Acompanhe nas redes sociais:

17 de Novembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 815 / 2015

08/04/2015 - 20:23:00

Élcio Verçosa: “Alagoas é uma terra de vencidos e humilhados”

Odilon Rios Repórter

O quadro é trágico e a solução vem de um ambiente escolar público, estimulante e currículos escolares modernos. A defesa é do professor Élcio de Gusmão Verçosa, o terceiro personagem da série “Alagoas, 200” publicada pelo EXTRA todas as semanas, em comemoração ao bicentenário alagoano.Veja entrevista:


Educar era o grande objetivo/meta dos gestores logo após a emancipação alagoana? 


Numa leitura menos atenta das mensagens dos mandatários máximos do Executivo alagoano, tem-se frequentemente a tentação de pensar que, desde suas origens, aqui a educação escolar, ao menos após a Emancipação de Alagoas da Capitania de Pernambuco, foi sempre uma prioridade. Se a leitura dos discursos oficiais for feita, então, sem contemplar uma série histórica, somos levados a concluir que a prioridade dada à escolarização era absoluta, até porque em muitos exercícios fiscais se gastava mais de 20 a 25% dos impostos estaduais ou se lançava mão de reformas como se aí residisse a chave do sucesso. Olhando-se, porém, o que cada presidente/governador diz oficialmente de seu antecessor, ou até mesmo de seu próprio mandato anterior, quando, na República Velha, temos repetição de mandatos, vemos que há governadores que falam mal até da própria política que executaram... As minhas pesquisas e de orientandas minhas mostraram ad nauseam que a escolarização do povo alagoano em todo o século XIX e nas quatro primeiras décadas do século XX foi, predominantemente, de natureza privada. Prédios escolares feitos especialmente para tal fim são praticamente realizações dos anos de 1930 para frente. Antes, o que existiu foi para confirmar a regra. Um texto célebre de Graciliano Ramos no início dos anos de 1930, por exemplo, quando ele foi diretor da Instrução Pública, mostra a indigência da chamada Escola Primária das nossas crianças naquele tempo... Tirando-se o Liceu Alagoano, o Instituto de Educação e uma tentativa em Penedo, que depois feneceu, a educação escolar pública do Império e da República dos Coronéis era uma atividade exercida em casas particulares, com professores, na sua maioria, carentes de saber e de condições pessoais e materiais para superar o isolamento e a penúria em que as elites mergulhavam o povo – este até uma certa altura de nossa história composto por escravos, seus descendentes lançados à penúria pelas políticas “abolicionistas” ou trabalhadores rurais ligados às casas grandes como se fossem servos da gleba de um mundo quase medieval, deixado para trás pela maioria dos povos europeus há pelo menos três séculos... A Igreja Católica, do alto de seu conservadorismo, mesmo depois da Proclamação da República, quando foi separada do Estado, era a grande mentora de um saber retrógrado, por meio dos vigários que frequentemente eram feitos inspetores escolares e, assim, governavam o currículo e a conduta das professoras... Uma chamada “moral ilibada” valia mais naqueles tempos do que mil diplomas e aprender a rezar era mais importante do que qualquer lição de ciências ou matemática...


Professores é quem gerenciam, nas secretarias de educação, programas que deveriam melhorar os índices negativos da educação em Alagoas. Por que os resultados deste modelo são inexpressivos ou não retiram o Estado dos piores lugares no país?


Infelizmente, vou ter que revelar o que em Alagoas é um segredo de polichinelo: aqui quem de fato governa a educação escolar raramente é professor/a. Observe os cargos comissionados das prefeituras, examine, numa série histórica, os currículos dos secretários – inclusive do Estado -, que dá para perceber que os verdadeiros mandatários, na grande maioria das vezes, costumam ser tudo, menos educadores. E quando o são, estão quase sempre submetidos a chefes de executivos que chegam ao cúmulo de sequestrar até os recursos do PDDE que, como diz a sigla, significa Programa Dinheiro Direto na Escola. Numa terra em que, dentre os entes federados que recebem acompanhamento externo do uso do recurso público federal, poucos escapam incólumes de reprovação, como acreditar que apenas bons planos – que é o que fazem educadores competentes – podem resultar em uma escola de qualidade? Se não é incomum se ver subtraídos recursos da alimentação de quem vive em segurança alimentar, o que dizer dos recursos próprios, cuja auditagem nem sempre é feita visando aos interesses públicos?  Você sabe quanto dinheiro federal destinado à realização de bons projetos para a educação é devolvido todo ano por falta de que o Estado ou os municípios coloque o pouquinho que lhes cabe para que as políticas aconteçam? Ah, se a educação fosse mister afeto apenas a educadores responsáveis e competentes como tantos/as que se encontram em nossas redes públicas... A história seria bem diferente!


