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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 837 / 2015

09/09/2015 - 16:55:00

Capitão Carlito Lima

A entrevista que abalou o regime militar

Edberto Ticianeli jornalista

Carlos Roberto Peixoto Lima, ou Carlito Lima, ficou conhecido internacionalmente como escritor após ter lançado o livro Confissões de um Capitão, em 2001, pela Garamond. Entretanto, antes de tornar-se celebridade como escritor, Carlito Lima já tinha frequentado a mídia nacional por ter se colocado frontalmente contra a Ditadura Militar em 1979, quando já era capitão da reserva do Exército.

O filho do lendário general Mário Lima confessa que nunca imaginou que aquelas entrevistas tivessem tanta repercussão. “Naquela época foi nitroglicerina pura. Soube que a entrevista foi pauta de reunião do Alto Comando Militar”.

Carlito Lima explica que a ideia da entrevista surgiu numa conversa informal, de praia, com o jornalista Bernardino Souto Maior. Eles comentavam sobre o decreto do general Figueiredo que proibia militar da ativa ou da reserva de fazer pronunciamento político.

Como já estava na reserva, Carlito disse que tinha todo direito de exercitar sua cidadania e que aquilo eram os últimos suspiros do regime militar. Bernardino, como bom repórter, viu ali a chance de uma entrevista.

Numa reportagem histórica, o semanário Desafio convenceu um capitão do Exército a falar contra a Ditadura Militar. O jornal, que marcou época em Alagoas, era formado por jornalistas experientes como Artur Gondim, Devis Melo, Freitas Neto e o próprio Bernardino Souto Maior.

A entrevista foi publicada no dia 4 de maio de 1979, no Desafio nº 75. A chamada de capa era “Revolução decepciona capitão do Exército que passa para o MDB”. Foi um impacto na política local. Todos esperavam a reação do governo militar, e a expectativa maior era a que Carlito fosse preso. 

No mesmo dia da publicação da reportagem, Roberto Vilanova, outro grande repórter do jornalismo alagoano, também entrevistou Carlito para a Gazeta de Alagoas, que, no dia 5 de maio de 1979, publicou chamada na primeira página com foto: “Capitão do Exército dá entrevista e critica a Revolução”. 

Na imprensa nacional, a repercussão foi imediata. Os principais jornais do Brasil procuraram Carlito para outras entrevistas. O Jornal do Commercio, por exemplo, deu na primeira página: “Capitão diz que será preso, mas vai para o MDB. O capitão do Exército Carlos Roberto Peixoto Lima, ex-carcereiro de Arraes e Julião, anunciou ontem sua filiação ao MDB e conclamou os militares a voltarem aos quartéis”.

Na Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas, o então deputado estadual Renan Calheiros foi voz solitária em apoio às posições defendidas por Carlito Lima. “Democratas que participaram de sua própria consumação, insatisfeitos com a situação vigente, abandonam as hostes do partido do governo, e o capitão Carlito Lima comprova o alegado”. 

Sobre a possibilidade de Carlito Lima ser preso, Renan avaliou que não dava para fazer previsão sobre a reação que os militares teriam. “Não acredito, entretanto, que as verdades retratadas por Carlito respaldem em prisão. Se assim o fosse, já estariam encarcerados vários militares, que não se dobram à ditadura”.

Mesmo sendo a previsão de muitos, Carlito não foi preso. O IV Exército enviou para ele um ofício confidencial perguntando se as declarações eram realmente dele. Carlito respondeu, também por ofício: “Respondo afirmativamente”. O Exército não voltou a falar do assunto.

Veja a entrevista na íntegra

Carlos Roberto Peixoto Lima, Carlito, engenheiro, capitão R/1 do Exército, ex-prefeito de Barra de São Miguel, filho do general Mário Lima e descendente do Marechal Floriano Peixoto, figura conhecida na sociedade alagoana, desde a alta roda até os mais humildes, torcedor fanático do Fluminense do Rio e da Escola de Samba Unidos do Poço, onde todos os anos desfila no Carnaval. 

Cursou a Academia Militar de Agulhas Negras, serviu em quase todas as regiões do Brasil: Ceará, Rio, Bahia, Pernambuco, Roraima, Amazonas, até vir de vez, em 1968, para Maceió, sua terra natal, onde está até hoje. 

 DESAFIO - Carlito, como é que fica sua situação? Você entrou na política e agora o general Figueiredo, em decreto, proibiu todos os militares, inclusive os da reserva, de se manifestarem politicamente? 

CARLITO - Não sei. Inclusive penso em ser candidato a vereador em Maceió nas eleições de 80. Como vou dar o recado, se sou pela democracia plena, pelas eleições diretas, a favor da anistia total e irrestrita, e, mais que nunca, tenho a convicção de que a “Revolução” acabou? 

DESAFIO - E agora, o sr. continua na ARENA ou vai pro MBD? 

CARLITO - Confesso que, quando me candidatei a prefeito de Barra de São Miguel pela ARENA, vi que era o melhor caminho de ganhar a eleição. Mas, francamente, sinto-me acanhado em dizer que pertenço aos quadros da ARENA. Devido às minhas convicções, não posso estar no partido que mantém o poder pela força, pelo regime militar. O poder tem que vir do povo, só a ele pertence.

DESAFIO - Como foi essa sua decisão de deixar o Exército e entrar na política? 

CARLITO - Bem, depois de 16 anos de vida militar e algumas decepções profissionais e políticas, resolvi sair do Exército. Fazia a Faculdade de Engenharia quando o A1-5, em 1968, determinou a aposentadoria compulsória a todo militar que fosse subversivo, corrupto, pederasta ou eleito para algum cargo político. 

Foi aí que vi a oportunidade de sair do Exército com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Das quatro opções, preferi a política. Eleito prefeito de Barra de São Miguel, fui automaticamente aposentado e hoje pertenço à reserva remunerada do Exército. 

DESAFIO - Como se sentiu em sair do Exército, com regalias, mandando, tendo o poder, sendo cortejado, respeitado, para ficar do outro lado? 

CARLITO - Quero esclarecer uma coisa. Quando rebentou a Revolução em 1964, eu era um jovem tenente crente e entusiasmado com o movimento militar, achava que era a solução para a esculhambação, a anarquia que reinava no país. 

O propósito era segurar um ano para as eleições gerais em 1965. Servia na 2ª Cia. de Guardas em Recife, tropa de elite do IV Exército. Participei ativamente de várias missões com meu pelotão fortemente armado, eram missões espinhosas. Participei mesmo. 

DESAFIO - Houve sangue, morte? 

CARLITO - Onde participei não houve morte, mas muita correria, pedras de um lado, cassetete do outro e prisões. Mas houve sangue e morte em Recife. 

DESAFIO - Não foi na 2ª Cia. de Guardas que ficaram preso o famoso Julião e outras figuras importantes da política pernambucana? 

CARLITO — Foi. A 2ª Companhia de Guardas era o centro e o cérebro da Revolução, onde o coronel Ibiapina formou o quartel general dos IPMs. Todos os presos considerados importantes e perigosos ficavam lá. Quando estava de oficial de dia, era também carcereiro dos presos, Julião, Arraes, Gibraldo Coelho, Paulo Freire, Paulo Cavalcanti, Gregório Bezerra, Alfredo Ferreira Filho, Pelópidas da Silveira, entre outros... 

DESAFIO - Sendo um “revolucionário autêntico”, como era essa relação com os presos políticos? 

CARLITO - Fui mesmo um revolucionário, era um entusiasmado. O tempo foi passando, aí percebi o que já sabia, aqueles comunistas eram gente como a gente, tinham famílias bonitas e não comiam braços de criancinhas. Um cara como Miguel Arraes, governador e ali preso, comportava-se com uma dignidade impressionante. Balançou muito o meu coreto esse relacionamento diário com os presos. 

Quando ficava de oficial de dia, conversava bastante com os presos políticos. Por formação, por índole, até por circunstância humanitária, sempre dava a atenção devida a todos. Procurava amenizar aquela situação. Nada a ver com convicções políticas. Os colegas oficiais me gozavam.

 Existia a linha-dura dentro do Exército, diziam que eu era da linha esportiva, colorida. Quarta-feira era dia de visitas aos presos políticos. Recebíamos as famílias visitantes, que eram levadas para uma sala ampla, onde passavam a tarde em reunião familiar, conversando, recebendo comida e carinho, tão necessários numa hora como aquela. 

Um dia, apareceu a filha de um preso. Começamos uma paquera, veio o namoro. O comandante, quando soube, só faltou implodir. Por essas e outras causas, terminei sendo transferido para a fronteira na Amazônia, entre Roraima e Venezuela, junto aos índios. DESAFIO - E como os ex-colegas de farda lhe encaram hoje?

 CARLITO - Quando a gente entra na Escola Militar, ganha uma família, os companheiros de turma que passaram seis anos dormindo e acordando juntos, estudando na mesma sala de aula, tendo os mesmos problemas, ficam amigos para o resto da vida. Mesmo divergindo politicamente, somos amigos. 

DESAFIO - Vamos agora para a política do estado. O nosso novo governador Guilherme Palmeira, diga alguma coisa sobre ele. 

CARLITO - Antes de mais nada, quero esclarecer que Guilherme é um amigo, um companheiro de muitos anos, padrinho de casamento, entre outras coisas. Sei que no fundo é um democrata, um liberal. Ele não pode sair da linha traçada no Planalto, como qualquer outro governador. Mas garanto que torço pelo bom governo de Guilherme, pois, afinal de contas, é um representante de nossa geração e meu amigo. 

DESAFIO - E o senador Teotônio Vilela? 

CARLITO - O caso é o seguinte: quando, daqui a alguns anos, bater papo com meus netos, vou dizer para eles: “Conheci e fui amigo de Teotônio Vilela. Teotônio é mais um alagoano que entra para a História do Brasil”.

 DESAFIO — E Divaldo Suruagy, também entra para a História?

CARLITO - Divaldo é um cara inteligente, um político por profissão. Se Maquiavel fosse vivo, teria o que aprender com ele. DESAFIO - E o general Figueiredo? 

CARLITO - Pode entrar para a História se conduzir a redemocratização e a anistia geral e irrestrita. DESAFIO -

E o prefeito Fernando Collor? 

CARLITO - Minhas relações com Fernando são de amizade, famílias amigas desde a infância de minha mãe. É um homem viajado, inteligente, dinâmico, tem tudo para ser um bom prefeito. Só que está num cargo em que numa democracia, em eleição direta, ele jamais seria eleito. Pois o eleitorado de Maceió é oposicionista, exigente, consciente. Estaria lá na prefeitura um homem com cheiro de povo. E Fernando cheira a Cabrochard, o perfume francês (risos). 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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