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21 de Novembro de 2018

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Edição nº 821 / 2015

20/05/2015 - 20:38:00

Fábio Guedes Gomes

Mistura, em suas obras, o desenvolvimento, a violência e a sociedade

Odilon Rios Repórter

Descobrir que os heróis de Alagoas não são exatamente tão heróis assim é tarefa difícil, quase inaceitável para quem cultua o passado como uma luta entre o bem e o mal.

Para além do maniqueísmo, o economista Fábio Guedes permite um mergulho diferente. Mistura, em suas obras, o desenvolvimento, a violência e a sociedade. Mostra que a História envolve lutas, conflitos. Linha semelhante à de Dirceu Lindoso, também entrevistado pela série “Alagoas, 200”.Fábio Guedes é o nono personagem entrevistado pelo semanário, que leva aos leitores imagens diversificadas sobre o bicentenário de Alagoas, comemorado em 2017. Que Alagoas é esta? Como foi?

Veja entrevista:

Quando descobriu que a Alagoas dos heróis foi apenas ficção?

Na verdade isso não foi uma descoberta. Nós sabemos desde o ensino fundamental que a história brasileira é contada - e quase sempre aceita - através da vida e realizações de alguns sujeitos que são configurados como heróis. Ou seja, o protagonismo histórico é individualizado e são coroados alguns ilustres personagens que, invariavelmente, foram alçados de famílias importantes e nobres da estrutura social. No caso de Alagoas, isso é muito perceptível, pois muitos nomes de ruas, monumentos e comendas levam o nome de alguns considerados “heróis”. A leitura que fiz do livro do historiador alagoano Dirceu Lindoso, A Utopia Armada: rebeliões de pobres nas matas do tombo real (Maceió: Edufal, 2005), permitiu que conhecesse um pouco mais o processo histórico alagoano pelo lado dos derrotados, que sem eles não existiriam os chamados “heróis”, quando na verdade são as lutas, os conflitos, as contradições políticas, sociais e econômicas que fazem girar a roda da história. Lindoso aponta justamente isso: que existe uma história oficial escrita pelos vencedores e que esconde determinantes históricos relevantes e excluindo, completamente, os protagonistas oriundos das classes subalternas da estrutura social.

Desde quando existe relação entre os indicadores sociais de Alagoas e a violência?

Essa relação não é nova. Porém um aspecto desafiou as ciências sociais contemporâneas: mesmo melhorando o perfil de renda dos considerados mais pobres e incluindo-os no mercado de consumo, não fizemos recuar os elevados níveis de violência no Brasil. Em Alagoas isso é ainda mais dramático, porque não é somente a pobreza material que determina a violência exagerada, mas também a falência das políticas públicas, a completa ausência de cidadania e cuidado com a formação das crianças e jovens. A violência em Alagoas, apesar de antiga, explodiu mesmo a partir de 2007 e isso deve ser explicado de forma contextualizada, e não debitar somente a uma pretensa cultura e histórico de violência.

O senhor diz que Alagoas já esteve entre as quatro maiores posições do Nordeste em participação do PIB regional e nos últimos 20 anos perdeu este ritmo. Como explicar isso se a aplicação de recursos federais cresce, em especial na era Lula?

A era Lula fez crescer toda a economia nordestina acima da média nacional. Até o momento, a região tem repetido esse dinamismo na era Dilma, como demonstra recentemente boletim regional do Banco Central que registrou 3,6% de crescimento. Então, assim como os demais estados nordestinos, Alagoas se beneficiou da expansão do consumo, do emprego e renda que possibilitaram o crescimento dos setores de comércio, serviços e construção civil. Isso aconteceu também em todos os estados da região. Só que nesses, somados aqueles setores, observou-se também dinamismos em segmentos da indústria e agricultura, com expansão de empregos formais e aumento da massa de salários. Em Alagoas sabemos que a agricultura vem perdendo dinamismo há anos e nossa indústria recuou em seu setor mais significativo, o sucroalcooleiro, avançando apenas no químico-plástico, intensivo em tecnologias e poupador de mão de obra. Ou seja, não obstante os avanços no comércio, serviços e construção civil, não tivemos o mesmo dinamismo apresentado por outros estados nos segmentos industriais e na agricultura. Por essa razão crescemos, mas muito mais lentamente quando observamos uma série histórica mais longa. Na verdade então, involuímos economicamente quando nos comparamos a outros estados do Nordeste

Alagoas assistiu ao nascimento e queda dos engenhos para vir as usinas, que enfrentam decadência. O modelo esgotou?

Na verdade ele não é um modelo. Trata-se de uma estrutura específica de produção econômica que acompanha o Nordeste e, especialmente Alagoas, desde sua formação e continuará fazendo parte de nossa história por várias décadas ainda. Açúcar e álcool são dois produtos que ainda serão consumidos por muito tempo e Alagoas é competitiva em várias áreas agricultáveis para esse tipo de produção. Agora, está evidenciado que precisa-se de alternativas econômicas mais dinâmicas que possam não somente gerar empregos e renda em padrões mais elevados, mas também produzir receitas fiscais que o Estado precisa para compensar o nosso histórico de renúncias, que resultaram nas dificuldades com as quais o setor público hoje se defronta.

