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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 838 / 2015

16/09/2015 - 21:24:00

Cabo Luiz Pedro vai a júri popular dia 23 por homicídio

Ex-deputado senta no banco dos réus 11 anos após o sequestro e assassinato de Carlos Alberto Rocha

João Mousinho [email protected]

Um ciclo de impunidade pode estar perto do fim. Luiz Pedro da Silva, o cabo Luiz Pedro, irá a júri popular no próximo dia 23. O ex-deputado estadual e ex-vereador de Maceió é acusado de ordenar a execução do servente de pedreiro Carlos Roberto Rocha Santos, o Beto.  

O cabo Luiz Pedro sempre foi uma figura respeitada no meio político por sua palavra de firmeza e seus redutos eleitorais, alcançados graças ao seu projeto de moradia popular intitulado “Conjunto Luiz Pedro”, que recebeu, durante anos, ajuda do poder público. Em um desses conjuntos nasceu uma história de terror. 

Na madrugada do dia 12 de agosto de 2004, Carlos Roberto Rocha Santos foi sequestrado por quatro elementos e executado com mais de 20 tiros. O bárbaro crime teve requintes de crueldade. Beto teria se desentendido com um dos homens de confiança de Luiz Pedro em um dos seus conjuntos. Opondo-se à lei da mordaça, ele foi uma vítima do “grupo de extermínio liderado por Luiz Pedro”, como narra um dos trechos do processo. 

“Onze anos de impunidade”. Essa foi a frase proferida por Sebastião Pereira dos Santos, pai do servente de pedreiro executado. Em contato com a reportagem do jornal Extra, Sebastião contou que agora acredita no julgamento, até porque as testemunhas já receberam a intimação para participar do júri popular, que acontecerá no Fórum da Capital, no Barro Duro. 

“A Justiça pode ser feita, mas o meu filho nunca poderá ser trazido de volta. Esse julgamento já foi cancelado uma vez. Fica aqui o alerta para que esse tipo de coisa não volte a acontecer”, desabafou o aposentado. 

Sebastião contou que o ocorrido há 11 anos fragilizou a saúde de sua esposa, que não admitia que seu filho fosse morto. O pai de Beto revelou que, anos após a tragédia, sua esposa veio a falecer. “A ocultação do cadáver e o medo de ir de encontro aos poderosos geraram uma depressão fatal”.

Foi por sede de justiça que Sebastião Pereira dos Santos foi de encontro ao sistema e passou a denunciar a verdadeira face de Luiz Pedro, classificado por ele de“assassino impiedoso”. “Faltam 12 dias para Luiz Pedro ser julgado por um crime que se arrasta há 11 anos. Eu fui a única pessoa que tive a coragem de denunciar as atrocidades praticadas por Luiz Pedro, um homem temido pela sua forma violenta e rude de agir nas regiões em que comanda com mão de ferro”.

Homenagem

 Este ano, Luiz Pedro da Silva foi homenageado com o título de Cidadão Benemérito, concedido pela Câmara Municipal. A honraria foi proposta pelo vereador Dudu Ronalsa (PSDB). Ao que parece, Luiz Pedro continua sendo um mito de justiceiro alimentado por políticos e poderes constituídos. Sua gama de poder e densidade eleitoral lhe faz amado por muitos; principalmente por aqueles que precisam de votos de quatro em quatro anos.

“Quem é Luiz Pedro para ser homenageado? Ele é ex-deputado, ex-vereador, ex-cabo, ele não é ninguém; ele é apenas um assassino. Como ainda existem pessoas que se sujeitam a homenagear, tratar como autoridade um criminoso? A cultura do nosso país está invertida: o truculento, o marginal, o bandido, o assassino, é considerado bom; já o homem de bem, trabalhador, honesto, é o errado”, expôs Sebastião. 

Prisão e ameaças

 Luiz Pedro já foi preso em duas oportunidades por causa desse crime: uma, em 2008; e a outra no ano de 2011. A última foi a pedido do juiz João Dirceu, da 8ª Vara Criminal, e teria sido motivada por ameaças feitas pelo então vereador a Sebastião dos Santos, pai do servente de pedreiro Carlos Roberto Rocha Santos. “Como as minhas aparições na mídia viraram algo constante, a única forma era me calar. Não silenciei pelo medo, mas tenho certeza de que sou um homem marcado para morrer”, disse Sebastião.

