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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 813 / 2015

08/04/2015 - 08:18:00

“Nossa escola passa o pior sobre nós mesmos”

Luiz Sávio de Almeida inicia série do EXTRA em comemoração ao bicentenário do estado

Odilon Rios Especial para o EXTRA

A partir de hoje, o EXTRA lança a série “Alagoas, 200”, iniciando a comemoração dos 200 anos de Alagoas, em 2017.Serão reflexões com nomes importantes nas artes, ciências, cultura, história, sociologia. A aposta é na diversidade de opiniões, levando ao leitor diversos pontos de vista sobre assuntos do passado, presente e do futuro.Neste primeiro número, o entrevistado é o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luiz Sávio de Almeida, 73 anos, com pesquisas voltadas às etnias indígenas, ao Nordeste e com estudos recentes sobre a violência alagoana. Historiador e graduado em Ciências Jurídicas e Sociais, mestre em Educação, é autor de 29 livros com expressão fortemente alagoana.


Segundo o IBGE, 40 mil crianças em Alagoas passam fome enquanto o Ministério Público revela uma folha de marajás com salários três vezes maiores que um do ministro do STF na Assembleia Legislativa. Nós chegamos ao fim da nossa história?


A indústria da miséria em Alagoas nos leva a uma circunstância bem mais drástica. Por outro lado, é de esperar que haja em Alagoas algo muito mais tenebroso do que o encontrado na Assembleia Legislativa pelo Ministério Público que, sendo somente isto, deve ser muito pouco. Sua pergunta toca no mínimo dos mínimos. É preciso, contudo, entender que este termo Assembleia Legislativa não pode ser tomado como equivalente ao Poder Legislativo.

Ele é intocável enquanto se pense em democracia. Esta Assembleia é oriunda do poder local. Então, na verdade, ou se acaba com o poder local ou este quadro será sempre, mudando o que deve ser mudado, repetido. A primeira eleição que houve – deve ter sido em 1832 – para a Assembleia Provincial foi anulada por evidência de fraude, trabalhada, sobretudo, pelo círculo eleitoral de Atalaia. A insuficiência de honestidade e cuidado com a coisa pública em uma instituição, obrigatoriamente não anula a sua importância.

A Assembleia Legislativa é fundamental: os deputados, não. Jamais o descalabro estaria significando o fim da história. Pelo contrário: isto acende o letreiro da cidadania. Fosse o fim da história, seria a rendição do povo. Eu ainda julgo que venceremos. É isto o que pede a justiça e a nação brasileira. Os deputados deveriam em reunião aberta para o público contratarem uma auditoria de nível internacional, cada um lembrando que segundo o povo, em terra de sapo, hipoteticamente, fica-se de “coca” com eles. Será o melhor dinheiro gasto por eles.


O senhor virou especialista em falar dos despossuí-dos como índios e negros. Em algum momento nos seus estudos o senhor teve a sensação que os gestores alagoanos agiam de maneira correta com eles?


Eu me interesso por todos aqueles que são humilhados e ofendidos, por todos aqueles que têm sede e fome de justiça. Por todos os que são perseguidos por suas opções sexuais, religiosas, por gênero... Os sem terra, sem comida, sem alhos e sem bugalhos. Nunca tive esta sensação. Mesmo que estivesse sendo pensada política pública, aquele, o que estava dentro dela, seria o negro construído pelo estado. Não seria o negão meu irmão, aquele que dentro da sociedade civil, por exemplo, marca a periferia de Maceió.

Aliás, eu nunca ouvi a palavra índio e negro dentro da Secretaria de Planejamento, salvo quando o Banco Mundial sugeriu que eles existiam e que se poderia ter dinheiro para eles. Eu não sou índio, não sou negro e nem tenho procuração para falar por eles. Mas nós construímos um espaço que é nosso e onde todos nós, somos iguais: o espaço político dos movimentos. Neste espaço todos somos todos.


Quando o senhor percebeu que a Alagoas heroica comemorada nos desfiles cívicos não existiu?

Eu sempre admirei a capacidade que o poder tem de colocar nosso povo para marchar. Alagoas é um marche-marche como diria algum Capitão da Guarda Nacional. Acho que será difícil encontrar outra gente que marche tanto. Alagoas é um estado Tum-dum-tum-dum; sempre haverá quem esteja marchando, especialmente por conta das chamadas emancipações, uma das formas que o poder local escolheu para solenizar-se, celebrar-se.

Marchar em Alagoas é uma espécie de aleluia cívica. Eu não sou contra a que se marche. Existe gosto para tudo; eu sou contra à razão inventada para marchar. A gente percebe quando questiona e não me lembro, mas acho que foi da mesma época em que comecei a escrever sobre nossa história, economia e política. Logo dá para perceber que o vazio da justiça social é preenchido pelas solenizações vaporosas das datas ditas cívicas.

Engraçado, o menino marcha de se esbaldar e depois volta para a cama de espinhos, a barriga vazia, o pensamento vario. Não seria melhor que ao invés da marcha, fosse demonstrado o fino trato com o dinheiro público? Então, vamos instituir o Dia do Juízo Emancipacional: todo a autoridade presta conta sob auditoria do que fez com o dinheiro público. O honesto seria louvado; o desonesto seria enquadrado. Acho que a Polícia Federal deveria começar a Operação Marche-Marche. Pode. Como seria de esperar, não resultar em muita coisa, mas sem dúvida encheria o saco.


A história diz que Alagoas começou a partir de uma traição, em 1817. De certa forma, a gente carrega a ideia de que seria melhor não termos expulsado os holandeses ou que o nosso território virasse um golfo, como sugeriu Graciliano Ramos.

Alagoas seria melhor sendo pernambucana, gerida pelos holandeses ou um golfo?
Eu nunca pensei ser melhor que holandês tivesse permanecido. E nem sei se é verdade mesmo, que Graciliano tenha dito isto ou se desejava que o Graciliano o fizesse. Com a primeira possibilidade seria algo inútil, já foi uma situação definida no século XVII. Então, seria um não-ter-o-que-fazer. Jamais eu pensaria que Alagoas deveria se tornar um golfo. Alagoas é o que é. Aliás, escrevi um texto perguntando o que seria Alagoas e respondi: não existe Alagoas, existem Alagoas. São diversas dentro de um espaço. Nós temos que entrar nesta nebulosa e ir dialogando com ela, vendo o que ela responde e sentindo o que ela sugere.


O quê os alagoanos precisariam saber melhor sobre a sua própria história?


Precisa saber inicialmente que tem história. O que vejo sendo ensinado por aí, barbaridade. A escola repassa o pior pensamento sobre nós mesmos, controlando as informações que fazem parte da armação ideológica. Segundo, entender que a história não passa pelo heroísmo que se fabrica, mas pelo cotidiano. Investir na formação dos professores é fundamental e recompor a ordem curricular; deveria haver uma reciclagem completa, o estímulo à pesquisa. Hoje em dia, temos apenas alguns cursos de história e centrados na órbita do poder público. Pelo que sei, por não haver rentabilidade, uma instituição vai fechando o curso que patrocinava.

Falta aluno por conta, possivelmente, da péssima remuneração no mercado de trabalho. Refazer o ensino da história em Alagoas é uma obrigação do poder público e de toda instituição que recebe favores públicos. No entanto, parece-me que seria um movimento que deveria partir da categoria, do sindicato entender que deve reagir contra o status quo. Neste sentido, deve fechar em cima do estado, para que recicle e atualize. O estado tem de investir, sabendo, por outro lado, que o campo da história não se esgota na história, mas naquilo que a circunda e embasa, a ordem das ciências sociais.


Quem ganhou nos 200 anos de Alagoas? A sabedoria, a violência ou a história oficial?


Por incrível que pareça, o povo. Nós vamos caminhar. Apesar da persistência do agrarismo, nós temos inúmeros fatores de progresso em andamento. A violência jamais ganharia, apesar de ir vencendo. A história oficial vai dando lugar a uma nova situação em Alagoas, onde vai havendo maior espaço de liberdade das amarras do poder local. A sabedoria coletiva e política é uma lenta construção histórica.

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