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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 822 / 2015

28/05/2015 - 11:47:00

Golbery Lessa e Alagoas indo além de um ‘mar de lágrimas e desespero’

Odilon Rios Especial para o EXTRA

Como entender a costura entre Alagoas e a modernidade? Como misturar o passado e o presente, tentando preservar as memórias, os registros, as histórias?Alagoas, na visão de Golbery Lessa, o 10º entrevistado na série “Alagoas, 200”, está inserida em um contexto onde existe a elite e o povo. Pode ser óbvio, mas são dois lados antagônicos que fizeram andar a roda viva do nosso tempo. Alguns exemplos ilustram isso. O Quilombo dos Palmares é retratado por alguns autores como a derrota inevitável. Mas, uma alternativa civilizatória, indo além da narrativa pessimista onde “oprimidos e marginalizados nunca teriam vencido”.A série “Alagoas, 200” entrevista personagens das áreas mais diversificadas tentando traçar um panorama do passado e do presente do Estado. O objetivo do EXTRA é antecipar as discussões sobre o bicentenário do Estado, que acontece em 2017.Veja entrevista com o historiador:

Apenas a exploração econômica através da expansão da cana-de-açúcar ajuda a explicar a nossa condição de pobreza material?

É a configuração particular do capitalismo, da modernidade e das instituições pré-modernas em Alagoas que explica a pobreza e a riqueza material, a pobreza e a riqueza cultural e os vários outros aspectos da terra de Zumbi dos Palmares. Focar a explicação da trajetória alagoana no mundo da cana-de-açúcar, na violência das classes dominantes ou nos etnocídios é redutor, termina por gerar, involuntariamente, uma mistificação. Trata-se de um equívoco narrar, por exemplo, a luta do Quilombo Palmares como a marcha de uma derrota inevitável, quando essa experiência revolucionária constituiu-se numa alternativa civilizatória efetiva durante mais de 90 anos.

A maior parte dos autores foca apenas na derrota dos Palmares, contribuindo para construir uma narrativa pessimista na qual os oprimidos e marginalizados nunca teriam vencido, jamais teriam sido protagonistas dos rumos da sociedade alagoana, sempre teriam vivido num mar absoluto de lágrimas e desespero. Essa abordagem é empobrecedora e dá um tiro no pé de suas boas intenções.É abordagem infértil para a causa dos oprimidos, pois estes deixam de ser, por um truque historiográfico, sujeitos da história para serem apenas vítimas. O “resgate” das classes populares termina no aniquilamento da imagem destas com sujeitos sociais, como agentes capazes de mudar a realidade.

A chamada “elite”, conceito produzido pela sociologia de direita para negar o de classe, mas que é usado pela referida narrativa, passa a ser o único agente da história. Grande parte da esquerda ainda não percebe que esse tipo de postura historiográfica tem um impacto devastador na autoestima e na reflexão política dos movimentos sociais do presente, desorientando-os.

Na verdade, os oprimidos em Alagoas tiveram, em vários momentos, protagonismo e vitórias. Na segunda metade dos anos 1950, para dar um exemplo emblemático da capacidade de resistência ideológica dos setores populares, todas as reuniões do Ciclo Operário Católico de Rio Largo, filial de entidade criada pela Igreja no mundo todo para combater a influência do marxismo entre os trabalhadores, iniciavam com seus membros cantando a Internacional Comunista à capela. Alagoas teve protagonismos positivos fundamentais nos rumos do país que não se relacionam a generais e marechais reacionários. As obras de Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Aurélio Buarque de Holanda, por exemplo, são mais decisivas para a literatura brasileira do que os frutos de qualquer outro modernismo estadual, pois estabeleceram as bases da língua portuguesa no país. As dimensões negativas da trajetória alagoana não devem ser explicadas de modo impressionista e pessimista.

A violência urbana atual em Maceió e Arapiraca, por exemplo, não se explica pelo massacre dos caetés no século XVI e muito menos por um atavismo, mas relacionando-a ao caos urbano e ao êxodo rural proveniente do processo de reestruturação produtiva na agropecuária das últimas décadas. A antropologia é capaz de fertilizar a análise da trajetória das comunidades tradicionais, como as quilombolas, indígenas e ribeirinhas, mas não deve ser usada como fundamento de uma narrativa generalista sobre a história alagoana, uma substituta fora de lugar tentando realizar a função da historiografia e fundamentando uma abordagem que paira sobre os fatos e homogeniza as conjunturas, criando mitos como o de uma Alagoas purgatório, terra de todos os males e nenhuma salvação. No atual estágio do debate, é preciso sublinhar o óbvio: a história do povo alagoano não é o enredo de um grande erro ou de uma absoluta miséria, é uma trajetória tão complexa e multifacetada como a de qualquer outro povo.

