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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 822 / 2015

28/05/2015 - 12:00:00

Maioria das usinas de Alagoas dá calote nos produtores de cana

Dívida acumulada com os plantadores é referente às três últimas safras e atinge os R$ 200 milhões

José Fernando Martins Especial para o EXTRA

Ao andar pelo canavial de sua propriedade no município de Capela, localizado a 61 Km da capital, o agrônomo Luiz Carlos Moraes sente saudades de um passado não tão distante. Filho e neto de produtores rurais, ele lembra quando a safra de cana era sinônimo de dinheiro e investimentos para uma próxima plantação. “Na época do meu pai a palavra valia muito. Vendíamos e recebíamos o pagamento sem dificuldades”, contou.Hoje, a situação de Moraes é a mesma de cerca de oito mil produtores do estado, que de fornecedores de matéria-prima tornaram-se “credores” dos usineiros.

Segundo estimativa da Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana), os empresários do setor sucroalcooleiro devem R$ 200 milhões aos produtores, uma dívida que vem sendo acumulada há três safras, o equivalente a cerca de 3,3 milhões de toneladas.Na segunda-feira, 18, a Asplana se reuniu com aproximadamente 500 associados para discutir uma maneira de renegociação da quantia. “Quando íamos falar com os diretores de usinas sempre diziam para voltar na próxima semana.

Agora, fizemos uma comissão para discutir as propostas dos empresários e encontrar uma solução”, explicou o diretor financeiro da associação, Fabiano França.Enquanto isso, municípios produtores de cana como Atalaia, Cajueiro e Colônia Leopoldina sofrem com a economia fragilizada atingindo economicamente todo o estado. Porém, os motivos que fazem os usineiros não quitarem as dívidas parecem não ter a ver com a falta de dinheiro.

“Eles estão dando prioridade em investimentos próprios e em outras unidades fora de Alagoas. Tudo ao custo dos sacrifícios dos trabalhadores e dos pequenos produtores de cana”, destacou França ao EXTRA Alagoas citando Paraíba, Pernambuco e Sergipe como estados que honram os compromissos com a categoria.Informações da associação revelam ainda que 90% dos produtores de cana produzem até mil toneladas ao ano, o que representa, após descontos de custo de produção e despesa com a moagem, lucro de um salário mínimo mensal (R$ 788,00).

Em muitos casos, o cultivo envolve toda a família que vê nos canaviais a única fonte de sustento.“Mais de 50 municípios alagoanos têm a cana como economia e há unidade industrial que não paga nem o cortador e os próprios funcionários. Mesmo assim, continua sem pagar impostos e sem os governos federal e estadual tomarem partido ”, denunciou o presidente da Asplana, Lourenço Lopes. Das 19 usinas que ainda funcionam em Alagoas, 11 são consideradas más pagadoras pela associação.Entre os devedores, existem aqueles que não pagam em dia ou pagam a dívida aos poucos. Contudo, não é o suficiente para afastar a crise do setor.

E os números tendem a piorar com a proximidade de mais quatro usinas à beira da falência. Além da diminuição de usinas para negociar com os produtores, a Asplana calcula que cada unidade que fecha as portas leva embora o emprego de 3 mil pessoas.  

O estado chegou a abrigar 37 usinas na década de 80. De lá para cá, a cada crise, o número foi decaindo.“Quando as usinas não pagam o fornecedor - uma classe com oito mil produtoprs que gera 320 mil empregos - faz com que demissões aconteçam. Eu tinha 35 funcionários, agora estou com 15.

A gente também fica sem dinheiro para adubar e investir em defensivos agrícolas”, considerou o presidente. Sobre os devedores, Lopes disse que os usineiros vivem de maneira fantasiosa devido ao tamanho da dívida que têm nas costas.No mês passado, diretores da Asplana se reuniram com o governador Renan Filho (PMDB) para apresentar os problemas da categoria. As dificuldades financeiras das usinas de Alagoas teriam começado, segundo os empresários do setor, com a crise mundial de 2008.

A partir de 2012, com a seca e a falta de competitividade do etanol ante a gasolina, a situação se agravou, levando à desativação de usinas do estado.Na ocasião, Renan Filho se comprometeu em discutir as demandas da Asplana com a Secretaria de Estado da Fazenda. “Pedimos também ao governador a sensibilidade para a redução do ICMS para o etanol a fim de ser mais consumido pela população, o que acabaria favorecendo a gente. Solicitamos também ao governador que só libere incentivos de etanol para indústrias que estiverem em dia com o pagamento aos fornecedores”.

Quanto às projeções para o futuro, o diretor financeiro Fabiano França enviou um recado aos plantadores. “Acredito que no próximo ano teremos melhoras”, frisando que Asplana tem feito sua parte por meio de reuniões e diálogos. “É preciso crer no setor e estamos juntos nessa batalha”, concluiu.

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