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26 de Setembro de 2018

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Edição nº 823 / 2015

09/06/2015 - 16:32:00

Francisco Sales:

Alagoas da sífilis e da cólera recebe Dom Pedro II

Odilon Rios Repórter

Em 14 de outubro de 1859, uma Alagoas recém-saída de uma epidemia de cólera, convivendo com a sífilis e uma elite faminta de títulos honoríficos recebe o imperador Dom Pedro II. Era a primeira visita dele nestas terras. A segunda aconteceu no mesmo ano, já em Maceió, quando inaugurou a Catedral Metropolitana, em dezembro.Mas, na primeira visita, passou também em Penedo. O imperador percebeu que a miséria estava agregada à população do Baixo São Francisco, como a lama grudando nos pés dos ribeirinhos.

E os costumes eram ainda mais reacionários que a já antiga presença de um rei em plena América do século 19, com as colônias sendo libertadas de seus colonizadores e a escravidão sendo varrida do mapa- o que só aconteceu no Brasil 29 anos após aquela visita do imperador. Este momento específico da visita do imperador a Penedo é comentando aqui, na série “Alagoas, 200”, por Francisco Sales, médico e presidente da Casa do Penedo.E se mostra que a Alagoas de ontem, a do imperador, tem impressionante traços no presente. É como se o passado permanecesse atual. Ou como se o presente ainda estivesse passado pela comitiva real.

Que Alagoas recebeu d. Pedro II em 14 de outubro de 1859?

Dois episódios acontecidos no período daquela visita retratam bem a Alagoas daqueles idos. Quando desembarcou no porto do Penedo, a comitiva Imperial foi recebida por uma banda de música. O imperador a descreve em seu Diário como um grupo de músicos esforçados, mas medíocres, desafinados, roufenhos. E atesta que talvez estes rapazes não estejam recebendo a devida educação musical.

Num outro momento, em 1831, em um baile de gala oferecido ao então presidente da Província Manuel Lobo de Miranda, este percebeu que não havia moças no salão e que alguns rapazes usavam uma fita azul costurada à altura do antebraço. E foi informado que às moças do Penedo não se dava o direito de frequentar bailes e que aqueles rapaz de fita faziam as vezes de dama para dançar com os outros cavalheiros.

De certa forma, foi isso que encontrou por aqui o imperador, uma província fechada em suas tradições mais mesquinhas, negando liberdade às moças e educação a todos, além de recém-saída de um grande surto de cólera. No entanto, havia também sentimentos revolucionários. O Clube Republicano do Penedo, durante os poucos dias em que o imperador ficou na cidade, todas as manhãs hasteava a bandeira republicana para saudar Dom Pedro que, um dia, desceu do cavalo e beijou a tal bandeira republicana.

Também havia certo desenvolvimento industrial. O imperador elogia a extração de óleo de linhaça com máquinas a vapor feita pelos Araújo, a família que o hospedou.    Infelizmente, vejo Alagoas refletindo ainda hoje os espelhos de 14 de outubro de 1859. Seus donatários negam liberdades, cerceiam projetos educacionais e quase todas as rebeldias se curvam ao primeiro beijo do Império.    

Diz-se que o imperador foi responsável pelo desenvolvimento social do Brasil, mas ao chegar a Piranhas, registrou um quadro “tristíssimo”. Estivemos na contramão da História?

Este quadro tristíssimo não era privilégio de Piranhas. Todo Baixo São Francisco sofria com as incontáveis mazelas sociais daqueles idos, como as epidemias de cólera, as endemias, as enchentes do rio, as levas de retirantes que fugiam da seca do Sertão. E isso eram resquícios de nosso processo colonial e também se estendia por todo o Brasil. Ler as descrições do Rio de Janeiro deste período feitas por Luís Edmundo é ver um universo de mazelas e insalubridades.

Quanto a Alagoas, havia uma blague corriqueira que asseverava que “três coisas se respeitam nas margens do São Francisco: a lama do Cotinguiba, a justiça de Vila Nova e a sífilis do Penedo”. Vale salientar que a alta incidência de sífilis se devia também ao fato de ser Penedo uma cidade portuária, como Maceió. Segundo Abelardo Duarte, o imperador tomou conhecimento da frase pelo doutor Jacobina, que exercia o papel de mordomo na comitiva imperial.