A história diz que Alagoas começou a partir de uma traição, em 1817. O senhor diz que não e mostra que havia uma diferença secular entre o sul e o resto de Pernambuco, que acabou empurrando a emancipação. Que Alagoas é esta, deste período, que “não foi uma dádiva do monarca, foi e é uma construção dos alagoanos”, conforme um de seus textos?Inicialmente, é preciso indagar: quem é essa “história” inserida na pergunta e que sustenta, entre outras, a tese da traição de Alagoas ao movimento dito liberal de 1817?

Essa “história” é, na verdade, uma corrente particular composta por um pequeno grupo de autores não alagoanos. Craveiro Costa, por exemplo, um dos mais respeitados historiadores estaduais, tinha uma opinião muito próxima àquela que defendo e que é apoiada por Evaldo Cabral de Mello, talvez, o maior historiador vivo de Pernambuco e do Brasil. As hipóteses da traição e da dádiva vêm da historiografia conservadora de Recife e são adaptadas pela abordagem presente no senso comum atual de que seria progressista conceber Alagoas como uma miséria total desde sempre. Essa ideia aparece para muitos como crítica e libertadora, Seria uma denúncia contra as classes dominantes no presente. Na verdade, essa linha de raciocínio provoca o efeito contrário ao da sua intenção ética, leva à desconstrução da autoestima do povo alagoano, que produz o desânimo e à paralisia política. A crítica às classe dominantes não pode se transformar na crítica à formação social alagoana como um todo, a todos os seus aspectos e segmentos sociais. Não é tirando artificialmente toda dignidade da história alagoana que se enfrentará eficazmente o status quo.

Quem é ou o quê é a elite alagoana? O quê ela quer?

Primeiro, é preciso negar o conceito de “elite”, principalmente quando surge substituindo o de classe. A oposição teórica entre “elite” e “povo” foi elaborada pela sociologia de direita para combater a teoria da luta de classes e fazer passar a tese de que toda sociedade precisaria de uma “camada superior” e, portanto, as hierarquias sociais e as assimetrias de poder seriam legítimas. Para não cairmos nessa armadilha discursiva, permita-me reformular a pergunta: “quem é ou o quê é a classe dominante alagoana? O quê ela quer?”Este grupo social teve composições diferentes durante a história, não foi sempre o mesmo. Até a última década do século XIX, a burguesia mercantil dominou a economia de Alagoas, submetendo aos seus interesses os senhores de engenhos, pecuaristas, produtores de algodão e outros setores proprietários. A partir do início do século XX, os grandes comerciantes transferiram a maior parte do seu capital para a indústria, principalmente para os setores têxtil e canavieiro.

A classe dominante passou a ser formada pelos grandes industriais da tecelagem e do açúcar, entre outros setores existentes à época. Com a criação do IAA (Instituto Nacional do Álcool), em 1933, a comercialização do açúcar virou monopólio estatal, desarticulando o que restava da burguesia mercantil. No final da década de 1950, com a decadência da indústria de tecidos, os usineiros passam a ser a classe mais poderosa e que lidera um sistema de alianças com setores menos expressivos do grande capital localizados em Maceió, no Agreste e no Sertão. O que os usineiros querem? Desejam continuar dominando a economia e a máquina estatal de modo a garantir a reprodução de um capitalismo atrasado e periférico, o único que possibilita a realização dos seus objetivos econômicos.

Quem é?
Golbery Luiz Lessa, 48 anos, Possui graduação em História pela Universidade Federal de Alagoas (1990), mestrado em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (1999) e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2005). Tem experiência na área de História, com ênfase em História das Interpretações do Brasil e História de Alagoas. Pesquisa também sobre políticas públicas e gestão governamental, principalmente as políticas de reforma agrária e de assistência social.Principais livros:- O ciclo do algodão e as vilas operárias. Maceió: Sebrae, 2013. 144p, em parceria com Douglas Apratto Tenório.- Capítulo de livro:  Os Principais Momentos do PCB em Alagoas in  A Indústria Têxtil: A Classe Operária e o PCB em Alagoas,  Maceió, EDUFAL, 2011, p. 91- 130,  Alberto Saldanha  (org.). - Por Um Programa Agrário Para a Esquerda Alagoana,  in Terra em Alagoas: Temas e Problemas, Luiz Sávio Almeida, Josival dos Santos Oliveira e José Carlos da Silva Lima, Maceió, EDUFAL, 2013, p. 309-324. - Escreveu o Posfácio in Traba-lhadores, Identidade de Classe e Socialismo: Os Gráficos de Maceió (1895-1905), Maceió, EDUFAL, 2009,p. 191-192, de de Osvaldo Batista Acioly Maciel. 

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