Acompanhe nas redes sociais:

20 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 817 / 2015

21/04/2015 - 15:34:00

CLÁUDIA LAURINDO: “Alagoas , seus eleitores pobres e ricos fanfarrões”

Odilon Rios Especial para o EXTRA

“Alagoas querida, terra da prosperidade, quem mora nas Alagoas, não passa necessidade”. Os versos mostram um lado heroico da terra que se associa a um passado de glórias talvez criativo, irreal ou chocante - se encarado frente a frente. Terra da prosperidade de alguns, políticos camaleônicos e discursos antiviolência com armas em punho. A série “Alagoas, 200” segue esta semana com a cientista social Ana Cláudia Laurindo. Nascida entre três usinas do litoral norte, ela mistura em seus estudos a violência, o poder e a escola.

 

 

 


Veja entrevista:
A história alagoana se mistura à conquista cruel de terras pelos colonizadores, a implantação dos engenhos e o massacre dos Caetés e do Quilombo dos Palmares. Por que iniciativas populares assustam nossos governantes?

 

 

 

Não creio que as iniciativas populares assustem os governantes alagoanos. Tenho maior propensão a crer que o movimento popular lhes desperta a ira dos coronéis, uma insígnia que guardam no peito, herdeiros que costumam ser do cetro de poder. Contrário, também, à mais infantil democracia! Todos os casos citados são marcados pela letalidade, força destruidora de corpos e símbolos, gerando outras simbologias. Algo que transforma brutalmente a concretude e a subjetividade, marcando uma mensagem histórica de poder e posse. Assim nossa história foi escrita, categorizando quem manda (porque possui a legitimidade política e econômica) e quem obedece (porque sem autonomia econômica não tem legitimidade política).

 

 

 

A manutenção da desigualdade une os poderes constituídos. Um exemplo contemporâneo é a quantidade de greves que o judiciário alagoano julga como ilegal. Mostrando destreza na emissão da sentença, que, por sua vez, torna cada vez mais indigna a voz das ruas e contribui para a aversão social às representações sindicais. A aparentemente isenta posição do Ministério Público alagoano autorizando intervenção policial para desobstruir ruas, em nome do decantado direito de ir e vir – eleito o mais sagrado dos direitos por aqui! Tem serventia histórica amplamente voltada ao poder, pois desconsidera outros direitos e desmobiliza a população, haja vista o modus operandis da nossa polícia. Em resumo, o aparato estatal alagoano está mobilizado para silenciar os insatisfeitos, não porque o teme, mas porque não o suporta!

 

 

 


Qual a versão da história alagoana a senhora aprendeu na escola?

 

 

 

Eu cantei o hino de Alagoas na escola e aprendi sobre a importância das usinas para a felicidade dos que trabalhavam em suas engrenagens, ao mesmo tempo, que os seres mais abjetos eram os cortadores de cana, por não terem estudado. Ninguém deveria ser um cortador de cana se quisesse ser respeitado. Usineiros eram seres iluminados, faziam a prosperidade do comércio local e elegiam prefeitos. Cresci entre três usinas na Região Norte do estado, e quando na juventude vim saber sobre possíveis malefícios sociais, econômicos e culturais causados pela monocultura da cana-de-açúcar, acreditei ser heresia.

 

 

 

A história contada tinha tal encanto que seduzia os mais vigorosos braços juvenis para trabalharem na indústria do açúcar, como ícone de “crescimento” social e econômico local. A quebra desse encanto pede um preço tão alto, que muitos por certo preferem viver de olhos fechados, talvez, dormindo eternamente para a realidade alagoana, a materializar uma história de trabalhadores anônimos em um contexto formado por inúmeras expressões de alteregos políticos. Quanto a mim, restou-me o exílio e o orgulho dele.Em seu livro, “Construção da Alma Alagoana”, a senhora mostra que Graciliano Ramos tinha dificuldade de unir sua genialidade em um ambiente escolar de tensão e uma família com requintes de brutalidade. É difícil ser genial em Alagoas?

 

 

 

Alagoas consegue a proeza de manter raízes de arcaísmos profundos até naquilo que tem aparência de novidade. É fácil encontrar a coação nos esquemas de barganhas relacionais em diversos níveis. Assim, aqueles que saírem isentos desse circuito de algemas podem receber como uma maldição, a perseguição e o isolamento. Para que o indivíduo consiga romper com tal ciranda de subserviência necessitará de autonomia de pensamento, capacidade de sobreviver sem as “bênçãos” dos poderes, mostrando assim que são geniais. Nesse contexto, é muito difícil ser genial em Alagoas. Mas como nos mostrou Graciliano Ramos, Nise da Silveira, Djavan e outras personalidades conterrâneas: quem sobrevive a esta terra tem sucesso garantido em qualquer outro lugar.

