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18 de Novembro de 2018

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Edição nº 819 / 2015

06/05/2015 - 21:19:00

Osvaldo Batista Acioly

Alagoas e a batalha da memória: o que vai ser contado às gerações futuras?

Odilon Rios Especial para o EXTRA

Alagoas se permite esquecer do seu passado através da morte. Não o conhecido assassinato do corpo. Mas a morte do nome, do líder operário ou popular. Apagar seus vestígios no imaginário coletivo. E  a barganha altera a História.A série “Alagoas, 200” traz esta semana Osvaldo Maciel, também pesquisador da classe operária. Ele mostra como existe a batalha da memória em Alagoas. E como ela pode ser cruel. 


Veja entrevista:


Como as relações sociais e econômicas da cana-de-açúcar ajudaram a construir o nosso “alagoano cordial”?

Penso que aqui você está, tomando o todo (que é o Brasil) por uma de suas partes, Alagoas, e reproduzindo em escala diminuída a tese do homem cordial brasileiro, do Sérgio Buarque de Holanda, para o caso alagoano. Avalio que há limites na tese do notável professor, porém não vem ao caso debater tais problemas aqui.

De toda forma, sua pergunta me permite fazer um paralelo entre os dois casos, o de Alagoas e do Brasil. Para o caso brasileiro, em Raízes do Brasil, SBH avalia que em algum momento entre as décadas de 1920 e 1930 o modelo da pessoalidade, da gestão da barganha, da privatização das esferas públicas, estaria em fase de superação, e que um Estado ampliado, com uma burocracia e a possibilidade de discussão de projetos em termos mais criteriosos, estava ocupando o espaço central na sociedade brasileira que se modernizava, etc. Para o caso de Alagoas, há de ajustar os ponteiros históricos do nosso relógio. Dirceu Lindoso afirma que o século XX inicia-se apenas em 1912, com o quebra dos terreiros.

Eu serei mais incisivo ainda. Para mim, pensando no século XX como o século do estabelecimento da democracia ocidental em boa parte dos países do globo; o século de uma preocupação básica com o chamado estado de direito e os amparos legais à cidadania, este século não cumpriu sua tarefa em Alagoas, passou de lado, e não parou para fazer mais do que uma visita; é como se tivéssemos passado em branco por um século inteiro.

Neste sentido, as relações sociais e econômicas dominantes no estado reproduzem um padrão de sociabilidade arcaica, manifestamente clientelista e coronelista, eivada de pessoalidade, ou seja, muito cordial no sentido utilizado por Sérgio Buarque, e portanto, nada cordial em seu sentido comum, cotidiano. É nesta ambiguidade do termo que a política do favor vira, talvez, a principal moeda de troca de nossa sociedade. E esta “cordialidade” é extremamente perversa para a maioria da população, pois impõe o duro julgo justamente ao que se disfarça de protetor.


Em seu livro “Trabalhadores, identidade de classe e socialismo: os gráficos de Maceió (1895-1905)”, o senhor diz que a elite alagoana matava seus líderes operários pela vigilância que sufocava suas atuações e desqualificando ou esquecendo seus nomes depois de enterrados. Alagoas ainda se permite esquecer de sua memória?

Claro que sim! Toda memória carrega, por definição, esquecimento, porque é impossível memorizar ou lembrar tudo, em todos os detalhes, como ocorria com o famoso personagem de Jorge Luis Borges, Funes. Toda memória é também omissão! Neste sentido, o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, uma de nossas principais casas de memória, é também uma produtora de esquecimentos, pois as lideranças populares se veem pouco representadas e guardadas naquela instituição. Nada mais natural! Alagoas é habitada por classes e interesses políticos não só distintos, mas também antagônicos. Neste sentido, há grupos dirigentes que querem esquecer uma determinada Alagoas.

Eles têm realizado uma operação do silêncio sobre várias camadas do passado e, pelo contrário, num processo seletivo bastante conveniente, monumentalizam personagens de nossa história, projetando heróis na memória oficial que terminam se plasmando, em parte, na cultura popular também.

A classe dominante em Alagoas (ou seja, antigamente, os senhores de engenho, os escravistas, e agora os usineiros, mas também os latifundiários, grandes empresários e pecuaristas, financistas, etc) não se contenta em combater cabanos, índios e operários na vida concreta, cotidiana. Mais do que isto, também precisa vencer a batalha da memória, do que vai ser contado para as gerações futuras. Todo historiador que possui compromisso em modificar o difícil quadro social em que vivemos, o perverso estado de coisas que nos rodeia, deve ter ciência de combater também no plano da memória. 


O alagoano mostrou repulsa à política e políticos nos protestos de 2013 e 2015. Alagoas teve lideranças políticas de destaque, desde Zumbi, Barão de Sinimbu, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Não deveríamos ter paixão por política, olhando para este passado?

Sim, mas quem disse que esta ideologia antipartidária não é política?

Quem pode afirmar, com o mínimo de coerência, que as manifestações contra a política institucionalizada no Estado ou nos partidos políticos não são uma atitude política em seu sentido forte? Inclusive, muitas das pessoas que lideram estes movimentos e chamam estas palavras de ordem contra a política existente, muitas vezes possuem por trás de si grupos políticos muito bem assentados no poder regional e nacional.

Ou seja: este tipo de discurso revela, em parte, a crise da política institucionalizada que possuímos, e a decadência dos principais partidos da ordem, ora numa tendência mais à direita (como no caso do DEM e do PSDB), ora com as posturas de centro (como no caso do PT e do PCdoB).

Apesar do anticomunismo latente em muitas destas manifestações, julgo que os partidos da esquerda socialista que possuímos hoje no país (PCB, PSOL, PSTU) não foram alvos centrais destas manifestações, pois eles não possuem poder, são muito pequenos ou possuem força institucional diminuta.

Parte do desencanto com esta política parece estar relacionada com o fato de que, quem chega ao poder, na verdade não vence, mas capitula! Esquece seu discurso de combatividade e adota a palavra da ordem! Assim, por exemplo, se fala em uma postura anticorrupção, mas como efetivá-la sob uma sociabilidade capitalista?

Como não ficar decepcionado com as conquistas sociais e direitos que ficam apenas no patamar da cidadania? Se a própria cidadania, a manutenção deste estado de direito é sinônimo da miséria em que vivemos?

Tirando o nome de Zumbi que você mencionou, pois possui características muito distintas dos demais, como não se decepcionar com esta longínqua tradição de diplomatas, grandes políticos, que ajudara a construir a sociedade em que vivemos, com estes índices sociais e de desenvolvimento humano?

Um grande sintoma desta decadência é o fato de que, por exemplo, o Memorial à República, que custou milhões aos cofres públicos, é vazio por dentro, não possui estofo historiográfico e museológico de envergadura a dar suporte à verdadeira monumentalização destes heróis! O mesmo argumento cabe para o monumento construído para celebrar a memória de Teotônio Vilela (o pai).

Quem não se decepciona quando entra naquele espaço construído na praia da Pajuçara?

Parece ser um sintoma da necessidade de forjarmos uma nova política, radicalmente distinta, e que exija a reelaboração de nosso passado, recuperando figuras esquecidas e apresentando novos personagens, alguns coletivos, para dignificar o presente em que vivemos.


Quem são os heróis de Alagoas?

Triste o povo que precisa de heróis! Alagoas, pior ainda, precisa de traidores (como alguns interpretam a figura de Calabar, por exemplo), para justificar as opções do passado que terminaram gerando um presente de estagnação, de baixo desenvolvimento, etc.

Na medida do papel histórico que cabe aos grupos e classes sociais ao longo de nossa formação, todos os alagoanos (mas não só estes, e sim também outros que viraram viventes das Alagoas) devem se corresponsabilizar pela história que possuímos e pelo presente em que vivemos.

Assim, pensando que os que foram vítimas da opressão e da exploração eram portadores de propostas mais generosas para nossa sociedade, para seu desenvolvimento socioeconômico e moral-intelectual, avalio que o verdadeiro herói de Alagoas é o sujeito anônimo, que forja-se no cotidiano, pisando o solo comum à muitos, com altivez e sem assombro, e que se une a inúmeros outros, forjando movimentos sociais, insurreições, demandas olímpicas, gerações aguerridas em vários momentos de nossa história.

Eventualmente, estes processos históricos fazem surgir personagens que corporificam estes projetos coletivos, com traços heroicos – ora dramáticos, ora trágicos. De toda forma, penso que o mais importante nisto é avaliar o que está por trás de tais figuras, o que lhe dá força e envergadura para se erguer para além das pessoas comuns. É neste sentido que a heroicidade anônima me é mais atraente!

Quem é?

Osvaldo Batista Acioly Maciel, 43 anos,  é escritor, professor. Graduado em História pela UFAL (1994); Especialização em Filosofia Social – Ética e Política e Especialização em Filosofia Social, UFAL (1999); mestrado em História, UFPE (2004); Doutorado em História, UFPE (2011). É membro do corpo editorial da Revista Mundos do Trabalho, desde 2009;

Revista Crítica de História, desde 2010; Revista História & Luta de Classes , desde 2009; Odara: Revista da NEAB-UNEAL, desde 2011 e da Revista Brasileira de História, desde 2012. Membro, também, da ANPUH/AL. Seu trabalho estuda o movimento operário e o mundo do trabalho em AlagoasPrincipais obras: 


- Operários em Movimento: Documentos para a História da Classe Trabalhadora em Alagoas, 1870-1960 (org.), Maceió, EDUFAL, 2007
- Trabalhadores, Identidade de Classe e Socialismo: Os Gráficos de Maceió (1895-1905), Maceió, EDUFAL, 2009 (org.), apresentação de Cláudio H. M Batalha.


- A Perseverança dos Caixeiros: O Mutualismo dos Trabalhadores do Comércio em Maceió (1879-1917), Recife, EDUFPE, 2011. 
- Pesquisando (n)a Província: Economia, Trabalho e Cultura Numa Sociedade Escravista (org.), Maceió, Q-Gráfica, 2011. 

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