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Edição nº 835 / 2015

27/08/2015 - 09:13:00

Uma aventura contábil chamada Laginha

Análise financeira teve ameaças de morte, perseguições de carro e constatação de muito dinheiro jogado fora

José Fernando Martins Especial para o EXTRA

Dia de visita à usina Guaxuma, em Coruripe, com objetivo meramente burocrático: recolher documentações para dar prosseguimento à análise financeira da massa falida da Laginha Agro Industrial S/A, grupo do ex-deputado federal João Lyra. O que seria rotina de trabalho para o perito contador judicial Joel Ribeiro dos Santos Júnior virou um embate com militantes do MST que se empossaram do local. Impedido de entrar na usina por homens com foice e enxada na mão, Júnior voltou a Maceió sem cumprir sua missão. 

O susto, entretanto, não parou por aí. Ao atender o telefone celular, o perito ouviu o alerta de um anônimo: “Pare o que está fazendo ou irá arcar com as consequências!” Como o trabalho investigativo nas receitas do grupo de Lyra persistiu, foi a vez de um carro seguir o contador durante a noite para reforçar as ameaças. “Isso tudo foi relatado nos autos do processo. Fui atrás de segurança, falei com o delegado da Polícia Federal e até solicitei porte de arma. Pessoas que trabalhavam comigo resolveram se afastar, nunca passei por algo parecido. Ninguém sabe, ainda, o autor das ameaças”, contou.

Depois dos momentos de adrenalina, havia situações de extremo desânimo. Um exemplo é encontrar salas cheias de papéis sem nenhuma catalogação. A equipe tinha que analisar folha por folha para ver o que era útil à perícia contábil. Uma situação que desacelerou o processo investigatório e prejudicou o trabalho do contador. Contratado para desenvolver um laudo pericial contábil, apresentado no dia 2 de julho à Justiça de Alagoas, o perito identificou saques suspeitos, pagamentos sem comprovações, notas fiscais duvidosas e constatou a má gestão de um império canavieiro, que, sim, ainda tinha chance de se reerguer. 

Do material necessário para uma perícia abrangente, Júnior conseguiu recolher 16% desse montante. “Desde o primeiro momento tivemos dificuldade de acesso aos documentos. Respondiam apenas que ‘estavam ali’, o que, na verdade, eram 40 salas com pilhas de papéis jogados e esparramados pelo chão. Eles contrataram uma empresa de digitalização e arquivamento que também não nos cedeu o que pedíamos”. 

Outra desculpa dos administradores da Laginha é que diversos documentos estavam nas usinas. Sendo assim, desses 16% de finanças analisadas, poucos se referem às usinas Triálcool e Vale do Paranaíba, localizadas no Estado de Minas Gerais. Para isso, Júnior até se propôs a viajar até as cidades de Canápolis e Capinópolis (MG), mas, primeiramente, prefere receber o pagamento que está quatro meses atrasado. “Também virei credor da Laginha”, brincou.  

O laudo entregue à Justiça é referente ao levantamento feito de setembro de 2014 até junho deste ano. O serviço foi para analisar o financeiro de 2008 a até maio de 2015, porém, com a falta de documentação, a perícia só cumpriu o equivalente 15 meses, deixando 74 pendentes. 

FINANÇAS

Mesmo em falência e com uma dívida de R$ 2 bilhões, a Laginha gastou, no último ano, R$ 145.161,08 com viagens de consultores que vinham do Rio de Janeiro a Maceió. Esses profissionais tinham o consentimento do grupo de João Lyra para gastar R$ 300 de táxi da residência até o aeroporto Galeão (RJ) e se hospedar por 30 dias, com direito a usar serviços de lavanderia, em hotel à beira-mar na Jatiúca. Ainda foram gastos R$ 227.026,43 com comunicação a uma grande mídia de Alagoas , R$ 301.050 em editais e 12.783.971,04 em folha salarial. 

Segundo o MP, os administradores da massa falida gastaram em 12 meses R$ 27 milhões do patrimônio do grupo empresarial, sendo que R$ 20,5 milhões são de origem da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em época de economia, o grupo concedeu, ainda, descontos de, aproximadamente, 50% na venda de cana de açúcar para a usina Serra Grande. De um total de R$ 3.219.057,61 que eram para ser recebidos, a massa falida recebeu R$ 1.762.141,86, registrando um desconto de R$ 1.456.915,76. 

“Se o leilão da Laginha fosse hoje, o grupo poderia ser vendido até por R$ 1,5 bi, sendo que ficariam devendo R$ 500 mil para quitar o restante da dívida que tem com trabalhadores e colaboradores”, informou Júnior. Além dos gastos desnecessários, o perito viu que a Laginha ainda tinha chance de sobreviver poupando milhares de empregos em Alagoas.

 “Teve um momento no biênio 2010-2011, dois anos após a recuperação judicial, o grupo Laginha ainda tinha um fôlego porque as usinas ainda estavam em funcionamento e o governo injetava recursos federais para subsidiar a produção do etanol. Só que dali para frente só houve declínio”, explicou.  O juiz titular do processo, Kleber Borba Rocha, informou à reportagem que o laudo do perito já está em suas mãos para a apuração. 


EM TEMPO

Portaria assinada pelos promotores Flávio Gomes da Costa e Hylza Paiva Torres oficializou o início de um procedimento para o inquérito civil público para apurar as informações do laudo pericial judicial que identificou a diluição de recursos da massa falida. O Ministério Público Estadual (MP/AL) tomará como alvo o ex-administrador judicial Carlos Benedito Lima Franco dos Santos e os ex-gestores judiciais Felipe Carvalho Olegário de Souza e X Infinity Invest & Assessoria Empresarial Ltda. O promotor Flávio Gomes da Costa, em entrevista ao jornal Extra, confirmou o procedimento, mas disse que “só se pronunciaria após a publicação no Diário Oficial”.  

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