 

 

 

Por que sabemos combater a nossa violência, e ainda assim somos líderes em assassinatos?

 

 

 

Porque acreditamos saber combater violência usando métodos violentos, e isso está provado nas reações da sociedade quando esta temática é posta em pauta. Na prática, seria o equivalente a apagar fogo com querosene. O discurso vigente seleciona a legitimidade ou não do assassinato, dependendo da mão que empunha a arma. Mas a violência não pode diminuir a si mesma. A repressão é necessária, mas sem perder de vista ações planejadas e executadas com perspectivas sociais de qualificação humana e promoção da cidadania. De outro modo, as ações podem ser arrojadas e bélicas, mas estarão à caça de alguém, sem combate preventivo do assassínio de pessoas em Alagoas.A CPI do Narcotráfico mostrou que deputados de Alagoas estavam por trás do crime organizado.

 

 

 

A Operação Taturana também. Eleger criminoso não torna o povo igualmente criminoso?

 

 

 

Não vejo por esse prisma. A construção social do eleitor alagoano foi e ainda é um processo, do qual ele participa sem se dar conta do que está fazendo historicamente. O eleitor não pensou esse projeto de representação política, antes, sempre teve que bajular o candidato apresentado pelo coronel, pelo usineiro, pelos influentes locais ligados ao latifúndio, aos poderes constituídos, e por fim, pela mídia e compra de voto. Como responsabilizar diretamente por ter sido reduzido à condição de massa de manobra, feita para votar e eleger os escolhidos? É verdade também que o eleitor aprendeu a barganhar com o candidato, a trocar. Mas até os objetos dessa troca é a classe dominante quem tem determinado, o eleitor participa daquilo que ela planeja. Não seria por outra via que o que temos de pior em termos de ética e moral sejam os representantes políticos.

 

 

 

Na ditadura, a maioria dos nossos políticos era afinada ao regime.Muitos deles sobreviveram com a redemocratização e também se afinam aos governos democráticos. A lógica não seria o prestígio transformar Alagoas em “terra da prosperidade”?

 

 

 

Segundo a ordem posta, Alagoas é a terra da prosperidade, mas apenas para alguns. Os políticos camaleônicos, capazes de metamorfosear a representação de acordo com os contextos, são os carreiristas que garantem a zona de conforto aos seus descendentes, que tendem a dar seguimento ao que se converte em tradição familiar, aos moldes da mais cerrada monarquia, praticando com verniz democrático a vitaliciedade que nossa sociedade, no discurso, condena.

 

 

 

Sobre qual prosperidade vamos dissertar?

 

 

 

A máquina pública só consegue produzir mentalidade velha por estas terras, e o empobrecimento do povo é a condição para o enriquecimento dos escolhidos.Quem venceu na história alagoana?Não chegou ao fim ainda. Estamos em curso, jogando os nossos dados ou dardos. Mesmo na maneira descompensada como vive a classe pobre eleitora de ricos fanfarrões em Alagoas, não sou adepta do fim da história. Acredito na superação da mentalidade arcaica que afeta mesmo os jovens burgueses alagoanos, pela responsabilidade evolutiva afinada com a história política e cultural dessa gente. Há possibilidade, mantenho as reticências.

 

 

 

O fim da nossa história será no dia em que Alagoas superar os piores índices sociais do país?

 

 

 

Este dia será, então, o início de uma nova história, que por ora figura entre as quimeras idealistas dos bons conterrâneos. Creio, contudo, que merece ser tratada com intenso respeito essa perspectiva que significará as lutas de tantos. Devemos marchar para a construção desse dia. Ser isolado ou perseguido, não é tudo, apenas páginas a serem escritas e viradas. No final todos morreremos, mas a história que segue após os nossos passos deve levar nossas melhores contribuições. Não desisto de Alagoas.

 

 

 

Quem é?

 

 

 

Ana Cláudia Laurindo de Oliveira, 42 anos, é diplomada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas, de onde também fez mestrado em Educação. Ocupa cadeira vitalícia na Academia Portocalvense de Letras, é professora das redes pública estadual e municipal.

 

 

 

Na sua produção intelectual, transita entre Ciências Sociais e Educação.

 

 

 

Livros/Artigos 
- Bastidores da Violência (e dos Violentos) em Alagoas, juntamente com Odilon Rios, Maceió, Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2012.

 

 

 

 - Construção da Alma Alagoana

 

 

 

- de Graciliano aos Nossos Dias, editora Q Gráfica, 2013

 

 

 

- Analfabeto político? Nunca mais!, Maceió, SEE-AL, 2002 (Cartilha). 

 

 

 

- Tem artigos publicados no O Jornal e Gazeta de Alagoas.
Contato: [email protected]: Ana Cláudia Laurindo

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia