Acompanhe nas redes sociais:

20 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 820 / 2015

14/05/2015 - 18:44:00

Luitgarde Oliveira

Conta a história de uma alagoana que enfrentou Lampião

Odilon Rios Repórter

Uma alagoana carregando histórias dos cangaceiros e beatos indo e vindo no sertão de Alagoas aporta no Rio de Janeiro na época do “liberou geral”. E quê sobrou? Sobrou Luitgarde Oliveira, uma das maiores referências no país sobre o cangaço.Poucas palavras. O resto segue na entrevista da série “Alagoas, 200”.


Hoje, policiais viraram guias de turistas na rota de Lampião pelo sertão alagoano, e crianças em escolas do Estado encenam quadrilhas como “lampiôes mirins”. O quê mudou 80 anos após sua morte?


Se o turismo europeu transformou em “mercadoria vendável” até cemitério, para atrair curiosidades mórbidas, porque o turismo brasileiro não transformaria em dinheiro a violência explícita do cangaço, para quem pode pagar a excitação da violência de cada um, sem incorrer em “curiosidade violenta”, sentindo o êxtase dos horrores perpetrados por bandidos acobertados por autoridades corruptas? Há gosto para tudo.Escrevi em “A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos guerreando no sertão” que, diferentemente do que afirmam os simpatizantes, Lampião, Corisco, Zé Baiano e Sabino são o protótipo do cangaceiro, modelo de toda perversidade humana. Logo, não há diferenciação entre Lampião e o restante dos grupos.

Seus relatos são a história de milhares de homens que entraram nas forças do governo para se defenderem das barbaridades dos cangaceiros e poderem persegui-los em nome da lei. Vingando a honra de mulheres de família estupradas e parentes assassinados pelos cangaceiros, nos sete estados onde atuaram Lampião e seus bandos, sertanejos pobres e remediados sentaram praça na polícia ou entraram para se “esbagaçar nas volantes até não sobrar um só cangacêro nas caatinga”. As imagens predominantes sobre o cangaço na memória desses informantes são de destruição, fome, morte, desespero e ódio.

Muito ódio e uma disposição para a guerra sem trégua (entre os que lutaram) e uma dor irremediável entre as vítimas passivas como os homens castrados e as mulheres estupradas ou marcadas a ferro. Entrevistar esses últimos é um trabalho doloroso, o de fazê-los evocarem imagens de pavor, desalento e impotência, mas, principalmente reviver sentimentos de injustiça, da gratuidade da violência sofrida, que os identificou no corpo e na memória individual e coletiva por marcas que o tempo não esmaeceu.

A senhora é de Santana do Ipanema, três familiares seus foram sequestrados em 1927 por cabras do Lampião e liberados por dez contos de réis. Como foi?


Minha mãe, uma irmã dela e a esposa de um tio dela foram sequestrados por Lampião e elas foram trocadas por dez contos de réis. Uma vaca custava 50 mil réis, imagine quanto não eram dez contos de réis? Era muito dinheiro. Eles ficaram no povoado Capim, onde nasci. Lampião quando entrou em Capim, a primeira coisa que ele fez foi ir à casa do meu avô. Os homens da família estavam em Recife quando Lampião entra no povoado com 100 homens, montados a cavalo e gritando, e ele foi rezar na casa do meu avô. Lá tinha uma Santa Bárbara enorme.

E ele estava rezando lá, claro, o pessoal pobre foi mostrar quem era a família rica e levaram exatamente onde estava a minha mãe escondida. Lampião apanhou e foi para uma casa, botou as mulheres - porque ele era muito racista, todas as mulheres da minha família eram brancas, minha bisavó era loira de olho azul, todas seguiam a lei dos beatos, usavam manga comprida, não cortavam os cabelos, não usavam roupas sem manga.

Eu mesma até 1962 não podia cortar o cabelo.Vivi neste mundo dos beatos, com todas as histórias do cangaço. A minha mãe rezava pela alma de Lampião porque enquanto os “cabras” ficavam estuprando mulheres da pobreza no meu povoado, ele botou mamãe e a irmã dela que eram grandes bordadeiras para ficarem bordando bandoleiras, bizacos para eles. Lampião perguntou se ela sabia escrever. Disse que sabia e ficou escrevendo bilhetes pedindo dez contos de réis, dois contos de réis. Ele colecionava bilhetes, na hora ele só escrevia o nome do destinatário.

