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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 829 / 2015

15/07/2015 - 19:17:00

Testemunha-chave do Caso Beto Campanha é executada

Em 2014, Dorgival Barros revelou que estava jurado de morte e denunciou prefeito do Pilar como mandante da morte do vice-prefeito

João Mousinho [email protected]

A guerra por poder e dinheiro continua fazendo vítimas. Um dos casos mais emblemáticos de crime de pistolagem continua na impunidade. As ramificações criminosas do caso Beto Campanha colocaram fim à vida, na quinta-feira da semana passada, de Dorgival da Silva Barros, principal testemunha do assassinato do então vice-prefeito de Pilar Gilberto Pereira Alves, crime ocorrido em 2007.

Por volta de 5h da quinta, 2, quatro homens em duas motocicletas efetuaram dezenas de disparos contra Dorgival da Silva Barros quando ele se dirigia à sua casa no assentamento sem-terra Jussara, em Ibateguara. Dos 27 tiros que o atingiram, a maioria foi na cabeça, numa clara ação de vingança e extermínio. Dorgival Barros era pistoleiro e estava foragido desde 2008 quando teve seu nome envolvido na trama da morte do vice-prefeito do Pilar. Beto Campanha, como era conhecido, foi executado em frente ao Makro, no Tabuleiro do Martins, em 19 de janeiro de 2007 com 12 tiros de pistola. Desde então o paradeiro de Dorgival nunca foi revelado.

 O local em que Dorgival estava escondido era de difícil acesso. O EXTRA apurou que ele levava um vida discreta e que em raras oportunidades sua mulher e filhos iam lhe visitar. O pistoleiro era um homem marcado para morrerEm janeiro de 2014 uma entrevista foi intermediada para que Dorgival da Silva Barros colocasse fim ao silêncio sobre o que sabia no caso Beto Campanha. Em um dos trechos da entrevista ele acusa taxativamente Carlos Alberto Canuto, atual prefeito do Pilar, de ser o mandante. A trama envolveria o comando da Prefeitura do Pilar, para a qual ambos pretendiam se candidatar. Os royalties da Petrobras recebidos pelo município sempre foram objeto de desejo de todos os concorrentes  ao executivo local. 

Dorgival disse na época que tinha interesse em falar com o jornal EXTRA, pois havia um plano pelo qual o delegado Mário Jorge de Barros teria ido até a cidade do Pilar negociar com Carlos Alberto Canuto a sua execução. Dorgival destacou na entrevista que o delegado descobriu que ele estava em Ibateguara, por ser responsável pela delegacia regional de União dos Palmares. Pouco mais de um ano e meio depois Dorgival veio tombar na mesma Ibateguara que ele tinha citado na entrevista exclusiva ao jornal. Nela, ele ainda contou que nunca havia se entregado à polícia porque em 2008 tentaram matá-lo dentro do presídio. 


O QUE DISSE ANTES DE MORRER

O EXTRA reproduz na íntegra trechos do que relatou Dorgival da Silva Barros no ano passado: “Tudo isso foi uma armação do delegado Mário Jorge Barros. No dia do assassinato do vice-prefeito eu estive em Atalaia; tinha ido para uma vaquejada para matar um maloqueiro que tinha me assaltado. Não mato homens de bem, só  bandidos; mas nada aconteceu”.“Mas, infelizmente, na volta fui parado em uma blitz da polícia e acabei sendo preso por porte ilegal de arma. Daí começou toda a armação do delegado, que envolveu meu nome nesse crime de Pilar”, disse. Dorgival lembrou que estava em companhia de Givanildo José, que também foi acusado de participar do assassinato de Beto Campanha. “Mas ele não tem nada a ver com a morte do vice-prefeito”.

 “Tudo isso foi montado pelo delegado Mário Jorge Barros”, destacou. A testemunha revelou ainda que quando foi preso, em abril de 2008, e ficou na carceragem da Polícia Federal, já havia denunciado toda a armação do delegado Mário Jorge e também havia acusado Carlos Alberto Canuto de ser o mandante do assassinato de Beto Campanha.

“Tudo isso eu já havia denunciado na sede da Polícia Federal, em Maceió, na presença dos procuradores da República Rodrigo Tenório e Daniel (Ricken)”.“Depois desse depoimento, o delegado inventou até que eu estava planejando matar os dois procuradores; tudo mentira. Em 2006 recebi uma proposta apresentada por dois homens que trabalhavam para Acácio Serafim, que na época era empresário e amigo de Canuto, e hoje é seu vice-prefeito. Antônio de França e o policial militar Amabílio Loureiro foram enviados em nome do prefeito para me contratar para matar Beto Campanha, mas eu não aceitei. Por isso envolveram meu nome nesse crime, mas os verdadeiros assassinos são Antônio de França e Amabílio, que depois foram assassinados, por queima de arquivo”.

 MAIS MORTOS 

Seis indiciados pela polícia foram executados como queima de arquivo. Antônio de França (o Cigano) e o PM Amabílio Loureiro foram mortos dias após o crime. O policial civil José Alfredo de Souza Pontes, o “Alfredinho”, foi morto a tiros no bairro do Poço, em Maceió, em fevereiro de 2008, logo após dar uma declaração na TV, de que seu envolvimento no crime seria uma trama da polícia para incriminá-lo, já que o mesmo tinha fama de pistoleiro.Menos de um mês depois, foi a vez dos réus José Maurilio, o “Di Lampião” e sargento Dimas Barbosa, duas das vítimas da chacina do Restaurante do Pangola, em Arapiraca. Agora a sexta vítima da trama repleta de capítulos sangrentos foi morta em Ibateguara: Dorgival da Silva Barros.  

O delegado Dárcio Pacheco, da delegacia de Ibateguara, é o responsável por investigar o crime. No assentamento sem-terra a lei do silêncio impera: ninguém viu, ninguém fala sobre o caso. Dorgival era conhecido por sua fama de justiceiro, segundo a qual bandido bom é bandido morto, e por ter atuado como “chumbeta” de delegados e até como segurança de magistrados.

Era um homem respeitado nos locais onde trabalhou, mas o crime organizado ele temia e disse, em sua última aparição pública, ao EXTRA: “Estou marcado para morrer. Em 2008 quando estive preso tentaram me matar lá dentro do presídio. Mas irei me apresentar na vara de execuções penais. Estou abrindo o jogo, pois vou me entregar antes do dia 19 de fevereiro (de 2014, o que nunca aconteceu)”. O EXTRA possui a lista repassada, mas nunca autorizada a ser publicada, por Dorgival da Silva Barros de pessoas ligadas ao caso Beto Campanha que estão marcadas para morrer e a peça chave, o braço armado, que arquitetou a participou das execuções dos seis envolvidos com o crime. Pelas contas de Dorgival Barros, ainda há pelo menos três pessoas a serem mortas. 


PM envolvido 

Um genro de um político no Pilar seria a única pessoa atualmente de confiança do prefeito Carlos Alberto Canuto. Na época Dorgival Barros colocou: “Não posso revelar o nome dele agora, pois até ele pode ser morto, já que também participou do esquema criminoso; só revelarei o nome no dia do julgamento. Sei que ele está envolvido, pois na época do crime era major da PM, e logo depois foi promovido a tenente-coronel e começou a chefiar um batalhão da polícia. Tudo será esclarecido durante o julgamento dos acusados. Não posso deixar que pessoas inocentes paguem pelo que não cometeram, pois isso foi um crime político”. 

O EXTRA ouviu inúmeras vezes o prefeito do Pilar, Carlos Alberto Canuto (deputado federal na época da morte de Beto Campanha), sobre as acusações e ele que sempre se limitou a dizer que é inocente e que Dorgival já fez várias declarações do mesmo tipo. O jornal também tentou ouvir o delegado Mário Jorge, citado várias vezes em 2014, mas não obteve êxito.

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