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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 836 / 2015

02/09/2015 - 18:08:00

O amor por entre as macas

Fernando Tenório* [email protected]

Cabe a mim relatar mais um caso, ainda que breve e fortuito, para falar sobre o amor. Durante a madrugada, o tempo movia-se lentamente, começava a dilatar-se aos poucos e depois mais depressa. Pessoas enfermas adentravam em estado grave, outras nem tanto. O ritmo frenético do plantão faz-nos ingerir uma pílula para anestesiar sentimentos, ou melhor, segundo um colega, desumanizamos a nós e aos pacientes quando assumimos o caos, ou quando abrimos sua porta. Somos os donos do caos, por assim dizer, ao tentarmos dar um jeito na desordem externa, simulando fincar ordem também na bagunça do íntimo. Vivemos absortos e não reparamos que o que nos vai acontecendo deixa intacto, em cada momento, o que nos pode acontecer. É o que sucede quando assistimos a uma conversa e não prestamos atenção, sempre o mais importante não é ouvido. 

A noite foi movimentada, e os focos eram os casos graves a que atendíamos. Quando tudo já era calmaria, fiquei atento observando a situação que presenciava, agora já sem aquela anestesia anteriormente citada. Observei uma mulher, por volta dos 40 anos, com um corpo um tanto deteriorado pelo tempo e pelas condições que a vida lhe deu, além do atropelamento sofrido. O que destoava era seu sorriso no rosto. O ambiente horrendo não era, nem nunca será, motivo para sorrisos, principalmente para quem o vê com olhos virgens. Minha atenção voltou-se para ela. Notei o paciente da maca ao lado cochichar. Demorei a compreender que aquele momento tratava-se de um flerte. A prudência tentava retê-lo, mas, como todos sabemos, a prudência só é boa quando se trata de conservar aquilo que já não interessa. 

Ele foi ganhando confiança. Enquanto eu passava para avaliar um paciente e outro, eis o senhor galante jogando seu charme para sua musa com mais veemência. Era uma musa às avessas. Ela não tinha o glamour das misses, muito menos a beleza que a sociedade nos aponta. Era feita de um cabelo despenteado, de um sorriso incompleto, abdome globoso e escoriações por todo o corpo. O cortejador também não era o príncipe sonhado pelas moças. Não vinha em cavalo branco. Seu transporte era uma maca gélida e suja, e o que podia oferecer era um hálito etílico de longe e declarações engroladas, além de muita poeira na roupa mal cerzida. Notei que o flerte avançava, e ele investia pesado: 

- Você mora em que lugar? Quero seu telefone. 

Ela foi cedendo aos encantos e respondia sempre acompanhada de seu sorriso incompleto de dentes e pleno de felicidade. Sabe-se lá há quanto tempo ela não ouvia o quão bonita era. Sabe-se lá se já havia ouvido tais elogios. Sabe-se lá! Respondeu o que fazia, onde morava e balbuciou alguma coisa com números, o que me fez pensar em seu telefone. Pobre da moça que tem em um bêbado seu cortejador, pensei. O camarada não terá condições de decorar esse número, e ela ficará esperando um telefonema que nunca há de vir. 

O avançar da hora apressa, silencia. Tudo busca seu lugar antes do amanhecer. Até o amor, digo, o quase amor. Mesmo feio, roto, desalinhado, o amor chegou. Sem prometer a eternidade, sem prometer um passeio ao shopping, o quase amor chegou. Chegou para ir embora logo em seguida. Fez deles felizes, ainda que para sublimar a própria condição naquele ambiente. Nem por isso deixou de acontecer, deixou de ser bonito. Fez o tenso virar cômico. A tragicomédia da vida. Minha saída coincidiu com a do homem paquerador. A paciente não resistiu a dizer-lhe de maneira pontual, a tal ponto imperiosa, seu nome novamente. Essa necessidade de ir pela vida a dizer quem somos é grande, ainda mais quando nos é negada grandeza ao dizê-lo. O homem repetiu o nome, como se ao sabê-lo não houvesse mais nada a saber sobre ela, ou o pouco que ainda restasse não merecesse uma pergunta nova. Despediu-se passando a mão no cabelo da moça e foi embora. A mulher enferma ficou sorrindo, como se o destino a tivesse presenteado com um atropelamento na noite de sábado...

*Médico formado pela Ufal, Fernando Tenório, 26 anos, alagoano de Maribondo, encontra-se fazendo residência em Psiquiatria no Hospital Philippe Pinel, Rio de Janeiro. É autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela editora Viva em 2014.

 

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