No final, ele muito racista dizia: “Isso é que é uma família: brancos, vestidas no procedimento, sabem ler e escrever, costurar e bordar”. Quando elas estavam lá, minha bisavó chegou, trazida por Sabino [Gomes de Góis, também chamado “Sabino das Abóboras”, um dos cangaceiros mais destacados do bando de Lampião]: “Capitão, essa mulher veio aqui e quer falar com o senhor”. “Quem é a senhora?”, perguntou Lampião.

“Eu vim defender a honra das minhas netas e da minha nora que o senhor está com elas aqui”. Lampião beijou a mão dela: “Minha senhora, a honra dessa família quem está defendendo é o capitão Virgulino Ferreira. Veja aqui onde elas estão, neste quarto”. Quem estava na porta era Ezequiel [irmão mais novo de Lampião], sentado na porta, com um fuzil, dando guarda para as mulheres da família e os dois filas, os cachorros do meu avô, que estavam sentados.

Lampião mandou ela entrar. Daqui a pouco chegou a minha avó, presa. “O que a senhora veio buscar?”, perguntou Lampião. “A honra das minhas filhas”. E Lampião: “A senhora só tem de arranjar dez contos de réis”. Ele tinha dado ordem para ninguém fazer nada. Ele foi ao Capim atrás de matar um grande desafeto dele. Em 1916, Lampião era cabra dos Porcino, em Santana do Ipanema. Recebi estas entrevistas pelas pessoas que conheceram ele. Em 1916, o intendente de Santana do Ipanema e o filho dele que se chamava Ferreira organizaram uma volante para dar fogo nos Porcino. E esse marido da irmã do meu avô deu fogo em Lampião. Onze anos depois, Lampião invadiu o Capim para matar este homem, chamado José Ferreira. Quando ele entrou no Capim gritava “Zé Ferreira, bandido, vou lhe matar, vou lhe sangrar vivo como um bode”.

O cara era esperto, tinha corrido e Lampião foi roubar dez contos de réis sequestrando a minha mãe.E quando ele foi embora, devolveu as mulheres. E disse: “Até o fim da minha vida, se alguém levantar uma dúvida sobre a honra dessa família eu venho e mato até menino de peito”. Para eu conseguir estas entrevistas foi um trabalho muito grande. Todo mundo tinha medo de Lampião na década de 80 do século 20. E não queriam contar a história. Minha mãe tinha contado, mas isso não valia para uma tese de doutorado. Eu saí entrevistando pessoas.

A senhora é de Santana do Ipanema, três familiares seus foram sequestrados em 1927 por cabras do Lampião e liberados por dez contos de réis. Como foi?


Minha mãe, uma irmã dela e a esposa de um tio dela foram sequestrados por Lampião e elas foram trocadas por dez contos de réis. Uma vaca custava 50 mil réis, imagine quanto não eram dez contos de réis? Era muito dinheiro. Eles ficaram no povoado Capim, onde nasci. Lampião quando entrou em Capim, a primeira coisa que ele fez foi ir à casa do meu avô. Os homens da família estavam em Recife quando Lampião entra no povoado com 100 homens, montados a cavalo e gritando, e ele foi rezar na casa do meu avô. Lá tinha uma Santa Bárbara enorme.

E ele estava rezando lá, claro, o pessoal pobre foi mostrar quem era a família rica e levaram exatamente onde estava a minha mãe escondida. Lampião apanhou e foi para uma casa, botou as mulheres - porque ele era muito racista, todas as mulheres da minha família eram brancas, minha bisavó era loira de olho azul, todas seguiam a lei dos beatos, usavam manga comprida, não cortavam os cabelos, não usavam roupas sem manga.

Eu mesma até 1962 não podia cortar o cabelo.Vivi neste mundo dos beatos, com todas as histórias do cangaço. A minha mãe rezava pela alma de Lampião porque enquanto os “cabras” ficavam estuprando mulheres da pobreza no meu povoado, ele botou mamãe e a irmã dela que eram grandes bordadeiras para ficarem bordando bandoleiras, bizacos para eles. Lampião perguntou se ela sabia escrever. Disse que sabia e ficou escrevendo bilhetes pedindo dez contos de réis, dois contos de réis. Ele colecionava bilhetes, na hora ele só escrevia o nome do destinatário. No final, ele muito racista dizia: “Isso é que é uma família: brancos, vestidas no procedimento, sabem ler e escrever, costurar e bordar”.

