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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 818 / 2015

29/04/2015 - 09:53:00

Miragem de náufragos

Cláudio Vieira Advogado e escritor membro da Academia Maceioense de Letras

Parece que tive, com os títulos da última crônica e desta, inspiração na minha vida de velejador oceânico. Apenas parece, pois velejador algum jamais irá ao mar pensando em naufrágio, malgrado esteja sempre pronto para as eventualidades. A verdade, porém, é que acontecimentos relativos ao poder brasileiro sugerem naufrágio da nau governista em particular, e do petismo no geral, provocando nos náufragos a ilusão das miragens.

As manifestações das ruas no dia 15 de março e no 12 de abril provocaram duas reações antagônicas dos petista e dos seus acólitos. Quando da primeira, que incluiu panelaços, o sentimento foi de alarme, até mesmo de desespero, dois ministros escalados para depreciar a importância da voz das ruas.

Na miragem dos governistas, a manifestação era mera propaganda oposicionista, os manifestantes apenas membros de uma classe média incomodada com a ascensão dos sem-privilégios aos bens de consumo, às escolas e às universidades. A pesquisa de opinião que se seguiu, dando conta da brusca queda de aprovação da governante e da rejeição ao PT, fê-los despertar da ilusão.

A segunda manifestação trouxe novo alento ao petismo, que a consideraram um fracasso, haja vista a pouca afluência de manifestantes, embora tenha sido ela maior, muito maior, do que aquelas nada espontâneas pró-governo. Houve respiros de vitória, os áulicos do petismo apressurando-se em comentar que o encolhimento das manifestações demonstrava o que afirmavam: tudo não passava de manobras oposicionistas e de uma retrógrada classe média.

Ambas as reações são miragens de náufragos, porquanto, pretendendo fazer análise dos dois momentos políticos, elaborou-se proposital equívoco, grotesco porque deixa de examinar circunstâncias periféricas, mas necessárias a uma interpretação realística desse despertar do povo brasileiro

.Como a primeira reação, atribuindo apenas à classe média a voz das ruas, já foi suficientemente desmoralizada pela pesquisa de opinião subsequente, pensemos na segunda que, por ter a participação de menor número de manifestantes, foi considerada derrota dos opositores do dilmismo, do lulismo e do petismo. Anote-se que às vésperas da manifestação notas em jornais diziam de prontidão do tal exército Lula-Stédile, preparado para intervir. A informação talvez teve o condão de retrair eventuais participantes dos movimentos populares.

Por outro lado, essa era a segunda manifestação em apenas 30 dias, e até os próprios organizadores já esperavam número menor de participantes. Mesmo assim, a manifestação teve apoio significativo, seja, nas redes sociais, seja nas ruas, até porque o número de cidades brasileiras que aderiram ao “Fora Dilma” e outros apelos foi muito maior do que o anterior. Ademais, a nova pesquisa, justo às vésperas da manifestação, mantinha incólume o quadro de rejeição.

Há uma lição teimosamente não aprendida pelos petistas e seus acólitos: a reeleição de Dilma é devida ao que o cientista político Marcos André Melo denominou de qualunquismo (do italiano qualunque = qualquer um), ou seja, relativo ao voto daqueles que apoiam qualquer um que esteja no Poder e que lhes assegure a mantença das benesses já atribuídas. De igual forma, os qualunquistas tendem a tirar o apoio anteriormente outorgado se perdem aquelas benesses, o que já ocorreu segundo as pesquisas. Então, a votação da Presidente Dilma, como as anteriores do Lula, está longe de significar que o Brasil virou petista. Nada, pois, para o petismo comemorar.  

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