Acompanhe nas redes sociais:

20 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 837 / 2015

09/09/2015 - 15:58:00

O terceiro elemento

Fernando Tenório* [email protected]

Homem é um ser medroso e essencialmente complexo, ainda que falem sobre o comportamento com forte conteúdo carnal. Em Maceió, tenho um grupo de amigos, o qual, entre as mais diversas funções sociais, delibera acerca das questões sentimentais dos membros. Uma futura namorada é estudada em detalhes pelos elementos. Idade, perfil dos ex-namorados, com quem anda e o que lê. Tudo é detalhadamente investigado e apresentado ao conselho, pois somos indecisos e até certo ponto bobos, partilhando do ideal de amor romantizado. Essa coletivização das decisões ajuda na hora das escolhas. O peso fica menor.  

A derradeira reunião do grupo aconteceu em maio. O clima estava bem animado no churrasquinho do Kaká, o melhor bar de fim de noite de Maceió. Trocávamos efusivamente elogios e contávamos as peripécias amorosas que as mulheres nos submetiam nos últimos tempos. Caio pediu a palavra e começou a apresentar sua “ficante”, a qual iria ganhar a alcunha de namorada brevemente. Mostrou fotos e a reconhecemos. Os olhares de reprovação começaram a surgir, mas o camarada nem ligou. Continuou argumentando que ela era um bom partido: bonita, cheirosa, frequentava a igreja, cuidava da vovó aos domingos, gostava de bons livros, ouvia Chico Buarque, andava feito bailarina e era sincera.

Caio tinha toda razão. A mulher carregava consigo a doçura para dar sabor à vida de qualquer homem. Porém, sempre há um problema. Os olhares atravessados dos amigos sobre a escolha do enamorado tinha um só motivo: ele seria o terceiro elemento. A moça não tinha namorado, mas tinha um lance mal resolvido, que se resolvia na boca do ex-namorado dela toda vez que se viam. Havia amor na parada, e isso era nítido. Não sabíamos o motivo de eles não retornarem, mas sabíamos que o amor estava ali. 

No nosso jargão, o terceiro elemento é conceitualmente aquele que entra querendo um amor que já é destinado a outro. Explicamos as nossas razões e deixamos nas mãos do novo apaixonado a decisão. Ele decidiu tentar e sumiu. Ontem, depois de um bom tempo, recebi uma ligação:

- Vocês tinham razão. Ela gosta dele. Percebi ontem quando o encontramos. A Suzana mudou, ficou vermelha e gaguejou.

Segundo meu amigo, a garota perdeu a graça depois do momento. Ficou insatisfeita com tudo. Caio tentou, com beijos ardentes e propostas picantes, reascender o sol que havia nela. Um sol morto e apagado, que, na melhor das hipóteses, seria capaz de aquecer outras galáxias, mas não a sua. Um sol, antes de tudo, inútil. 

O amigo tentou se recompor das migalhas do seu ciúme, que, naquele momento, era o que havia de mais seu e decidiu levá-la em casa. De acordo com o camarada, os olhos dela permaneciam ligados ao chão, como se prometessem à terra que um dia eles voltariam por inteiro.

Tive vontade de dizer que havíamos avisado, no entanto pensei não ser prudente. Resolvi só ouvir e não julgar; afinal, quem de nós não quis ser o terceiro elemento? Aquele canal para escoar o amor alheio? Aquele que tomaria de assalto um amor já pronto e destinado?

Seguindo a história, ele revelou que Suzana resolveu quebrar o silêncio com frivolidades e disse estar bem. Alegou uma dor de cabeça e que havia visto uma menina olhando para Caio. Por fim, sem que meu amigo perguntasse, disse estar contente. - Você ama seu ex-namorado? - perguntou o camarada. A moça, antes de descer do carro, deu um beijo mais frio que a Noruega no inverno. Confuso, o enamorado apanhou o silêncio gélido da amada.

 “O silêncio não é falta de resposta. É uma resposta”, dizem os mais sábios. E Cartola já nos disse em Tive Sim:

- E vou calar, pois não pretendo amor te magoar.

Meu amigo entendeu. O silêncio foi a forma mais elegante responder, confirmando todos os atributos ditos por ele sobre ela. Era meiga, doce, educada e tudo mais. E não era mentirosa. Suzana se entregou à passividade agradável de revelar com o não dito. E para meu amigo só coube o papel da desagradável de admirar o amor alheio, que tanto queria para si.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia