10:02:00

Quando arranhamos o coração alheio

Fernando Tenório [email protected]

Praia de Jatiúca, primeiro de janeiro de 2015. Ouvi uma mulher gritando:

– Vamos sair daqui! Odeio esse menino!

Quando reconheci a dona da voz, bastante familiar, pude ter certeza de que toda aquela ira era destinada a mim. Acabara de empenhar inúmeras promessas para o novo ano, fazendo um balanço de perdas e danos, mas o passado, anacrônico como é de seu feitio, deu mostras de que não reconhece bem as mudanças no calendário, nem as que desejamos fazer internamente.

Todos nós fizemos algo que gostaríamos de apagar no ano que morreu. E ali estava o motivo do meu arrependimento em 2014: uma mulher que me odiava. Aceitei o rompante com a maior resignação possível, típica de quem tem culpa no cartório, numa espécie de pedido de desculpas em silêncio, pois, pensando rapidamente, vi que ela tinha suas razões. Queria pedir perdão, ainda que sem nenhuma outra intenção, além de obtê-lo. É difícil admitir quando somos algozes na vida de alguém. Dói até.

Tentava esquecer a cena, contemplando o mar, quando notei algumas coisas. O show pirotécnico foi minguado em relação aos anos anteriores. A quantidade de pessoas também minguou. Há quem diga que tudo isso é culpa da tal crise econômica, e não contradigo. Para falar a verdade, o amarelo duelava contra o branco como cor predominante nas vestimentas dos transeuntes. As pessoas pediam prosperidade, dinheiro. E eu pedia perdão.

Outro fato diferente dos outros anos foi a tal da selfie. Ninguém era capaz de admirar o momento, muito menos interagir com os familiares. A tal vara metálica que consegue dar maior alcance aos celulares para melhores ângulos fotográficos – o pau de selfie – era vista por todos os lugares, parecendo praga. Uma senhora – vestida de amarelo, por sinal – estava tirando um autorretrato, quando seu rebento tropeçou e caiu na areia, sujando toda a roupa festiva. Na hora de exclamar proteção aos céus, a supracitada disse: “Ai, Meu Deus do selfie!”. O trocadilho, que também pode ser entendido por ato falho na máxima freudiana, desvela os sinais dos novos tempos. 

Rumei para a festa-ostentação – admito minha incoerência ideológica – escolhida por amigos para iniciar o novo ano, enquanto um homem cambaleava pelas calçadas, confessando em voz alta as agruras de um coração sofrido. Na festa, tudo mais do mesmo. As roupas das garotas eram bem parecidas, e os meninos – inclusive eu – pareciam todos fabricados sob o mesmo molde. Se disser que não me diverti, serei leviano, coisa que prometi não ser no novo ano. 

Voltava para casa já de manhã, quando pousei a vista em uma cena curiosa. Duas adolescentes com as maquiagens borradas choravam abraçadas. Aquela situação mexeu comigo. Pude ouvir uma delas reclamando da insensatez do amado, de tê-lo visto com outra mulher. De ter sonhado com um 2015 de amor que já começara com toques cruéis de desamor. Não tinha nada a ver com aquela cena; no entanto, pedi perdão. 

Pedi perdão por algum motivo interno que desconheço. Talvez pela embriaguez, talvez por ter enxergado ali a moça que hoje me odeia, mas que um dia já me amou. Pedi perdão pelo homem que hoje errou e ainda não sabe o que causou para a garota que chorava. As desconhecidas fugiram, pensando que eu era algum louco que iria importunar aquele momento tão sublime em frente ao mar. Correram tanto que uma delas deixou um dos sapatos. Somente o pé esquerdo. Vermelho, com detalhes dourados. Tentei gritar para avisar, mas já não havia mais jeito. 

Tive certeza de que pedir perdão dá medo. Jogamos ali todas as nossas fraquezas e admitimos nossas derrotas. Porém, o sapato vermelho, deixado por medo, mostrou-me que perdoar causa mais medo ainda.

*Médico formado pela Ufal, alagoano de Maribondo, tem 26 anos e encontra-se fazendo residência em Psiquiatria no Hospital Philippe Pinel, Rio de Janeiro. É autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela editora Viva em 2014.

 

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