“Luiz Pedro é cercado por amigos, que, para ter seu prestígios consolidados, fariam qualquer coisa, inclusive me matar. Perdi minha mulher, meu filho, tudo por causa dessa barbaridade. Não vou me calar enquanto esse sujeito estiver gozando da liberdade e dos prestígios que alguns insistem em lhe outorgar”, destacou Sebastião. 

Eleito na cadeia

Mesmo preso em 2008, Luiz Pedro demonstrou na época todo seu poder político, sendo eleito com 8.971 votos. “A prova de que quem não vota em seus candidatos ou discorda sofre represálias nos seus conjuntos. Isso é fato em Maceió. Autoridades policiais não adentram em seus conjuntos, e ele tem o controle sobre a vida e a morte de quem ele considera à margem da lei”, enfatizou Sebastião. 

Sem ser candidato à reeleição, Luiz Pedro assumiu de vez a postura de apoiador, e elegeu sua esposa, Maria Aparecida Augusta da Silva (PRTB), a Aparecida do Luiz Pedro, em 2012, como vereadora por Maceió. 


Notícia nacional

 Em março de 2014, o Fantástico, da Rede Globo, enfatizou em uma de suas matérias a violência no Brasil. Um dos temas abordados no programa dominical apontava Maceió como uma cidade mais violenta do país.A reportagem do Fantástico citou a violência praticada por políticos do Estado, e entre os envolvidos estava o Cabo Luiz Pedro; um dos alvos das denúncias. O caso em questão foi a execução de Beto. E, na época, seu Sebastião descreveu toda sua indignação em rede nacional. 

O advogado José Fragoso disse, em inúmeras entrevistas à mídia local - e confirmou na época ao Fantástico -, que seu cliente, Luiz Pedro da Silva, ex-cabo da Polícia Militar de Alagoas, é inocente.

Corrupção e pistolagem 

Luiz Pedro também é acusado de peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Em maio de 2008, Luiz Pedro prestou depoimento ao delegado federal Janderlyer Gomes sobre o empréstimo que fez no valor de R$ 150 mil, tendo como avalista a Assembleia Legislativa, .

O ex-deputado também é um dos alvos do esquema milionário que lesou os cofres da Assembleia Legislativa de Alagoas, sendo investigado pela Operação Taturana.

Na “CPI da Pistolagem” que ocorreu em Alagoas, Luiz Pedro foi citado várias vezes como líder de um grupo de extermínio na parte alta da cidade. Em documentos e declarações, inclusive do ex-tenente coronel Manuel Cavalcante, líder da “Gangue Fardada”, o grupo formado por Luiz Pedro é visto como uma espécie de milícia. 

Condenados e a testemunha-chave

O julgamento dos autores materiais da morte de Beto aconteceu em 17 de dezembro de 2008. Todos foram acusados de homicídio duplamente qualificado, sequestro, formação de quadrilha. Adézio Rodrigues Pereira: 16 anos de prisão; Leone Lima: 16 anos de prisão; Naelson Omar Vasconcelos de Melo: 16 anos de prisão; Laécio Pereira de Barros, 25 anos de prisão; e Valter Paulo dos Santos foi absolvido.

A esposa de Beto, Alessandra Cristina da Silva Costa, narrou que, na madrugada do dia 12 de agosto, por volta de 1h30, quatro homens se identificando como policiais estavam à procura do servente de pedreiro. Ela esclareceu que ele estava dormindo e não poderia atender ninguém naquele momento.

Grávida, a esposa não teve como conter o ímpeto dos “homens de Luiz Pedro”, que a empurram e acordaram Beto com agressões e o levaram sem maiores explicações para um veículo não identificado. 

Assim como Luiz Pedro foi um dia, Carlos Roberto Rocha Santos era servente de pedreiro e deixou três filhos para a esposa criar. Depois da madrugada do dia 12 de agosto de 2004, ele jamais retornou para casa após ser capturado. Sebastião Pereira dos Santos sempre deixou claro que Beto foi executado por não aceitar autoritarismo de milicianos de Luiz Pedro na região em que ele morava.

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