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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 815 / 2015

08/04/2015 - 20:06:00

O milagre das ruas

Maurício Moreira

Há exatos 12 anos, em plena campanha para prefeitos e vereadores no ano de 2002, escrevi este artigo, cujo titulo é O Milagre das Ruas. Foi publicado pela primeira vez na gazeta de Alagoas. E ao longo das campanhas eleitorais o republiquei diversas vezes no Semanário Extra. E para minha grata surpresa, há alguns mêses foi publicado na Gazeta de Alagoas um artigo, que por coincidência, teve o mesmo titulo. Estou mais uma vez republicando este artigo, pois o mesmo continua, mais do que nunca atual. Nesses últimos 12 anos, diversas operações do Ministério Público Federal e da Justiça Federal em conjunto com a Policia Federal, com diversas prisões por corrupção, desvio do sagrado dinheiro público e também por compras de votos.

É necessário que a sociedade, como um todo, permaneça mais do que nunca vigilante.“Ouçam as vozes das ruas”, bradou certa feita Danton, o maior tribuno da Revolução Francesa, dirigindo-se aos representantes da nobreza que formavam a Maioria nos Estados Gerais, o Parlamento pré-revolucionário, que teimavam em desconhecer os ruídos que ecoavam das vielas e das praças de Paris, na derradeira tentativa de manter seus privilégios abusivos, erro que em breve lhes custaria o poder e, em seguida, as cabeças.Invariavelmente, os que estão sentados no alto têm dificuldade em ouvir o que ocorre abaixo. Desde sempre o poder tem entorpecido os sentidos e produzido miragens inebriantes.

Dessa maldição ninguém escapou até hoje, salvo raríssimas exceções que só fazem confirmar a regra. Nem mesmo a democracia está protegida desse mal, pois é sabido que apesar desse regime de governo ser o melhor antídoto contra a degradação que o poder absoluto enseja, mesmo o poder filho da democracia não está imune (muito pelo contrário), à devastação de valores provocada pelo estiolamento moral que o poder, qualquer um deles, gera.

Qual será o mal do nosso tempo? O que perdemos e o que precisa ser recuperado no Brasil e em nossa Alagoas?  Será que teremos a capacidade de perceber esses sinais ou nos deixaremos engolfar por nossa própria insensibilidade? O fato dos tempos serem outros nos sugere que não se repetirão mais as cenas dantescas que se seguiram à profética advertência de Danton, mas é possível que cabeças venham a rolar no panteão da moralidade pública, daqueles que deveriam praticá-la e se sonegam a esse dever. Dessa feita não arrancadas pela lâmina da guilhotina, mas por iniciativas de regulação social decorrentes de ações, cujos sinais já ecoam aqui e ali.

À memória me vêm ecos das décadas  de 70 e 80, quando o antigo MDB congregava o ideário libertário do Brasil das ruas, reunindo homens e mulheres, uns jovens, outros maduros, na busca do País dos sonhos, da ética na política e da justiça social; ainda ressoam em meus ouvidos os passos daqueles caminhantes da restauração cívica e cidadã, os pequenos grupos convertidos depois em multidões, que tomaram ruas e praças para advertir o regime de que o povo abjurava a tutela autoritária e exigia o direito de regular a sua própria vida política.

Onde andarão homens como José  Verner, o advogado da única causa que realmente importava naqueles tempos: a da solidariedade desinteressada e magnânima com os perseguidos militantes dos ideais democráticos? Onde estará Dilton Simões, o administrador competente e ético que legou a seus sucessores a Prefeitura de Maceió com os cofres abarrotados.

Onde estará o espírito de Napoleão Moreira, meu pai, homem que nascido em meio à riqueza, se dedicou aos ideais políticos da igualdade e da justiça social.Hoje, assistimos  a líderes que trocam aliados históricos de conduta ilibada por esquemas de votos num lamaçal sem fim. Nessa ciranda só há lugar garantido para os mercadores de votos e os testas-de-ferro, serviçais sorridentes que se alimentam das sobras dos banquetes.

Será que perdemos a  capacidade de ouvir os ruídos nas ruas ou estarão nossos sentidos entorpecidos pela algaravia dos mercadores de votos? Ou o brilho sonante do poder confere razão ao poeta e “ainda somos como nossos pais”? Fazemos igual ao que fizeram aqueles ídolos de pés-de-barro a quem tanto condenávamos, ou pior do que eles, por sermos mais “modernos”, pragmáticos e termos pressa em “recuperar o tempo perdido”.Através da história, as ruas têm feito  milagres.

E as ruas aqui têm o sentido de uma grande metáfora. O ruído das ruas pode estar no discurso do desembargador Sapucaia, embora dele se possa dizer que contém algumas injustiças pelo pecado de generalizar. Sabemos que há homens íntegros no Judiciário. A experiência me fez acreditar na auto-regulação social: a sociedade que de tempos em tempos faz a sua purgação, lançando fora seus próprios excessos. É o milagre das ruas.

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