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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 818 / 2015

29/04/2015 - 14:54:00

Jorge Vieira: Da guerra santa contra caetés à demarcação das terras dos Xucuru-Kariri

Odilon Rios Repórter

Do extermínio dos índios caetés (por devorarem o bispo Sardinha) até a decisão da Justiça Federal que devolve terras de Palmeira dos Índios aos Xucuru-Kariri, em 2015. A história dos índios é feita de construção e destruição, onde o principal elemento é o colonizador. A série Alagoas, 200 entrevista esta semana o professor Jorge Vieira. Ele define o seu lado: o dos índios. E a partir deles mostra como a História de Alagoas move uma guerra santa contra estes povos. Desde que devoraram o bispo, no século XVI.O que ficou deles? E como ficou esta herança? 

Veja entrevista:


A história de Alagoas registra o extermínio dos Caetés nos anos 1600 e, nos anos 2000, a ação judicial que faz os Xucuru-Kariri tomarem conta de uma Palmeira dos Índios que era deles. Chegou a hora do acerto de contas?

A história de Alagoas é marcada por grandes acontecimentos dramáticos para a vida dos povos indígenas e seus descendentes. Ainda no século XVI, o numeroso e promissor Caeté foi completamente dizimado em razão de ser um grande empecilho para as frentes de colonização portuguesa entre Recife e Salvador. O conflito político e religioso entre as autoridades resultou no naufrágio da comitiva do primeiro bispo do Brasil, dom Pero Fernandes Sardinha, sendo declarada a famigerada guerra santa sobre a população indígena.

Entre conflitos com a colonização, expulsão dos territórios, espoliação dos seus bens, perseguição, assassinatos, confinamento nas missões e escravização, no século de XIX, o presidente da Província, Luiz Rômulo Peres Moreno, decreta a extinção dos grupos indígenas de Alagoas. Durante praticamente um século no anonimato, persistindo a referência dos Kariri-Xokó, em Porto Real do Colégio, e, em Palmeira dos índios, os Xucuru-Kariri, no final da década de 1970 e início de 80, ressurgem os grupos Tingui-Botó, em Feira Grande, Karapotó, em São Sebastião; Wassu-Cocal, em Joaquim Gomes, e em Pariconha, os Geripankó.

Uma década depois, emergem os Kalankó, em Água Branca, Karuazu e Katökinn, Pariconha; Koiupanká, em Inhapi; nas primeiras décadas do século XXI, aparecem reivindicando o reconhecimento da identidade étnica o grupo Aconã, em Traipu, e, em Delmiro Gouveia, Pankararu. Nesse contexto, na base das reivindicações dos povos indígenas em Alagoas, estão os direitos históricos, tradicionais e constitucionais à terra, assistência à saúde, educação e projetos de desenvolvimento.Como outros povos, os Xucuru-Kariri lutam pela demarcação do território desde o século XIX.

Em razão da morosidade do Estado brasileiro e dos interesses políticos e econômicos que perpassam sobre as terras indígenas, o Ministério Público Federal decidiu entrar com ação na Justiça Federal pedindo a agilização do processo demarcatório da terra Xucuru-Kariri.A decisão da Justiça Federal em favor do povo Xucuru-Kariri tem um caráter reparador de uma injustiça praticada durante esses mais de 500 anos de colonização no Brasil.


A história registra Zumbi como herói, Calabar como traidor e os marechais Deodoro e Floriano em postos de poder. Os índios são heróis ou vilões da nossa história?

Os indígenas, dentro dos 515 anos de história do Brasil, nem são vilões e nem heróis. Ao contrário, em determinados momentos reagiram, em outros negociaram ou se submeteram estrategicamente ao domínio do colonizador e dominador, como também se aliaram aos negros e populares. Ao contrário desta bipolaridade, identifica-se que se colocaram como sujeitos históricos diante do diferente, reagindo ou aliando-se de acordo com a leitura que fizeram da realidade ou dos interesses que estavam postos.


Que é a Alagoas nas suas obras?

Primeiro, do meu ponto de vista, o Estado de Alagoas ainda não se encontrou com as suas raízes históricas. Na origem de sua história se encontram os grupos étnicos; com a colonização, amplia-se a diversidade étnica com os grupos europeus e africanos. Contrariamente a esse tecido social diverso, a história de Alagoas tem sido mostrada a partir do olhar oficial da classe dominante, deixando à margem as suas raízes culturais, religiosas e étnicas. Em vista dessa classe dominante não ter interesse em encontrar a própria história do Estado, porque a memória histórica é perigosa e revolucionária, o caminho foi decretar a ocultação dos sujeitos históricos. Colocar no cenário os povos que ainda permanecem vivos, indígenas e quilombolas, é reconhecê-los como sujeitos originários e donos da terra de onde foram expulsos e massacrados.


No ensaio “Os povos indígenas e a colonização europeia”, o senhor diz que os índios buscam seu caminho de volta na cultura, nos valores, nas tradições. Em tempos de globalização, estamos preparados a aceitar o que sempre foi negado ou renegado?

Comparando o antes da década de 1970 e o depois da década de 1980, observa-se, do ponto de vista cultural, que houve uma mudança significativa no cenário alagoano. No século XIX, os documentos históricos registram 20 aldeias na Província de Alagoas.  Com o decreto de 1872, essas populações entraram no anonimato, hordas perambulando pelo semiárido e sertão, acusados por fazendeiros de meliantes e ladrões de roças e animais; outros tornaram-se mão de obra barata nos serviços públicos e fazendas da região; enquanto que outros se esconderam em caatingas, serras e nas margens do rio São Francisco, ocultando os rituais dos Encantados no poró e no Ouricuri – lugarsagrado.

