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19 de Novembro de 2018

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Edição nº 834 / 2015

19/08/2015 - 16:17:00

Sustentar o não saber virou um ato revolucionário

Fernando Tenório*

Eu já estava com saudades de Mariana, uma grande amiga, quando recebi uma ligação dela. A voz doce não se fazia presente. Havia muita angústia desde as primeiras palavras:

– Alô! Preciso desabafar.

Ela me contou sobre sua indecisão entre continuar ou romper um relacionamento de seis anos. Falou da dor e da delícia de estar namorando, das agruras de ver um mundo tão vasto e de sua condição “restrita”. Foi então que ouvi: “Estou indecisa. Dividida. O que faço?”.

– Dividida? Espera, e depois decide.

– Esperar é não fazer nada. 

Eu poderia continuar escrevendo sobre os dissabores amorosos de Mariana, mas fiquei com sua resposta ecoando na cabeça: “Esperar é não fazer nada”. 

Pensei e vi que não existe frase mais contemporânea que essa, um símbolo da nossa era narcísica. Vivemos um período no qual todos pensam saber de tudo. Sustentar o não saber virou uma heresia. Um pecado quase mortal. Dizer que não temos opinião sobre algo e que estamos pensando acerca daquilo nos joga num gueto, no subgrupo dos que não dão passagem ao novo. O sujeito verborrágico, que utiliza palavras bonitas e desconhecidas para esconder a fragilidade do seu discurso, é símbolo dos nossos tempos. O homem moderno é assim: mesmo que não tenha nada para dizer, não pode ficar calado. O silêncio, coitado, ficou como produto extinto. 

Esse homem moderno reproduz clichês o tempo todo, sobre tudo o que leu porcamente na internet, e grita, de peito estufado, dentro de um carro cheio de prestações a serem pagas: “Não me arrependo de nada!”. Na modernidade, não há espaço para o arrependimento. O arrependimento pressupõe reflexão, sofrimento e mudança. E tudo isso gasta tempo, produto que menos temos. 

As informações estão disponíveis a todo instante. Da vida amorosa da dentista do Papa até a macroeconomia. A velocidade é tão grande que não temos tempo de parar, refletir sobre o que lemos e sabemos; ver os interesses que permeiam as reportagens. Sempre que lemos/vemos uma reportagem, devemos fazer três perguntas: quem vai ganhar dinheiro com isso? Quem vai perder dinheiro com isso? Quem vai ganhar com os ganhos de alguns e as perdas de outros? A verdade é que ninguém faz isso. Compartilhamos e copiamos tudo, sem nem pensar nas consequências.

Quem de nós não vive feito máquina com a rotina que nos oprime a comprar, como sinal de felicidade? Viver é um teclado de celular, onde temos que apertar o botão verde para avançar e o vermelho para dizer não. O tempo da pausa, para o hiato reflexivo, virou démodé. A geração que se habituou a tomar decisões rápidas com os videogames levou isso para o mundo real. O esperar virou não fazer nada, não é mais uma opção. Sempre é tempo de decidir e não há algo mais gerador de ansiedade do que isso. Talvez por essa razão, tanta gente esteja procurando serviços de psiquiatria/psicologia, como sintoma do sofrimento de viver assim, espremido entre o sim e o não, faltando o ar. As pessoas respiram apressadas, andam apressadas, apressam-se para se apressar. Não há tempo para elaborar um luto, o nascimento de um filho, a dor de um amor que já não existe mais. A assustadora venda de remédios para diminuição da ansiedade prova o que falo.

Então, querida Mariana, esperar é fazer alguma coisa, sim. É deixar que a desordem interna ganhe alguma ordem. Que a sua divisão escolha um lado. É respeitar o que você é, com contradições e ambivalências. É dizer a um mundo que divide tudo binariamente que você quer fugir dessa lógica. É gritar o seu direito por sofrer, chorar e mudar de verdade. Portanto, dizer ao seu namorado e ao mundo que você não sabe o que quer é um ato revolucionário. Não deixe a pressa engolir seu desejo. Sei que é difícil, pois sustentar o que se deseja é a tarefa mais difícil da vida.

*Médico formado pela Ufal, tem 26 anos. Alagoano de Maribondo, encontra-se fazendo residência em Psiquiatria no Hospital Philippe Pinel, Rio de Janeiro. É autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela editora Viva em 2014                                                  [email protected]

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