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Edição nº 835 / 2015

26/08/2015 - 20:05:00

Trapichão, o estádio que já foi Rei Pelé

Com a sua construção financiada por bingos, a principal praça de esportes de Alagoas vai completar 45 anos no dia 25 de outubro próximo

Edberto Ticianeli Jornalista

A partir de 1964, com os militares no poder, os investimentos nos esportes tomaram uma nova dimensão. O Brasil deveria aparecer para o mundo como um país desenvolvido, moderno, integrado nacionalmente. A materialização desse projeto se deu com as grandes obras e com a realização de eventos esportivos para multidões. 

O reflexo dessa política no futebol foi a criação do Campeonato Nacional — iniciado em 1971 — e a construção de estádios. Para se ter uma ideia desses investimentos, até 1972 já tinham sido inaugurados no Brasil mais de 30 estádios de futebol, a maioria no Nordeste. 

Em Alagoas, o governador Luiz Cavalcanti nomeou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas, Napoleão Barbosa, para comandar o projeto de construção de um estádio em Maceió. A primeira iniciativa foi criar, no dia 9 de outubro de 1964, a Federação Alagoana de Promoção Esportiva – Fape.

Sem recursos, a solução encontrada foi a realização de bingos. Os prêmios eram atrativos. Caminhões, carros, geladeiras e casas prontas eram disputadas em bingos semanais realizados no descampado onde seria erguido o estádio. Multidões se dirigiam ao local; muitos vinham do interior do Estado. Ao final do projeto, foram realizados 36 festivais promocionais com sorteios.

Com a posse de Lamenha Filho no governo, em 15 de agosto de 1966, o projeto ganhou força, e o governo passou, também, a investir na obra, mesmo tendo que enfrentar críticas, como a do ministro Delfim Neto, que dizia não ter sentido o Estado de Alagoas gastar quase que todos os seus recursos para construir um campo de futebol. 

A nascente revista Veja, no seu nº 3, de 25 de setembro de 1968, também criticava a construção do estádio. Sua manchete ironizava com o gigantismo da obra: “Trapichão: há lugar para um quarto da população”. Pelas contas da revista, Maceió teria 221 mil habitantes, e o estádio receberia 55.400 torcedores. Veja também argumentava que o recorde de público em Alagoas era de 8 mil pessoas, que era a capacidade máxima do campo do CRB. O Mutange, campo do CSA, teve a sua capacidade de público estimada em 6 mil pessoas. 


A obra

O jornalista Lauthenay Perdigão, que fez parte da comissão instituída pela Fape para o acompanhamento da construção do estádio, lembra das opções que foram analisadas para a escolha do local. “Somente depois de se observar alguns locais no Tabuleiro do Martins e até no Mercado, ali onde hoje funciona o Mercado da Produção, foi que a escolha ficou para o bairro do Trapiche da Barra”.

Após a aquisição do terreno, o projeto do estádio foi encomendado ao arquiteto João Khair e custou Cr$ 150.000,00, já com parte arquitetônica, hidráulica e elétrica. João Khair faleceu em julho de 1966, e seu sobrinho, Marco Antonio Khair, também arquiteto, foi quem deu continuidade e concluiu a construção.

A pedra fundamental da obra foi lançada no dia 15 de março de 1968 com a presença do vice-governador em exercício, Sampaio Luz, e do calculista da estrutura do estádio, Artur Eugênio Jermane. 


A construção não foi simples e exigiu muita precisão técnica. As dimensões de algumas partes do estádio eram expressivas. A cobertura, por exemplo, tem 42 metros e, na época, era uma das maiores do Brasil. O vão livre em balanço era o segundo do Brasil no gênero, com 26 metros. 

A primeira grande alteração no projeto aconteceu, ainda, em 1968, com a inclusão da arquibancada reta, que fechava a ferradura e receberia os vestiários no subsolo. Com essa ampliação, tinha-se a expectativa de que a capacidade do estádio iria para 50 mil espectadores.

