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Edição nº 832 / 2015

05/08/2015 - 19:29:00

Quem matou Tobias Granja?

Depois de 33 anos, permanece a dúvida sobre quem teria sido o verdadeiro mandante do crime que abalou Alagoas

EDBERTO TICIANELI

Francisco Guilherme Tobias Granja nasceu em Palmeira dos Índios no dia 13 de fevereiro de 1945. Filho de Manoel de Araújo Granja e de Maria Bernadete Tobias Granja. No início da década de 1960, com 15 anos e já morando em Maceió, destacou-se como líder estudantil secundarista, chegando a presidir a União dos Estudantes Secundarista de Alagoas, a UESA.

Ainda jovem, começou a trabalhar no Banco Brasil. Depois do Golpe Militar de 1964 foi trabalhar na imprensa do Sudeste, sendo repórter das revistas Manchete e Cruzeiro. Nesse período, conclui o curso de Direito. Em meados da década de 1970 volta a Maceió e continua no jornalismo, além de advogar. Foi candidato a deputado federal em 1974, mas não conseguiu se eleger.

Em dezembro de 1978 tem início uma verdadeira guerra em Alagoas entre as famílias Omena e Calheiros, com várias mortes de ambos os lados. Tobias Granja atua na defesa do Cabo Henrique e seus irmãos no julgamento pela morte de Ernesto Calheiros e consegue a absolvição de todos os acusados.

A partir daí, segundo o jornalista José Jurandir no livro “Os crimes que abalaram Alagoas”, Tobias Granja “apaixonara-se profundamente pela causa, tomando-a para si, puxando-a para as entranhas do seu jovem sentimento, emotivo e sensível. Visceralmente envolvido na defesa do cabo, descambou para um verdadeiro paternalismo, ficando do lado de todos os familiares do acusado, numa ardorosa atitude de lealdade e destemor”.

O Cabo Henrique reconhecia essa lealdade e deixou isso explícito num bilhete datado de 22 de maio de 1982, após fugir espetacularmente do Quartel da PM, onde estava detido. “Meu caro doutor Tobias, por você eu faço qualquer coisa. Você não é somente meu advogado. É meu irmão, é tudo para mim. Longe de meu Estado, de minha família e de meus amigos leais como você, sinto saudades e tenho vontade de voltar. Mas, quem sabe, um dia voltarei para Alagoas. José Henrique da Silva”.

No entardecer do dia 15 de junho de 1982, na Rua das Árvores ou Rua Augusta, no Centro de Maceió, Tobias Granja, com 37 anos de idade, foi abatido com um tiro na nuca. Dagoberto Calheiros foi acusado e indiciado como mandante do crime. A execução foi atribuída a Nezinho, que contou com o apoio de Napoleão. Todos cumpriram penas e foram liberados por progressão de regime.

O Cabo Henrique não esperou que a lei fosse cumprida e resolveu vingar a morte do advogado. O alvo escolhido por ele foi o Tenente Cavalcante Lins, também da família Calheiros e que teria planejado o crime de Tobias Granja, além de já se ter contra ele denúncias por vários outros crimes.

A vingança ocorreu às 13 horas do dia 13 de julho de 1982, menos de um mês após o assassinato de Tobias Granja. Cavalcante foi morto dentro do seu fusca branco, na esquina da Praça do Montepio, a poucos metros do Quartel da PM, de onde tinha acabado de sair.

Tobias Granja, quando morreu, era candidato a deputado estadual pelo PMDB. Seu assassinato motivou forte reação dos jornalistas alagoanos, que tinha Denis Agra à frente do sindicato da categoria. O Sindicato dos Jornalistas, a OAB e outras entidades da sociedade civil denunciaram o clima de insegurança e a pistolagem institucionalizada.

O jornalista Bartolomeu Dresh, que na época do crime era o editor de polícia da Tribuna de Alagoas e realizou, com o jornalista Jaime Feitosa, a principal cobertura do episódio, lembra da polêmica sobre quem teria sido o verdadeiro mandante do assassinato de Tobias Granja. “Entrevistamos o Dagoberto Calheiros várias vezes e ele sempre negou a autoria do crime”.

Outro episódio que alimentou as dúvidas sobre quem seria o autor intelectual do crime surgiu em uma matéria da Tribuna de Alagoas, que publicou declaração do delegado Antônio Teixeira afirmando que “quem matou Tobias Granja tem dinheiro para mandar matar o governador”. Esta reportagem provocou uma crise na cúpula da Segurança Pública, comandada na época pelo coronel Fernando Theodomiro.

Bartolomeu Dresh também recorda que a imprensa de então especulava com a possibilidade de o crime ter sido encomendado por Elísio Maia, um dos últimos coronéis do Sertão alagoano. Ponderava-se que, no embate político eleitoral, Tobias Granja, então candidato, teria subido o tom das críticas ao líder político de Pão de Açúcar, principalmente pelo episódio que ficou conhecido como a Chacina de Tapera, quando lideranças políticas do PMDB foram metralhadas por pistoleiros da região.

A exemplo de inúmeros outros crimes de mando que ocorreram em Alagoas, o assassinato de Tobias Granja completa 33 anos deixando dúvidas sobre quem de fato foi o seu autor intelectual. Os acusados foram julgados e punidos, mas o principal envolvido como mandante insiste em negar que tenha partido dele a ordem para o assassinato covarde do jornalista e advogado.

Exatamente um ano antes de ser assassinado, no dia 15 de junho de 1981, em uma petição ao presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas, sob o protocolo 22.489, ele praticamente vaticinou: “A arma contra a covardia é a fé, a convicção na verdade. Nem as emboscadas, nem as bombas nos amedrontam, porque uma ideia não morre no meio do fogo. Se for preciso, entrego minha vida em sacrifício”.

Fontes-

s crimes que abalaram Alagoas,de José Jurandir, 2ª Edição, 2013

- Informações de familiares de  Tobias Granja

- Informações do jornalista   Bartolomeu Dresh-Fotos de Josival Monteiro e José Feitosa

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