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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 838 / 2015

16/09/2015 - 07:50:00

Todo filho é a morte do próprio pai

Fernando Tenório* [email protected]

Estava acordado durante a madrugada, no bar, quando recebi a foto de um amigo. Júlio já foi um grande companheiro de farra e copos, mas agora é um homem de família. Ele mandou um retrato deitado na rede, com seu filho sobre a barriga, ambos dormindo. Outrora, isso seria motivo de gozação. Eu estaria ridicularizando a privação dele e tudo o mais. Mas hoje, juro que senti inveja, e a imagem de Bento dormindo me tomou. Havia ali um desejo súbito de ser pai? De ter alguém para cuidar? De me responsabilizar por outra vida?

Sempre achei que a ideia de ser pai fosse demais para mim. Talvez por ter em casa um pai para tudo e todos. Alguém que descobri imperfeito, mas que continuei amando como herói. Não conseguia me imaginar fazendo o que meu pai fez comigo. A toalha molhada na testa durante a febre, assistir aos jogos internos da escola, colocar 12 meninos dentro de um carro no sábado à tarde para jogar futebol só para me alegrar, levar chuva numa segunda-feira à noite no Trapichão, vendo Miguelense e Zumbi. Isso é demais para mim. Eu não conseguiria, mas ele conseguiu e foi além. Fico emocionado ao me lembrar da ansiedade dele diante das minhas conquistas e do choro convulsivo depois delas. Dias como hoje fazem a saudade aparecer. A distância impossibilita o abraço, mas não os desejos.

Outra foto de Bento, o filho de Júlio. Agora, ele deitado em berço esplêndido, literalmente, tirando a soneca mais gostosa. A paz do momento invadiu, sendo cortada pela legenda: “Vida boa é vida besta”. Meu amigo, que era complexo por natureza, rendeu-se à simplicidade das coisas. O nascimento de Bento fez o pai morrer. Ou melhor, fez um novo pai nascer. Todo filho é a morte do próprio pai. O nascimento de um filho é uma oportunidade para alguém melhor ressuscitar de nós, sem precisar esperar aqueles três tão famosos dias. Uma mudança diária. Um eterno morrer e nascer de novo.

O que antigamente eu via como peso, vejo hoje como uma dádiva. E isso é bonito. Saí de casa aflito, no sábado passado. Era o aniversário de cinco anos de Luiza, filha de um casal de amigos, e ela pediu uma boneca da Barbie Sereia. Temos uma ligação afetiva especial, assim como tenho com minhas afilhadas Gabrielle e Lara, e terei, a partir de outubro, com Maria Antônia, ao vê-la nascer. Talvez Luiza, mesmo não sendo afilhada, tenha encontrado o melhor de mim, a versão mais madura, que a Gabi e a Lara não puderam aproveitar.

A loja de brinquedos perto da minha casa estava fechada, e eu fiquei com medo. Fiquei com medo de magoá-la, de decepcionar aquela criaturinha que fez uma careta ao me ouvir dizer que levaria um livro de presente e que me deu o toque, sutilmente, de que queria a tal boneca. Esse medo eu nunca tive, nem mesmo ao presentear namoradas e afins. É um medo novo e gostoso de ter. 

Na festa, ela me escolheu para ser o animador. Eu, o único pai sem filhos, tive que me virar, pois não sabia de muita coisa. Inventei um cabo de guerra aqui, uma dança das cadeiras acolá.

– Cadê seu filho? – perguntou-me uma das coleguinhas de Luiza. Outra pediu que eu arranjasse um suco de laranja e salgados. Mais tarde, eu cumprimentava as pessoas indo embora: – Tchau, pai da Mariana! Até logo, mãe da Raquel!

A verdade é que, quando somos pais, perdemos um pouco de espaço, de identidade. Passamos a ser de alguém eternamente. E o que é eterno seduz e dá medo. É como disse o Luilton Pires: “Eu não tinha medo de nada. Aí minhas filhas nasceram, e eu passei a ter o pior dos medos: o medo de fazer falta”. 

Não sei se estou pronto para ser pai agora, até pela impossibilidade de uma mãe, ou se estarei um dia. Não sei se a data mercadológica ganhou sentido para mim. Não sei se, ao me afastar do meu pai, tive que ser meu próprio pai. Mas sei que, dentro de mim, lá no fundo, nasceu o medo, antes mesmo do filho.


*Médico formado pela Ufal, Fernando Tenório, 26 anos, alagoano de Maribondo, encontra-se fazendo residência em Psiquiatria no Hospital Philippe Pinel, Rio de Janeiro. É autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela editora Viva em [email protected]

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