Há relação entre violência e índices educacionais ruins?


A correlação é total. Maceió detém hoje mais da metade do PIB alagoano. Juntamente com Arapiraca vai para quase dois terços, ficando, apenas, cerca 35% para dividir entre os 100 municípios restantes. Isso expressa uma situação diametralmente oposta à de São Paulo, por exemplo. Num quadro tão perverso de concentração de renda, mesmo que qualquer gestor público municipal que não fosse dessas cidades, quisesse desenvolver uma política própria que tivesse a escola como um dos instrumentos de combate à violência, que aqui está concentrada sobre os jovens pobres, negros e subescolarizados, dificilmente conseguiria de forma autônoma. Nem mesmo Maceió e Arapiraca seriam capazes, muito embora, Arapiraca tenha já mostrado que algumas coisas novas e produtivas podem ser feitas no campo educacional. Em última instância, dá para se perceber que, se a maior dificuldade para se ter uma educação para a paz é a carência de recursos financeiros, a presença abundante destes sem uma postura republicana dos gestores, no sentido de privilegiar os interesses públicos sobre seus próprios interesses, pode piorar a situação, já que a corrupção é fator preponderante para a deslegitimação dos governantes, a par do consumo conspícuo de uma ínfima parcela da população que coloca os poucos mais ricos frente à esmagadora maioria dos excluídos até do saber, que é herança de todos. O povo não é bobo e vem percebendo cada vez com maior clareza os meandros deste jogo em que se impõe cada vez mais o “salve-se quem puder”, o que dá origem a uma parcela social emergente que sonha em ficar no andar de cima, nem que, para isso, tenha até que ter nostalgia de uma ditadura que nunca viveu. Com isso, quero dizer o que nossos grandes pedagogos sempre afirmaram: se sem educação é impossível ir-se a qualquer canto ou se ter uma sociedade menos injusta, somente com educação escolar não se tem a panaceia universal para todos os males, inclusive a violência que hoje nos sufoca.


Alagoas virou uma terra de vencidos?


Sim, Alagoas é uma terra em que a esmagadora maioria de seus viventes são vencidos e humilhados pelo que Gilberto Freyre chamava de “a Casa Grande”. Infelizmente, isso não aflorou ainda à consciência de muitos, mas seus efeitos fazem-se presentes e são arrasadores na violência, por exemplo. Na educação, temos o saldo do que Graciliano Ramos chamava uma escola “pobre e melancólica”, com santos pendurados na paredes e rituais de submissão contra os quais as nossas crianças e os nossos jovens se rebelam cada vez mais.  E ali estão os/as professores/as, que recebem o ônus de serem os responsáveis pelo fracasso escolar, até pela falta de educação chamada de doméstica dos que lhes são confiados, ganhando migalhas e carecendo, em muitos casos, de uma consciência para si. Uma vez vencido, em bom número submetidos à síndrome de “Burnout”, que é a doença profissional que destroça o entusiasmo de tantos educadores.Como ter elã para formar vencedores? Como esperar que vencidos formem vencedores? Que humilhados formem seres altivos e sujeitos de direitos?

Quem é ou o que é o povo alagoano?


É a grande maioria dos viventes dessa terra, os quais lutam como podem para sobreviver às circunstâncias que lhes são impostas. Para isso, infelizmente, tem, as mais das vezes que se fazer de tolo, concedendo para sobreviver, abrindo mão de sua altivez por não confiar nas autoridades, mas, cheio de força vital e de criatividade como condição de construir sua vida e a dos seus. 

Quem é?


Élcio de Gusmão Verçosa, 70 anos, é diplomado em Letras pela Universidade Federal de Alagoas; Mestre em Política e Planejamento Educacional pela Universidade Federal de Pernambuco; Doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP).É professor aposentado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), professor-visitante da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) e coordenador acadêmico e professor da Seune.Na sua produção intelectual, mostra a Alagoas das salas de aula dos alunos, professores e seus (muitos) opositores


Principais Livros: 
- Cultura e Educação nas Alagoas: História, Histórias (Maceió, EDUFAL, 1996);- História do Ensino Superior em Alagoas: Verso  & Reverso,(Maceió, EDUFAL, 1997);- Existe uma Cultura Alagoana? (Maceió, Catavento, 2002); - A Propósito de Textos Didáticos na Prática Escolar: Um Estudo Sociopolítico da Ação Docente, (Maceió, Ed. Catavento, 1999);- Caminhos da Educação em Alagoas: Da Colônia aos Dias Atuais,(Maceió, Edições Catavento, 2001).
Contato: [email protected] 


Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia