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12 de Novembro de 2018

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Edição nº 816 / 2015

15/04/2015 - 09:10:00

Dirceu Lindoso: “Alagoas nasceu da paixão pela vida e pela morte”

Odilon Rios Especial para o EXTRA

Alagoas. Uma terra em que se ama e se dói. Onde existe a paixão pela vida. E pela morte. Uma mistura de uma história fabulosa. E das guerras para sua formação.A série “Alagoas, 200” conversou com Dirceu Lindoso. Entre livros e artigos sobre o Estado, vão-se mais de 300 títulos. Seu olhar mistura um passeio pela literatura. E análise documental. Uma praticidade romanceada.  

Um romancista pragmático. “Alagoas, 200” é publicada pelo EXTRA todas as semanas. Um presente ao leitor, reunindo gentes de Alagoas contando histórias para além de sua História oficial, misturando passado e presente, com um olhar para o futuro. Por aqui passaram quatro dos autores clássicos para entender Alagoas: Sávio de Almeida, Douglas Apratto, Élcio Verçosa e Dirceu.  

Veja entrevista: 

Onde o senhor identifica, na nossa história que o modelo pensado e imaginado para Alagoas pelos seus gestores começou a falhar?

Não sei se começou a falhar. Cito em meus livros apenas  seus defeitos. Escrevi um artigo em que mostro que, na formação das Alagoas, a sociedade que vai ser alagoana depois de 1817 apresenta-se com uma dupla face: a da abundância tutelar e a da pobreza social. Ambas com estrutura social e conotações econômicas. A sociedade já mercantilizada desenvolve um conteúdo econômico e esboça uma diferenciação cultural.

Nela, o social prevalece sobre o cultural. Ela vai adquirindo uma autoconsciência social. Só que se especificam as ambivalências sociais, principalmente nas classes baixas; algumas delas - como a dos escravos - não chegam a ser uma classe. No máximo, um estamento, no qual as ambiguidades culturais prevalecem sobre as diferenciações econômicas.  É o que descreve Tonelare sobre o mundo rural do sul de Pernambuco do século XIX - uma região rural especificamente de transição, com índios que contestam a posse da terra, com moradores que plantam de aluguel e lavradores empobrecidos. Essa região de Ipojuca, visitada pelo viajante francês, serve de exemplo a toda a região dominada pelos engenhos de açúcar.  


No ensaio “Primeiros Passos da Formação de Alagoas”, o senhor escreveu que nascemos da paixão pela morte. A morte de negros, índios. Essa pode ser uma explicação para o extermínio anual de duas mil pessoas, a maioria também carregando as suas paixões pela vida e pela morte?

A violência hoje tem outras origens. Quando eu falo  na minha obra sobre violência eu falo como historiador baseando-me em documentos e não como um cientista social.  Porém, como ser social eu diria que a violência contra negros, índios, mulheres e demais grupos sociais,  se transformou em outras formas de violência, mascaradas socialmente. Alagoas surgiu da morte de milhares de índios, que hoje vivem encurralados em suas aldeias de sertão, da morte e prisão de milhares de negros escondidos nas Cabeceiras do Porto Calvo, para que, desse genocídio, dessas paixões humanas de raças tão diferentes, surgisse Alagoas.

Uma vez escrevi: Alagoas é o que se ama e dói. Alagoas não nasceu do sonho de um monarca. Nasceu da morte de milhares de índios Tapuia-Kariri, da morte de milhares de negros de etnias diversas, do trabalho de milhares de homens pobres: índios, negros, brancos e mulatos. Houve uma riqueza de poucos e uma pobreza de muitos. Esse foi o jeito que encontramos de criar Alagoas. Pois é bom que se diga: Alagoas nasceu de uma grande paixão. A paixão pela vida, a paixão pela morte.

