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Edição nº 823 / 2015

03/06/2015 - 10:42:00

JORGE OLIVEIRA

Com a palavra o Mestre Graça

Brasília - Já que falamos aqui dos jornalistas cooptados por Lula para o seu exército vermelho da comunicação chapa-branca, nada mais natural do que comentar também sobre os patrões da imprensa, vassalos que vivem a soldo do governo desde que o Brasil é república.

 

Quem resumiu muito bem o caráter dos donos de jornais nas últimas década foi o escritor Graciliano Ramos lá pelos anos de 1950, quando era revisor do Correio da Manhã, no Rio, um dos jornais mais influentes do país à época. Avesso a bajulações, sisudo, conciso, amargo e cortante, como se mostra em seus textos literários, Mestre Graça foi convidado por Paulo Bitencourt, o dono do jornal, para fazer uma saudação em nome dos empregados numa data festiva do periódico.Graciliano relutou.

 

Dizia modestamente não ter o dom da oratória. Paulo, porém, insistiu que o alagoano falasse para a plateia que se aglomerava no local da festança aos gritos de “fala”, “fala”, “fala”..., quando o autor de Vidas Secas, profundamente encabulado pelo apupo, interrompeu a animação e iniciou suas primeiras palavras:- Paulo, de todos os patrões que já tive, você é o menos filho da puta que conheço...”O discurso lacônico do Mestre Graça pode ser a síntese do que o povo brasileiro pensa dos seus empresários da mídia.

 

A história da imprensa no Brasil mostra, pelos menos nas últimas décadas, que alguns donos de jornais foram mais perversos e danosos ao povo brasileiro do que mesmo os tiranos que em momentos diversos ocuparam o poder no país. Veja alguns exemplos: Carlos Lacerda, na Tribuna da Imprensa, espinafrou Getúlio Vargas até levá-lo ao suicídio, enquanto Samuel Wainer o defendia na Ultima Hora, jornal criado com dinheiro do BB facilitado por Vargas; Assis Chateaubriand, criador dos Diários Associados, achacava empresários e governo para manter o seu poderio de comunicação, como revela Fernando Morais no Chatô, o Rei do Brasil;

 

Os Frias, do grupo Folha de São Paulo, mantinham Notícias Populares para empregar policiais da repressão; o Estado de S. Paulo defendeu em seus editoriais a tomada do poder pelo regime militar; e o Roberto Marinho, o mais astuto de todos eles, aliou-se à ditadura para expandir seu império.Como se vê, cada grupo sempre defendeu interesses próprios.

 

Como a televisão, como força popular e de persuasão, ainda engatinhava, os jornais deram as cartas durante muito tempo com a palavra final da verdade. Enquanto um grupo atacava determinado governo, outro defendia para se abastecer das verbas publicitárias e das benesses do submundo oferecidas tanto por governos militares como civis. Dono de jornal nunca teve ideologia nem partido. Ele se movimenta pela conta bancária.

 

Seu interesse, ao contrário do que pensam os ingênuos, nunca foi o de defender os interesses do povo e nem o de estar ao seu lado, mas expandir seus impérios de comunicação para formar um poder paralelo, como fazem até hoje, em proporções menores, os grupos que dominam a comunicação no país.Imprensa independente é balela.

 

A mais independente de todos os tempos, os jornais alternativos editados durante a ditadura, desapareceu com ela. O conteúdoque vendia, a contestação ao regime, acabou. Com o fim do militarismo, a pauta desses jornais se esgotou e eles começaram a ficar iguais à imprensa convencional e, por causa disso, sucumbiram, deixaram de ser alternativos.

 

Os déspotas

 

Mas não devemos confundir imprensa com liberdade de imprensa. Esta deve ser defendida com unhas e dentes contra todas as tentativas de silenciá-la por governos déspotas ou pela esquerda festiva. A imprensa escrita, a do Gutemberg, infelizmente está com os dias contados com o surgimento da globalização que digitaliza a notícia em tempo real. Essa nova geração não quer sujar as mãos com tinta, como faz diariamente o pequeno contingente de velhos e saudosos leitores de jornais.

 


Manipulação

 

Mas a imprensa brasileira – pelos menos os três grupos mais importantes desse segmento – procura caminhos alternativos ao do papel impresso. E não se engane, durante muito tempo essas organizações ainda vão mandar no país, mexendo no tabuleiro do poder ao seu bel-prazer. E nós, os mortais, ainda seremos manipulados por elas por várias décadas.Cunha enrascadoEduardo Cunha está enrascado.Acostumado a comer elefante, neste momento ele está se engasgando com um mosquito. Agora que o cerco apertou, o presidente da Câmara dos Deputados está tirando o dele da reta e negando veementemente ter sido dele a ideia de contratar a empresa Kroll de investigação, cujos diretores já responderam processo por formação de quadrilha, para ajudar a CPI da Lava Jato. Está jogando nas costas do departamento jurídico da Casa a responsabilidade pela contratação da empresa por l milhão de reais sem licitação. Pelo menos foi isso que ele disse à Folha quando questionado sobre o assunto.

 

Relação perigosa

 

Descobre-se agora que a Kroll também trabalha para a Sete Brasil, empresa alvo dos parlamentares na CPI do Lava Jato, que tem entre seus doze sócios o BTG Pactual, o banco do amigo do Lula que comprou a preço de banana os poços da Petrobrás na África. A relação da Kroll com a Sete Brasil, que arrasta uma dívida hoje de 12 bilhões de reais com bancos privados, é no mínimo perigosa para quem se propõe ajudar a comissão a descobrir para onde foi o dinheiro roubado da Petrobrás.

 

Autoritário

 

O presidente da Câmara contratou a Kroll de forma autoritária. Não ouviu ninguém. Nem mesmo o presidente da CPI, deputado Hugo Motta (PMDB-PB). Parlamentaresda comissão já questionam o acordo. Eles sabem que a empresa não teria condição de quebrar sigilo fiscal de nenhum dos diretores ladrões da Petrobrás, coisa que só é possível com ações judiciais que vêm sendo feitas com êxito aqui e no exterior pela equipe do juiz Sergio Moro. A Kroll também esteve envolvida na CPI do PC Farias. Não se conhece até hoje quais foram a sua contribuição às investigações. Depois disso, ela se envolveu em ações criminosas de espionagens de empresas que levaram seus diretores a responder processo por formação de quadrilha.

 

Constrangimento

 

O presidente da Câmara, diante de todos os questionamentos, dá uma de João sem braço. Joga a responsabilidade para o jurídico da Casa e aponta para o presidente da CPI como o responsável pelo contrato. E o mais constrangedor é que Cunha alega sigilo contratual para não revelar os detalhes do negócio com a Kroll. Ora, que moral tem os parlamentares que compõem a CPI para exigir a quebra de sigilo de contratos de empresas do governo, como o BNDES, por exemplo, se não olham para o próprio umbigo, negando à população o sagrado direito de saber como está sendo gasto o seu dinheiro?

 


Ação popular

 

Esse acordo de Eduardo Cunha com os representantes da Kroll não resiste a uma ação popular que o faria a devolver o dinheiro já desembolsado pela Câmara. Como uma Comissão Parlamentar de Inquérito contrata uma empresa inidônea para ter acesso a documentos sigilosos, inclusive relatórios de bancos com contas dos seus investigados? É a raposa no galinheiro. Além disso, agora se descobre a relação da Kroll com a Sete Brasil, alvo de investigações na CPI.

 


Cumplicidade

 

Para provar que não concordam com esses acordos obscuros, feitos na calada noite, os próprios parlamentares da CPI bem que poderiam denunciar essa contratação antes que todos virem cúmplice da maracutaia. Se o departamento jurídico da Câmara fez parecer favorável a esse negócio, como alega Eduardo Cunha, ainda há tempo de denunciá-lo para que a competência jurídica de seus membros não venha a ser questionada numa ação que vai arguir a falta de licitação no contrato de 1 milhão de reais.

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