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25 de Setembro de 2018

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Edição nº 835 / 2015

25/08/2015 - 19:26:00

As melhores pessoas

Fernando Tenório* [email protected]

Duas mulheres entram numa das maiores confeitarias de Maceió. A beleza da loira era estonteante. O pedaço de bolo logo foi esquecido, e os olhos ficaram devotados somente para ela. A outra mulher, de cabelos brancos e colar dourado, perguntou:

– E namorado, minha filha?! Você está há quase um ano solteira. Mulher bonita troca de namorado, mas não fica solteira.

– Vovó, a fase não está boa mesmo. Estou andando nas melhores festas, naquelas das melhores pessoas. Festa só vale a pena se o ingresso custar acima de duzentos reais. 

O encanto foi sepultado com apenas poucas palavras. Terminei meu bolo rapidamente e voltei para casa pensando nas “melhores pessoas” e no que elas fazem.

As melhores pessoas ajeitam seus ventiladores na calçada, andam com pouca roupa pela rua e cuidam das plantas ao fim do dia. Quando caminham pela orla, não olham com inveja para os prédios luxuosos e palacetes alheios, preferindo agradecer pela leve brisa que as acalenta. 

As melhores pessoas sentem dor de dente aos domingos e, mesmo assim, levam os netos para tomar sorvete. Assistem a um filme que em nada lhes apetece, só para desfrutarem da companhia de alguém especial. Chupam manga com leite só para desafiar as leis dos homens, que prometem a morte por tal combinação. Sentam-se nas cadeiras na calçada, apanhando o sereno da noite e contemplam a lua nova. 

As melhoras pessoas escondem suas hérnias umbilicais, bem como as frieiras e impinges, do mundo, do ser amado. Mas atendem ao desejo quando esse chega com força. O corpo nu, falho e imperfeito é coberto pelo desejo, e nada mais. São desprevenidas e tomam as chuvas de janeiro quando saem sem guarda-chuva. Levam também banhos de lama dos carros apressados que avançam pela cidade. Vez por outra, esquecem-se de pagar uma conta de gás ou energia, lembrando somente quando os serviços foram suspensos, justamente no dia do jantar prometido para quem se ama. 

As melhores pessoas não esperam muito do outro; todavia, não se contentam com pouco. Não vivem da migalha do sentimento de outrem. Elas pouco fazem questão de supervalorizar a caridade do dia santo e o pecado da festa pagã. As melhores pessoas vão para igrejas, terreiros, templos ou não têm fé. Podem até andar nos bingos clandestinos, nos cabarés, no ponto do bicho ou nos divãs.

As melhores pessoas já brocharam com o ser amado e fizeram sexo louco com alguém que em nada as agrada. Jogaram xícaras na parede por uma raiva intensa ou engoliram o choro, a palavra, o gozo. 

As melhores pessoas plantam mamoeiros no quintal, ou até jaqueiras, para que os netos possam comer jaca mole, passados trinta anos. Podem ser preconceituosas, mas conseguem mudar de opinião ao ouvir atentamente o outro. Jogam futebol, apostam dinheiro. As melhores pessoas já pensaram em suicídio, homicídio e no roubo milionário do Banco Central. Pensaram e não fizeram. Elas já traíram ou pensaram em trair. Foram traídas, ou ainda serão. 

As melhores pessoas suam e embaçam os vidros dos carros enquanto se deliciam com o corpo de alguém. Prometem sexo quando querem sexo e juram amor quando estão querendo amar. Fogem de encontros marcados por saberem que ali corre algum perigo. São humanas. Permanecem com marcas das unhas cravadas na noite anterior. Pensam na noite anterior, no adultério, no amor que nunca há de ser. Entendem que a beleza vem, causa seu estrago, e passa.

As melhores pessoas não morrem por amor, mas seguem vivendo por ele. As melhores pessoas morrem por amor, mas continuam vivas, esperando o retorno dele ou a ressurreição.

*Médico formado pela Ufal, Fernando Tenório, 26 anos, alagoano de Maribondo, encontra-se fazendo residência em Psiquiatria no Hospital Philippe Pinel, Rio de Janeiro. É autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela editora Viva em 2014.

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