A paixão pela riqueza, a resignação pela pobreza. E, desculpe-me o orgulho do nosso antigo Pernambuco, pelas escolhas que fizemos na História. Alagoas é terra mater. Antes da emancipação de Alagoas, em 1817, quem era a Alagoas colonial? A Alagoas Colonial era apenas a parte sul da capitania de Pernambuco. A comarca de Alagoas surge em 1774. O espaço alagoano passa 199 anos sem divisão administrativa, um espaço geográfico dominado pela abundância das águas, e daí o nome alagoas, pelas muitas que existiam de norte a sul.  Só no século XVIII, depois da destruição do Quilombo dos Palmares e da ocupação flamenga de Porto Calvo, Alagoas aparece como um espaço de ocupação político-administrativa, ainda que precário. Passa a ser a comarca das Alagoas, uma divisão administrativa da capitania de Pernambuco.

Os historiadores alagoanos mais antigos costumam preencher esse vazio colonial tentando localizar o descobrimento do Brasil por Cabral no litoral alagoano, desconhecendo que Diogo de Leppe descobriu o cabo de Santo Agostinho antes de Cabral descobrir o Brasil no litoral da Bahia, e navegou pelo mar do norte de Alagoas, onde deu o bordo de retorno à Europa, alguns meses antes de Cabral, mas que estabelecem uma precedência. 

O senhor escreveu em “Primeiros Passos da Formação de Alagoas” sobre a formação de dois pólos primitivos de Alagoas: Penedo, em 1575, e Porto Calvo, dez anos depois. Hoje, há diferenças econômicas e culturais evidentes entre estas duas cidades, em duas bandas diferentes, incluindo o tratamento histórico. Até onde é possível dizer que a forma de exploração dos lados sul e norte alagoanos influencia nos dias de hoje? 

Diferenciam. A formação de Penedo, com a formação de Maceió tardiamente, assim como a formação de Porto Calvo, foram coisas historicamente diferentes. São dois os pólos primitivos de colonização do território hoje alagoano: Penedo e Porto Calvo.   O de Penedo, fundado em 1575, mais antigo e com uma orientação diferencial, pois dele surgiram a ocupação do sertão alagoano e a criação da civilização do couro [para usar a expressão célebre do historiador cearense João Capistrano de Abreu no seu livro Capítulos da História Colonial (1500-1800), um estudo clássico da nossa historiografia colonial].

Porto Calvo, dez anos depois, inicia a formação dos engenhos de açúcar na zona das matas úmidas e justa-marítimas, baseada no trabalho dos negros escravos, trazidos cativos de África.  Penedo, fundada como uma fortaleza de onde nasceu a cidade histórica, expandiu a colonização para o sertão, facilitada pelo rio São Francisco e pelos caminhos de gado e os trilhos de índios. Porto Calvo começou como fortaleza - que, no tempo dos holandeses, eram três, como mostra um quadro pintado por Frans Post - e ao pé da fortaleza surgiu a sociedade sob a forma de um casario e o engenho próximo do sesmeiro Christopher Linz, onde floresceram em terras cisunenses as plantações de cana e o complexo casa-grande, senzala, capela e engenho. De Penedo surgiu a conquista dos sertões alagoanos, e de Porto Calvo a sociedade tutelar dos donos de terras, de escravos e de fábricas de açúcar da futura Alagoas.

Quando o senhor percebeu que a Alagoas heroica comemorada nos desfiles cívicos não existiu?

Percebi quando estudei a história documental nos arquivos de Portugal. A parte menos conhecida da história de Alagoas é a colonial. Até parece que Alagoas não tinha história que justificasse seu nascimento num papel comum de despacho assinado por Dom João VI em 1817, criando a capitania de Alagoas e separando-a da capitania de Pernambuco.  

A fábula inventada pelo grande historiador pernambucano Pereira da Costa dá as Alagoas como uma criação áulica, durante o período do Reino Unido, como “uma gratidão” por tropas alagoanas, saídas de Porto de Pedras, terem ajudado na derrota da Revolução Pernambucana de 1817. No espaço alagoano, ocorreram duas guerras fundamentais para sua criação: a Guerra dos Bárbaros ou o Levante Tapuia, que foi uma guerra dos currais de bois contra a confederação de tribos Tapuia-Kariri de índios de corso e que com a derrota dos Tapuia-Kriri consolidou o devassamento do sertão, configurando o quadro de uma entidade política que iria surgir em 1817.  

A conquista do sertão, tendo como pólo Penedo, foi importante, com a criação de povoados sertanejos, para que se configurasse um quadro de conquista e ocupação de um território; assim como a guerra contra o Quilombo dos Palmares, dissipando o maior aglomerado de negros escravos fugidos que se conhece em nossa história, e aliviando o medo histórico que espantou a nossa aristocracia rural. O medo foi tanto, que Zumbi entrou na História do Brasil como herói nacional.

E entrou merecidamente, pela sua consciência da liberdade. Foram esses fatos que criaram uma autoconsciência social alagoana, em que ocultamos toda a nossa consciência nacional e nossas paixões, nossos sonhos e nossos desesperos. Alagoas já se prefigurava antes de 1817. Já era pensada como um sonho político, que o mais inteligente dos Braganças concretizou. Sabia o douto historiador pernambucano que uma simples gratidão política não cria um sonho político. São os fatos da vida social, o sangue derramado das paixões, os sonhos que duram séculos, a ida e a vinda dos homens, as suas vontades e amarguras, que fazem do sonho uma verdade.    


Quem é?

Dirceu Aciolly Lindoso, 82 anos, é diplomado pela Faculdade de Direito de Alagoas (1957) e, em Economia (1966). Professor conferencista do Instituto de Antropologia da Universidade Federal da Bahia; professor do curso de Metodologia Econômica e Ciências Sociais para Pós-Graduação da PUC-RJ e UFRJ, coordenador de Etnografia da Universidade Gama Filho (RJ) e conferencista em cursos de inverno da Faculdade de Letras da Universidade de Buenos Aires (Argentina).

Assessor do Ministro de Educação e Cultura, na área de Desenvolvimento do Patrimônio Cultural. Membro da Academia Alagoana de Letras (AAL), onde ocupa a cadeira 1.

Sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL). Na sua produção intelectual, transita entre a História, a Antropologia, costuradas pelas memórias de sua família. Principais obras:  

- O Nu e o Vestido (Fundamentos Etnográficos da Antropofagia de Oswald de Andrade), Rio de Janeiro, Editora Fontana, 1977 (ensaio) - Uma Cultura em Questão: a Alagoana, Maceió, EDUFAL, 1981 (ensaio)  

- Póvoa-Mundo, capa e ilustração de Poty e bico-de pena de Luís Jardim, Rio de Janeiro, José Olympio Ed., 1981,

- 2º lugar no prêmio José Lins do Rego, 1980, (romance) - A Diferença Selvagem, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1983, (ensaio)-  A Utopia Armada - Rebelião de Pobres nas Matas do Tombo Real, (1832-1850), Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983 (ensaio) -  Liberdade e Socialismo, Petrópolis, AMPM Ed., 1987 (ensaios) 

 -  O Cônego e a Catequese Indígena, Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional, 1993 -  O Andarilho e a Mãe de Santo (O Negro na Obra de Arthur Ramos), Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional, 1992 - Na Aldeia de Iati-lha

- Etnografia dos Índios Tapuias no Nordeste, Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional, 1992  -

A Serpente e a Máscara (Sobre a Etnologia Estética de C. Levi-Strauss), Rio de Janeiro, Editora Fontana, 1977   - Formação de Alagoas Boreal, Maceió, Ed. Catavento, 2000 - Negros Papa Méis e Negros Escravos na Guerra dos Cabanos, Petrópolis, Ed. Vozes, 1988 (ensaio) Contato: [email protected]        

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