Não sei se ele chegou a conhecer a lama de Cotinguiba e a justiça de Vila Nova, atual cidade de Neópolis, mas a miséria social do Penedo ele viu no hospital da cidade, abarrotado de enfermos cuidados por um único médico, o doutor Henrique Birkett, um cidadão inglês. Chegou mesmo a elogiar os esforços do médico e fazer uma considerável doação ao hospital.Naturalmente que em todo seu governo, que durou cinquenta e oito anos, ele teve algumas ações sociais, mas creio que foi muito pouco para a dimensão de todo aquele período administrativo e para as exigências da época.

Apesar de ser um humanista, hesitou o quanto pode em por fim à escravidão, gesto que terminou sendo concretizado por sua filha, a princesa Izabel, sem oferecer qualquer projeto de inserção social aos libertos e que mesmo assim lhe custou o império.

Parece-me que tudo foi feito, como é recorrente em nossa história e em nossa modernidade, sob o prisma do improviso, do tratamento paliativo. A paciente sente uma dor lhe aplicam um sedativo. Pouco tempo depois, passa o efeito da medicação, volta a dor, mas aí já tudo é esquecido diante de uma outra dor maior e mais nova, enquanto a paciente morre aos poucos.   


Lêdo Ivo, em Ninho de Cobras, mostra um imperador distribuindo títulos honoríficos a uma elite local que parecia carente de prestígio. A elite alagoana mudou?

Claro que não. Mudou apenas a forma de presentear. Os títulos honoríficos se transformaram em cargos no poder público. O jornalista Rui Nogueira contava horrorizado nos corredores de Brasília uma cena a que assistiu em Maceió. Ao ir entrevistar o procurador da Assembleia Legislativa para a revista O Espelho, este apontou para a barriga da filha, que estava grávida, e sentenciou: “Ainda não sei o sexo desta criança, mas seu emprego já está garantido”.

Isso demonstra bem como o poder vem sendo manipulado e usado em favor de uns poucos que mantêm uma multidão na indigência cultural como forma de preservação do poder de mando.Cotidianamente, observo e vivo este descaso na luta para gerir e preservar a Casa do Penedo.  

Esta sociedade inculta, aliás, repudiou e repudia o romance de Lêdo Ivo, um dos mais belos cantos de amor à terra que conheço. No entanto, a gente alagoana, olhando apenas o título da obra, acusou Lêdo de denegrir a imagem do Estado. Que imagem temos para ser denegrida? 

O velho poeta português Guerra Junqueira, com sua paixão romântica, escreveu que “abrir escolas é fechar cadeias”. Isso certamente explica o crescente e alarmante índice de violência que aterroriza todo o Estado e o apresenta ao mundo como uma terra de ninguém.  

Em seu livro “Minhas Alagoas São Outras”, o senhor diz: “Vi Alagoas morrendo por carência de cultura”. Essa Alagoas do passado e do presente não foi de alguns poucos “vencedores”?

Desconheço os vencedores de uma batalha que mata o princípio cultural de uma gente, e em Alagoas está sendo priorizado o culto à esperteza, não à sabedoria. Darcy Ribeiro, em um de seus brilhantes discursos, dizia que fracassou em tudo.

Tentou salvar os índios, criar uma universidade aberta, fundar um sistema educacional público de qualidade e perdeu todas estas guerras, mas preferia se dizer vencido que estar ao lado dos vencedores, pois estes continuavam equivocados.Vejo Alagoas por este prisma.Outro dia estava à porta de um estabelecimento gastronômico de Maceió, que a elite frequenta como prova de ascensão social. Aguardava a chegada de meu carro junto a uma vaga reservada a deficientes físicos, sinalizada com uma cadeira de rodas.

Para no local um grande veículo, tipo importado, caríssimo, e dele saltam quatro jovens na faixa de vinte a vinte e cinco anos. Faço ver que a vaga é reservada para deficientes. Eles saltam batendo ruidosamente as portas e se entreolham dizendo: “velho babaca”. Estes serão os advogados, médicos, os administradores alagoanos do futuro. Em outras palavras, os “vencedores” de Alagoas na verdade estão perdendo a imensa e grata oportunidade de fundar de fato uma civilização.  

Quem é?


Francisco Alberto Sales, 75 anos, é médico. Estudou em Maceió. Viveu em Brasília, onde exerceu a profissão. É presidente da Casa do Penedo, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) e da Academia Alagoana de Letras (AAL). Principais obras: - Arruando Para o Forte, Penedo, Fundação Casa do Penedo, 2003- Grafites na Pedra, Penedo, Fundação Casa do Penedo, 2015- Minhas Alagoas São Outras, Fundação Casa do Penedo, 2005.

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