Com a exceção da supervisão do engenheiro Marcos Khair, a equipe técnica que garantiu a construção do Trapichão era totalmente alagoana. Sob o comando do engenheiro Vinicius Maia Nobre, tinha um grupo formado pelos engenheiros Marcelo Barros (eletricista), Márcio Calado (sanitarista) e mais os engenheiros civis Nayron Barbosa, Marcos Mesquita, Roberto de Paiva Torres e Marcos Cotrim. Carlos Barbosa cuidava da administração da obra. Vinicius Maia Nobre recorda que o empenho da equipe era tão grande que até algumas casas utilizadas nos sorteios foram construídas por eles.

INAUGURAÇÃO

Na verdade, o primeiro grande acontecimento ocorrido no Trapichão não foi o jogo de futebol do dia 25 de outubro de 1970. Dias antes, no 16 de setembro, data da Emancipação Política de Alagoas, o estádio foi utilizado para os desfiles escolares comemorativos da data. 

jogo inaugural aconteceu no dia 25 de outubro de 1970. Os portões foram abertos ao meio-dia, e o jogo estava previsto para começar às 16h, mas às 15h todos os espaços para o público já estavam ocupados por torcedores ávidos por assistirem à seleção alagoana de futebol enfrentar o Santos de Pelé, então um dos melhores times do mundo. 

Segundo dados divulgados após a partida, o público foi de 45.865, entretanto, Vinicius Maia Nobre afirma que foi de 53.000. A polêmica sobre a capacidade do Trapichão ocupou a imprensa local por muitos anos. Em 26 de maio de 1976, o então governador Divaldo Suruagy chegou a baixar portaria criando uma comissão para saber a real capacidade do estádio.

O Santos ganhou o jogo por 5x0. Douglas marcou o primeiro, Pelé marcou dois gols e Nenê mais dois. Duas semanas depois, no dia 8 de novembro, os festejos continuaram com o Trapichão recebendo novamente a seleção alagoana para uma partida amistosa contra a equipe do Porto, de Portugal. O resultado foi um empate por 1 a 1.

Outro serviço que o Trapichão trouxe para os alagoanos foi o da churrascaria instalada embaixo da grande arquibancada, que, durante muitos anos, foi uma referência na vida social da cidade. No andar inferior também foram instalados alojamentos para atletas. Essa estrutura depois foi utilizada como um hotel.


NOME DO ESTÁDIO

Segundo Lauthenay Perdigão — o maior conhecedor da história do nosso futebol —, a definição do nome do estádio como Rei Pelé foi uma escolha do governador Lamenha Filho, que seria o homenageado, como comprovam os ingressos que foram cancelados para o jogo de abertura e a foto da maquete do estádio.

A mudança ocorreu em julho de 1970, quando vários torcedores de Maceió comemoravam a conquista do tricampeonato mundial na Praça dos Martírios, em frente ao Palácio do Governo. O governador Lamenha Filho, também entusiasmado com a vitória e com as comemorações populares, resolveu retirar o seu nome e colocar o do jogador que mais tinha se destacado na Copa do Mundo daquele ano. 

Essa homenagem a Pelé provocou muita discussão, e a polêmica se arrastou por alguns anos, até que a vontade popular resolveu a questão. Nem Pelé e nem autoridade nenhuma: o estádio passou a ser o Trapichão. 

Vinicius Maia Nobre recorda que, antes mesmo de o estádio ser inaugurado, já se referiam a ele como Trapichão. “Após um ‘jogo-recreio’ entre uma equipe formada por jornalistas que faziam a crônica esportiva e a de construção, num campo improvisado, onde hoje se ergue o Ginásio Presidente Fernando Collor, conjeturando o nome pelo qual se deveria chamar o estádio, um deles exclamou: ‘Trapichão!’. Era uma alusão ao nome do bairro, no aumentativo, muito em moda, como o Batistão (Lourival Batista, em Aracaju), Mineirão e outros. Estava realizado o batismo: a partir de então, o nome se espalhou e pegou”.

Fontes:- Jornal Gazeta de Alagoas (várias edições).- Revista Veja, nº 3, de 25 de setembro de 1968.- Jornal de Alagoas de 31 de março de 1979.- Fascículo: Napoleão Barbosa, um construtor do progresso.- Fotos do Arquivo do Museu dos Esportes.

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