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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 809 / 2015

23/02/2015 - 07:15:00

Mais de 150 jovens tentam suicídio em 2014

Falar de suicídio é um tabu que precisa ser discutido pela sociedade, diz psicóloga

José Martins Especial para o EXTRA

De repente, as brincadeiras e as gargalhadas dão lugar à tristeza e introspecção. A mudança de comportamento, às vezes, nem é levada a sério pelos pais. Crianças e adolescentes tendem, durante o amadurecimento, a se isolarem. Porém, esse pensamento não passa de senso comum. A depressão na juventude deve ser encarada como um problema que pode acabar na ala de hospitais.Um levantamento do Hospital Geral do Estado (HGE) revela que a unidade atendeu, no ano passado, 19 casos de tentativa de suicídio de jovens até 14 anos. Se somado à faixa etária dos 15 aos 24, o número aumenta para 158 atendimentos.

 

Entretanto, o índice pode ser bem maior. É o que alerta a psicóloga do Centro de Amor à Vida (Cavida), Wilzacler Rosa e Silva.“Muitas vezes, a ingestão de comprimidos ou de outras substâncias tóxicas, como água sanitária, é vista como descuido dos pais e não como uma tentativa de suicídio”, explica.

 

De 2010 a 2014, os números de tentativas oscilam, mas se mantêm na mesma proporção. Nesses quatro anos foram 109 casos de jovens até 14 anos que tentaram tirar a própria vida.

 

Em proporção nacional, de 2002 a 2012, houve um crescimento de 40% da taxa de suicídio entre crianças e pré-adolescentes com idade entre 10 e 14 anos. Na faixa etária de 15 a 19 anos, o aumento foi de 33,5%. Os dados são do Mapa da Violência 2014, do Ministério da Saúde. No Nordeste, o crescimento foi significativo: 51,7%, destacando-se Bahia e Paraíba, por mais que duplicarem seu número de suicidas.

 

Alagoas registrou um acréscimo de 28,9%.O relatório do HGE mostra também que as mulheres são mais propícias ao suicídio. Foram 249 mulheres contra 130 homens no ano passado. Mas há uma diferença destacada pela psicóloga. “As mulheres tentam mais e conseguem menos. Com os homens é o contrário. Eles tentam menos, mas conseguem mais cometer o suicídio”. O nível econômico dos atendidos tende ser das classes C e B.

 


TABU E FILMES

 

O suicídio ainda é um assunto de pouca repercussão no Brasil. Segundo o Mapa da Violência, isso ocorre porque o país não tem tradição ou cultura suicida, como a da maior parte dos países europeus e diversos asiáticos, além do tabu existente na mídia de divulgar questões relativas ao tema, pelo temor de ondas de suicídios por indução ou imitação.Para Wilzacler, o suicídio, sim, precisa ser discutido. “Quando alguém tenta se matar, o HGE encaminha até a gente. Lá, a pessoa tem o apoio de psicólogos que ouvem os problemas. Alguns voltam a nos procurar, outros não.

 

Às vezes, percebem que a tentativa só foi algo de momento”.Filmes que contam a história de pessoas que superaram a vontade de morrer não faltam. Um deles é “Garota, Interrompida”, de 1999. O drama narra a história real da escritora norte-americana Susanna Kayson que cortou os pulsos e ingeriu remédios com vodca. Ela, por orientação médica, ficou internada em um hospício para se tratar.Lá, fez amizade com uma paciente que acabaria se enforcando. “Quando não se quer sentir, a morte pode parecer um sonho, mas ver a morte, vê-la de verdade, torna sonhar com ela algo ridículo”, conclui a protagonista.

 

Outro exemplo é filme Veronika Decide Morrer (2009), baseado no escritor brasileiro Paulo Coelho. Veronika após ingerir remédios com bebidas desmaia e acorda em uma clínica psiquiátrica. Ela sobreviveu, mas descobre que tem só mais alguns dias de vida. Seu coração foi danificado e precisa viver intensamente o pouco tempo que resta.Ambos os exemplos têm algo em comum: a ingestão de remédios. “É a forma mais comum de tentativa, seguida do envenenamento e enforcamento”, cita a psicóloga. Ano passado foram 190 casos de overdose de comprimidos. 

 


EXEMPLO DE SUPERAÇÃO

 

Problemas de relacionamento, conflitos familiares, dívidas e bullying. “Os motivos para alguém entrar em depressão e/ou desespero são os mais variados, mas nenhum que justifique atentar contra a vida”, comenta o jovem M.F.A que tentou o suicídio aos 24 anos de idade. Hoje, aos 27, analisa que a atitude foi uma forma precipitada de se livrar de conflitos superáveis. “Eu estava sozinho e passando por situações difíceis envolvendo família e relacionamentos. Decidi que queria me matar”.Foi quando ele começou a procurar uma forma que fosse rápida e indolor.

 

“Entrei na internet e, por incrível que pareça, existem pessoas que ensinam. Juntei uns remédios e comecei a escrever uma carta falando o que sentia para minha família e meu último namorado”, conta.Um amigo desconfiou e evitou a tragédia. “A religião acabou me ajudando. Sou católico e algumas músicas e trechos bíblicos me fizeram entender que eu deveria ser feliz”.

 

Três anos passados, hoje ele vê que a vida traz coisas ruins e boas. “Apesar das dificuldades, apareceram ofertas de emprego, novas pessoas entraram na minha vida e encontrei uma força dentro de mim que pensei que não tinha. O segredo é saber equilibrar”.O Cavida não atende pessoas só encaminhadas pelo HGE. É comum pessoas que passam pelo local acabarem anotando o telefone para entrar em contato posteriormente. Para mais informações, acesse: http://projetocavida.blogspot.com.br/.

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