Em torno da cana, há a pobreza material e aquela em que o pobre se autodestina a continuar na miséria. Onde o modelo da cana errou e onde acertou?

Sobre esse assunto existem outros especialistas com mais autoridade para falar. Mas, não podemos deixar de arriscar uma opinião com base em nossa experiência acadêmica. A questão não é de acertar ou errar, porque desde o Brasil Colônia a produção canavieira foi extremamente rentável. Celso Furtado em seu clássico Formação Econômica do Brasil já apontava que essa atividade foi uma das mais prósperas em termos de criação de riquezas nos primeiros 200 anos de ocupação portuguesa. Então esse modo de produção, que passou por várias fases de mutação, foi extremamente alvissareiro para seus empresários. O problema é que na sua genética, ao mesmo tempo em que gera riquezas, promove a absoluta pobreza, porque sua estrutura de funcionamento e distribuição é essencialmente concentradora e atrofiadora do desenvolvimento humano. Do ponto de vista histórico, a sociedade alagoana sendo puxada por esse tipo de “locomotiva” econômica foi a que herdou os piores indicadores sociais e humanos do país. Para se aprofundar mais sobre isso é preciso mais economia política, ou seja, compreender a anatomia desse sistema retardatário.

Nós descobrimos a origem do mal estar alagoano?

Quando em nosso livro dedicamos um capítulo com esse título, estávamos nos referindo a alguns poucos momentos que o alagoano poderia se encontrar consigo mesmo, gozar de uma relativa felicidade. Quando ele, conduzido por uma forçacoletiva, expressava todas suas potencialidades, julgando-se superior aos seus próprios problemas. Envolto a tantas situações de descasos, violência e escassez de atenção por parte das políticas públicas, apenas alguns momentos lhe traziam a plena felicidade. E um deles era o futebol, principalmente quando os representantes locais enfrentavam os grandes e se saiam bem. O esbanjar de alegrias e o efeito contagiante das vitórias devolviam ao alagoano o forte sentimento de pertencimento e orgulho de ser o que é. Entretanto, esses momentos são apenas lampejos coletivos, porque já estávamos acostumados a vivenciar, no cotidiano, um quadro de elevado mal estar.

Quem é o povo e o governo a que o senhor se refere em seus artigos?

Na verdade não gosto muito de usar a expressão povo porque ela significa apenas uma abstração, talvez por essa razão a sua indagação. Mas podemos entender como povo em meus artigos aquela grande parcela da população que se identifica entre si, cultuam os mesmos valores, não comandam mas pelo contrário são subordinados dentro da estrutura de poder. Seus desejos de diferenciação social e econômica não são ambiciosos, somente querem melhorar de vida, já é o suficiente. Talvez esse seja o povo de quem me refiro. Quanto ao Governo depende muito. Porque trata-se de um modelo de gestão e administração política da sociedade em determinado contexto histórico. Pensando assim, podemos dizer que nas últimas quatro décadas esses modelos trataram o grosso da população alagoana de maneira muito deficiente, para dizer o mínimo de alguns.

Quem venceu na história de Alagoas? O sangue? Os usineiros? Ou os que conseguiram sair daqui?

Deixo ao leitor a sua própria resposta para seu íntimo.

Quem é?


Fábio Guedes Gomes, 43 anos, possui graduação em Ciências Econômicas (1997) e mestrado em Economia Regional (1999), ambos pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), atualmente Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Doutor em Administração pelo Núcleo de Pós-Graduação em Administração (NPGA) da Universidade Federal da Bahia (2007), com área de concentração em Gestão Pública e Instituições.

É professor da Graduação e Mestrado em Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEAC) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Tutor do PET-Economia (FEAC). Tem experiência nas áreas de Teoria e História Econômica, Relações Internacionais, Formação Econômica Brasileira, Economia Brasileira, Comércio Internacional, Economia Política Internacional, Administração Política, Administração e Políticas Públicas. Diretor-Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL) desde janeiro de 2015.


Principais livros

Ensaios sobre o Subdesenvolvimento e a Economia Política Contemporânea. 1. ed. São Paulo: Hucitec Editora, 2014. 261p .

O Livre Pensamento nos Fóruns Sociais: teoria social crítica e economia política contemporânea. 1. ed. São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2011. v. 1. 256p .

Com Álvaro Gomes e Gey Espinheira(DES)ORDEM E REGRESSO: o período de ajustamento neoliberal no Brasil, 1990-2000. 1. ed. São Paulo: Mandacarú:Hucitec, 2009. v. 1. 326p . Organizado em parceria com Eduardo Costa Pinto

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