Quando elas estavam lá, minha bisavó chegou, trazida por Sabino [Gomes de Góis, também chamado “Sabino das Abóboras”, um dos cangaceiros mais destacados do bando de Lampião]: “Capitão, essa mulher veio aqui e quer falar com o senhor”. “Quem é a senhora?”, perguntou Lampião. “Eu vim defender a honra das minhas netas e da minha nora que o senhor está com elas aqui”. Lampião beijou a mão dela:

“Minha senhora, a honra dessa família quem está defendendo é o capitão Virgulino Ferreira. Veja aqui onde elas estão, neste quarto”. Quem estava na porta era Ezequiel [irmão mais novo de Lampião], sentado na porta, com um fuzil, dando guarda para as mulheres da família e os dois filas, os cachorros do meu avô, que estavam sentados. Lampião mandou ela entrar. Daqui a pouco chegou a minha avó, presa. “O que a senhora veio buscar?”, perguntou Lampião.

“A honra das minhas filhas”. E Lampião: “A senhora só tem de arranjar dez contos de réis”. Ele tinha dado ordem para ninguém fazer nada. Ele foi ao Capim atrás de matar um grande desafeto dele. Em 1916, Lampião era cabra dos Porcino, em Santana do Ipanema. Recebi estas entrevistas pelas pessoas que conheceram ele. Em 1916, o intendente de Santana do Ipanema e o filho dele que se chamava Ferreira organizaram uma volante para dar fogo nos Porcino. E esse marido da irmã do meu avô deu fogo em Lampião. Onze anos depois, Lampião invadiu o Capim para matar este homem, chamado José Ferreira. Quando ele entrou no Capim gritava “Zé Ferreira, bandido, vou lhe matar, vou lhe sangrar vivo como um bode”.

O cara era esperto, tinha corrido e Lampião foi roubar dez contos de réis sequestrando a minha mãe.E quando ele foi embora, devolveu as mulheres. E disse: “Até o fim da minha vida, se alguém levantar uma dúvida sobre a honra dessa família eu venho e mato até menino de peito”. Para eu conseguir estas entrevistas foi um trabalho muito grande. Todo mundo tinha medo de Lampião na década de 80 do século 20. E não queriam contar a história. Minha mãe tinha contado, mas isso não valia para uma tese de doutorado. Eu saí entrevistando pessoas.

A senhora disse que os coronéis urbanos e suas milícias substituíram o cangaço rural. Por que os governadores ou prefeitos aceitam este tipo moderno de violência?


Escrevi que os registros escritos e a memória oral dão conta da fragmentação do mundo sertanejo em dois blocos irreconciliáveis: de um lado o cangaço - composto de cangaceiros, vítimas reais de injustiças, policiais corruptos, protetores, coiteiros e simpatizantes. Neste universo, a valentia é o principal valor, não sendo dada importância a possíveis articulações com outros tipos de regras como trabalho ou roubo. Do lado oposto, situam-se os que vêem no cangaço um fenômeno tão destrutivo como a seca, representação do mal. A essa categoria pertencem as vítimas impotentes ou combatentes, policiais e autoridades civis incorruptíveis, homens ricos que não tinham relações econômicas e políticas lucrativas com o cangaceiro.

Defensor do extermínio do cangaço, este segmento supra-classe social se via e representava e era visualizado pela maioria da população como “homens de bem “, muitos deles tombando no “campo da honra “. Defensores da valentia a serviço da manifestação dos códigos de honra, para eles os valores maiores seriam o trabalho, o respeito ao alheio, a mansidão de trato e a obediência à “lei de Deus”, numa combinação de elementos culturais superados posteriormente pelas transformações operadas naquela sociedade.Hoje, o atual “comércio de drogas, armas, alimentos, moradias, sexo, crianças, versões e votos” é o comércio das mercadorias em alta, nas transações nacionais e internacionais. O que os governantes do mundo estão fazendo, combatendo ou desfrutando disto?

Que História o alagoano merece saber de si mesmo?


A História que ele faz e vive cotidianamente, sem se iludir e repetir alienadamente o que vê, ouve e lê na televisão, no rádio e nos jornais. Em uma entrevista para a Revista Internacional de Folkcomunicação (2011), disse que quando eu cheguei no Rio de Janeiro, eu enfrentei um problema muito sério de identidade, porque na Nacional de Filosofia era o ano da liberação total, mulher sem calcinha, todo mundo ‘dando’, e eu cheguei com todos os critérios que eu tinha.

A turma me chamava de jagunça, de beata do conselheiro. Não foi uma crise de identidade, porque eu tinha uma dúvida: se o mundo que eu tinha vivido era falsidade ou se a universidade era analfabeta sobre o interior do Brasil. E comecei a me instrumentalizar com a missão de escrever voltando para a minha cultura, com o instrumental teórico universitário, para ver quem estava errado, se era minha formação ou a universidade. E logo me certifiquei que a universidade não conhecia o Brasil.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia