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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 833 / 2015

12/08/2015 - 18:04:00

Como um sopro

Fernando Tenório* [email protected]

Uma criança enroscando seu corpo ao da mãe tentava driblar minha presença. Vendo o incômodo que eu causava, tentei amenizar:

 

– Bom dia, Paulinho!Ele não respondeu. Baixou os olhos, pegando o carrinho amarelo de brinquedo para se ocupar. Fui me aproximando e vi uma pele marcada pelas inúmeras perfurações. Uma sonda nasal também estava lá, como marca do calvário que aquela criança atravessara nos últimos tempos. Senti um arrepio quando o menino atirou o boné da Peppa Pig longe, antes de se atirar no colo da mãe. O arrepio surgiu ao ver seus fios de cabelo tão curtos e ralos, resultantes das medicações que estava utilizando. Tentei não demonstrar; todavia, acho que não consegui disfarçar bem. Ele levantou os olhos e me ofereceu um carrinho azul. Parecia querer me consolar. Depois, foi amontoando brinquedos nas mãos pequeninas. Boneco do Neymar, bola de tênis e alguns monstros que devem fazer sucesso com a criançada. De certo modo, queria mostrar o que era seu naquele ambiente tão compartilhado.

 

Eu fui me aproximando, e nossa amizade começou em silêncio. Minhas perguntas eram respondidas com balanços de cabeça dele. Lateralmente era não. Para frente e para trás sinalizava sim. Tive que dizer:

 

– Vamos passear. Vamos conhecer melhor o Rio de Janeiro.

 

O menino me olhou estranhamente, e nada respondeu. Passear não deve fazer parte do vocabulário regular de quem vive há quase seis meses na enfermaria de oncopediatria de um hospital. Expliquei para a mãe que havia sido chamado para levar seu filho até outro hospital e depois trazê-lo, pois um novo exame era necessário e não havia disponibilidade naquele lugar.

 

Tivemos que esperar a quimioterapia findar e depois a morfina correr em suas veias. Enquanto isso, observava a criança e todo o emaranhado de fios ligados ao seu corpo. Ao colocá-lo na maca de transporte, senti seu corpo tremer. Nada mais plausível; afinal, a criança não sabia o que esperar do mundo lá fora. Quando os primeiros raios de luz natural tocaram sua face, Paulinho fechou os olhos com toda a força e resmungou algo. Parecia uma agressão gratuita a quem nada fazia. Pela primeira vez, ouvi aquela voz leve e baixa, que mais parecia um sopro. Com a mesma força com que apertava os olhos, o menino comprimia os dedos da mão da mãe com sua mão direita, como se, ao fazer aquilo, estivesse protegido de todo mal.

 

Entramos na ambulância. Ele estava deitado na maca, largado, frágil, indefeso. Seus olhos perdidos percorriam as máquinas. O passeio prometido com visões do Rio de Janeiro (que há muito ele não via) agora estava resumido a um ambiente hospitalar que trepidava e balançava após cada curva. Ele começou a chorar timidamente, parecendo um gatinho. Era o mesmo sopro que modulava sua voz. 

 

A mãe, tão jovem quanto eu, cerca de 25 anos, tentava consolar seu filho. Pegou o telefone e discou para o marido. Paulinho mudou de feição e, com a voz soprando mais forte, disse ao pai do seu passeio, das saudades que sentia. A mãe falava, e ele repetia. Logo depois, perguntei com quem estava falando e ouvi, nitidamente:

 

– Papai.Continuei a conversa. Dessa vez, descrevendo o mundo que via lá fora e que ele, por estar deitado na maca, não conseguia enxergar. Descrevi as inúmeras casas, as cores dos carros. Ao passar pela Fiocruz, disse que estávamos passando ao lado de um castelo. Sempre achei isso, mas nunca havia revelado para ninguém. Paulinho perguntou baixinho: 

 

– Quem mora lá?

 

– Ninguém mora lá, mas muita gente estuda e trabalha lá.

 

A criança não entendeu nada. No seu mundo de fantasia, os castelos são habitados por heróis com superpoderes, reis e rainhas, e não por estudantes e proletários – que são, de alguma forma, também heróis. Eu demoraria a explicar essa similaridade. Então, dei alguma explicação mais fantasiosa e disse que um dia ele poderia, também, trabalhar ou estudar naquele castelo. Um sorriso brotou de sua face.Chegamos ao nosso primeiro destino. Novamente, Paulinho chorou, agora por medo daquela máquina grande. O tomógrafo realmente assusta. Deve ter pensado que a máquina poderia engoli-lo, ou algo assim. Quando foi sedado para o procedimento, descansou e se entregou ao sono. A mãe falou:

– Há quatro dias não via o sol.

Lágrimas vertiam por seu rosto, enquanto ela falava da esperança de cura, da distância das outras filhas e das dificuldades dos últimos meses:

– Quando vou para casa, só consigo pensar nele. No começo do ano, meu filho corria e jogava bola, e agora tem isso... A minha sorte é que minha patroa não me demitiu e continua pagando meu salário. O problema é que não sei até quando. Vivo da caridade dela.

Paulinho voltou ao nosso encontro, só que agora dormindo. Entrou novamente na ambulância para rumar em direção ao hospital, lugar que resumia como seu quarto. No meio do caminho, ele acordou, assustado. Para acalmá-lo, a mãe ligou para a avó. A criança falou

:– Sexta eu vou para casa. Quero salpicão, mas sem cenoura. Cenoura crua não pode.

O paciente não iria embora na sexta-feira, tampouco comeria salpicão, pois só se nutria pelo conteúdo que passava por sua sonda. No entanto, ainda assim, condicionava seu sonho a uma realidade. Ele sabia que a cenoura crua havia sido proibida da sua dieta. Fiquei pensando que até na fantasia da criança havia um fator limitador. Nem seus sonhos passavam impunes àquele sofrimento.

Chegamos até o hospital de origem, e Paulinho ficou contente ao ver seu quarto. Nos despedimos rapidamente, pois o sono dele não permitiu maiores diálogos. Ao sair do quarto, cometi um erro capital. Fui até o posto de enfermagem para saber melhor sobre o tratamento do menino. Ouvi que ele não vem bem e que pouco responde aos medicamentos. Eu poderia guardar Paulinho como quisesse. No futuro, pensaria nele curado e jogando futebol por aí. Mas decidi saber a realidade, e tive que pagar meu preço.

Juro que saí arrasado, conjecturando sobre a vida. Buscava explicações de todas as naturezas para o sofrimento daquele menino, e nenhuma delas me confortava. Por fim, pensei que a vida é mesmo como a voz daquela criança: um sopro. Trouxe o menino comigo para casa, ainda que em pensamento, e só consegui racionalizar depois.

Em casa, eu só pensava: viva seu sopro de vida, Paulinho, dure o tempo que durar, pois uma brisa pode ser paradoxalmente bem mais intensa que um tornado. Você me ensinou isso. Viva seu sopro de vida, meu filho, com a mesma dignidade mostrada pelos sons emanados do sopro de sua voz.

*Médico formado pela Ufal, Fernando Tenório, 26 anos, alagoano de Maribondo, encontra-se fazendo residência em Psiquiatria no Hospital Philippe Pinel, Rio de Janeiro. É autor do livro A Responsabilidade dos Olhos, lançado pela editora Viva em 2014.

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