Com o processo de redemocratização do Brasil e a organização dos setores democráticos e populares, os povos indígenas também se organizaram em assembleias e organizações para reivindicarem o reconhecimento étnico e seus direitos constitucionais. Nesse processo de ressurgimentos, é importante destacar o apoio das entidades não governamentais, a exemplo das personalidades acadêmicas – sociólogos, historiadores e antropólogos - e a criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) da Igreja Católica.

Portanto, compreende-se que a afirmação da identidade e garantia dos direitos dos grupos étnicos são conquistas dos sujeitos históricos, aliados populares e entidades de apoio diante da sociedade ocidental, que é imperialista, monocultura e homogeneizadora. Até porque, o opressor é incapaz de reconhecer aos oprimidos os seus direitos e a sua autonomia.Diante disso, com o advento da globalização, chegou a ser anunciado o fim das minorias étnicas e das localidades. Ocorreu o contrário, emergiu a diversidade étnica, reivindicando o respeito às suas diferenças. E, portanto, em Alagoas já são doze povos indígenas, enquanto que no Nordeste são 96 etnias.


O senhor fala ainda neste ensaio que houve a tentativa, na história, da aculturação do índio, integrá-lo à “civilização”. Qual imagem que o índio tem de si e da “civilização”? 

Entendo que esta pergunta seria mais apropriada para o próprio indígena respondê-la. Entretanto, como observador e estudioso da temática, interpreto que o indígena tem uma profunda consciência sobre si mesmo. Nesse contexto, uma jovem liderança indígena Antônio Kalankó disse de si mesmo comparando com o não indígena: “Eu posso ser você, mas jamais você poderá ser eu”. Isto representa bem a compreensão que os indígenas têm sobre os dois mundos, até onde chegaram a ter um claro entendimento do mundo deles e sobre o nosso. O historiador francês Serge Gruzinski soube muito bem definir a relação entre o mundo indígena e o europeu.

Pesquisando sobre o México do século XVI, identificou que os indígenas se apropriaram do mundo dos europeus, trouxeram para o seu mundo e ressignificaram os costumes, tradições, culturas, línguas e ofícios. Os indígenas de ontem e os de hoje sabem dialogar com o conhecimento do outro, ou reconhecendo sua importância para a sua aprendizagem ou tirando proveito para a sua própria habilidade e movimento dentro mundo do outro.


Quem venceu na história de Alagoas? O índio herói construído em O Guarani, de José de Alencar, ou os Xucuru-Kariri e a ação judicial pela posse de terras em Palmeira?

Todos perderam! Os indígenas que tiveram suas vidas ceifadas, dizimadas e suas terras espoliadas. Mas também os colonizadores, que autodestruíram como seres humanos, se animalizaram. O Guarani de José de Alencar é puramente uma construção literária ficcional, como Graciliano Ramos que tratou os Xucuru-Kariri em sua obra Caetés como remanescentes bêbados perambulando pela periferia de Palmeira dos Índios.

Ao contrário de todas as invenções e ficções imagéticas e literárias, os xucuru-kariri da decisão judicial são os sujeitos históricos que foram secularmente espoliados e execrados de seu território, que a partir da memória de seus antepassados emergiram reivindicando seus direitos tradicionais e constitucionais. E coube a justiça reconhecer esses direitos originários.

Quem é?


Jorge Luiz Gonzaga Vieira, 54 anos, Graduado em Jornalismo, UFAL (2000). Especialização em Realidade Brasileira a Partir dos Pensadores Brasileiros, UFMS (2004). Mestrado em Desenvolvimento Local, UCDB (2004). História, CESMAC (1997). Extensão universitária em Curso de Formação Básica em Indigenismo, CIMI (2003).

Curso de Capacitação, UCDB (2004). Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística, UFAL (2006). III Encontro Pedagógico - Formação Continuada, CESMAC (2011). Professor da Arquidiocese de Maceió (desde 2005), do CESMAC (desde 2005), da Congregação das Irmãs Franciscanas de Santo Antônio (2006), FFPP (2007-09), da FECOM (2009)


Na sua produção intelectual, transita entre a História, o Jornalismo, costurando o entendimento dos índios e o mundo. Principais obras:

- Karuazu, o Mais Novo Povo em Alagoas, in Outros 500: Construindo uma Nova História, Saulo Feitosa, Egon Heck, Roberto Liebgott, Lídia Luz e Benedito Prezia (orgs.), São Paulo: Editora Salesiana, 2001, p. 165-165. 

- Comunidades Indígenas no Sertão de Alagoas e a Economia Capitalista: Etnodesenvolvimento na Perspectiva de Autonomia das Economias Indígenas, in Índios de Nordeste: Etnia, Política e História, Luis Sávio de Almeida; Amaro Hélio Leite da Silva (orgs.), Maceió, EDUFAL, 2008, v. 10, p. 175-202.

 - História Kalankó na Memória de Uma Experiência Indigenista: Confinamento, Diáspora e Resistência Étnica, juntamente com Kalankó, in Índios de Alagoas: Cotidiano, Terra e Poder, Luiz Sávio de Almeida; Amaro Hélio Leite da Silva (orgs.), Maceió: EDUFAL, 2009, v. XI, p. 47-58.

 - A Prática do Jornalismo em Alagoas e a Diversidade Cultural: Monoculturalismo e Etnogênese Koiupanká, juntamente com João Daniel Batista Maia, in Revista Brasileira de Sementes, 2008, v. 3, p. 33-40.

 - Os Povos Indígenas e a Colonização Europeia: Do Anonimato à Afirmação Étnica, in Diálogo, São Paulo, SP, 01 fev. 2009, p. 20 - 23. 

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