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22 de Novembro de 2018

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Edição nº 828 / 2015

08/07/2015 - 07:44:00

Fim de linha

Alari Romariz Torres Aposentada da Assembleia Legislativa.

Desde que entrei na reta dos 70, preocupo-me bastante com o pouco tempo de vida que me resta. Sinto a cabeça boa, alguns esquecimentos isolados, condições financeiras capazes de cobrir despesas, mas questiono-me sempre: até quando?     

Criamos, eu e meu marido, quatro filhos. Hoje, todos tocam a vida sem grandes atropelos e, queiramos ou não, viramos filhos. Uma incessante busca de não precisar deles. Não por vaidade, mas sim por necessidade de cuidar de nossas próprias vidas até o fim do caminho.     Vejo amigas que viraram dependentes dos filhos por causa da doença. Umas tiveram sorte e são muito bem cuidadas.

Outras levam gritos e são xingadas por cuidadoras, sem condições de administrar sua própria renda. Quem manda na casa, no dinheiro, nos remédios são os filhos impacientes.     Outro dia uma me contou que durante a madrugada acordou com a acompanhante vendo um filme de terror. “Troque de canal”, pediu a idosa. “Durma, fique quieta”, respondeu a acompanhante. Tentou contar aos filhos o lance da noite e ninguém acreditou. Ela deve ter sonhado, pensavam os responsáveis.     

Fui lanchar com outra amiga. Veio batata doce para a mesa. “Está dura”, disse a idosa. “Coma assim mesmo”, falou a cuidadora. Calada, peguei a batata e a vi igual a pedra. Perguntei: “cozinhou agora?” Ela respondeu: “Não, esquentei no micro”. Como sou metida, disse: “deixaremos para você comer!” “É falta de tempo para cozinhar no fogo”, concluiu a malandra.     São pequenos exemplos que me chocam, porque conheço de perto as duas velhas amigas. Mulheres dinâmicas, criaram os filhos com muito sacrifício, sempre priorizando o futuro das criaturas que não pediram para vir ao mundo.     

Rebato, com veemência, quando vejo um empregado nosso rindo por algum engano dos dois velhos, ainda administrando suas vidas. Ou então quando alguns deles diz: “Dona Alari, sabe aquele ‘véio’ de tal lugar”... Interrompo: “Sei, o senhor Fulano de tal”. Eles percebem e mudam de tom.   

 Tenho uma filha que insiste para nós morarmos com ela. Fico emocionada, mas repito: “Obrigada, filha; temos nossa casa, nossa receita mensal, a cabeça funciona bem e o ‘alemão’ não nos pegou por enquanto”. De outro lado, ela tem 3 filhos, marido, trabalha os dois horários e viaja muito. A carga dela já é pesada.   

 No dia do meu aniversário, do nada, um filho me disse: “Mãe, já falei com as meninas; quando a senhora e o papai ficarem velhos, elas tomarão conta de vocês”. Fiquei chocada, chorei escondida, mas, “engoli o sapo”.     

Vivo observando os idosos por onde passo. Na Igreja da Torre, no Recife, existem dezenas deles. O padre Romeu, pároco de lá, tem mais de 80 anos, trabalha na igreja há 50, e consegue administrar uma grande comunidade. Antes da missa, fiscaliza todos os preparativos, fala com as pessoas e depois dirige uma excelente celebração. Exemplo digno de pessoas com experiência de vida.   

 Soube que em João Pessoa, na Paraíba, foi construído um condomínio, só para idosos, com lazer, assistência médica, e tudo que se faz necessário numa comunidade com pessoas acima de 60 anos. Atenção, construtores de Alagoas: mirem-se nesse exemplo e construam condomínios para nós, velhinhos.   

 As leis que nos protegem, principalmente, o atendimento prioritário, não funcionam dignamente. As Lojas Renner, em Maceió, só têm um caixa para idosos e não possui o caixa prioritário no setor de atendimento aos clientes. Os empregados não foram treinados para nos atender. Um já me disse: Faça como quiser, mas só há atendimento prioritário no caixa tal.   

 Uma velha de 74 anos como eu, expõe de público seus medos e suas queixas. A finalidade é ser ouvida pelas autoridades, pelos filhos, pelos amigos, pelos médicos e sobretudo pelas pessoas que atendem idosos em qualquer lugar.   

 O nosso fim de linha precisa ser saudável e respeitoso.     

Deus existe. Não duvidem!

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