Acompanhe nas redes sociais:

19 de Novembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 808 / 2015

11/02/2015 - 19:55:00

Mudança de nome transforma vida de transexual

Eryka Fayson, que nasceu menino, considera decisão judicial um banho de cidadania e de direitos humanos

Maria Salésia [email protected]

Ela nasceu menino, embora em corpo de menina e registrado como Erivaldo Marinho de Oliveira. Agora, de fato e de direito, é Eryka Fayson Marinho de Oliveira Nascimento e ninguém lhe tira esse nome. O banho de cidadania e de direitos humanos, como não cansa de repetir, se deu após decisão da juíza de direito da 8ª Vara Civil da Capital, Maria Valéria Lins Calheiros - que julgou favorável uma ação judicial de retificação do nome no registro civil e demais documentos de identificação da transexual alagoana.

Em Alagoas, Eryka foi primeira em tudo: a primeira transmulher do Estado a conseguir na justiça a mudança de nome e a fazer cirurgia reparadora de sexo. Além do que, abriu caminho para que outras consigam o mesmo direito que ela. “A decisão foi muito importante pra minha vida, pra minha autoestima e em todos os sentidos.

Quando a doutora Maria Valéria julgou  a sentença, ela estava assinando na verdade a minha felicidade, fazendo com que eu me tornasse uma pessoa mais segura, mais íntegra, acabando assim com todos os constrangimentos devido ao nome anterior que eu tinha em registro”, agradeceu ao acrescentar que a atuação da advogada Irailda Almeida foi fundamental, juntamente com os magistrados que se empenharam nessa decisão, “dando um banho de cidadania e de diretos humanos”.

Nascida em Maceió, Eryka é só felicidade. Mas relata que teve várias decepções e passou por inúmeras situações de constrangimento. Mas a pior, afirma, foi quando estava em uma fila de um departamento de trabalho para cadastramento, somente para mulheres e quando chegou a sua vez, foi interrompida no atendimento devido ao ex-nome masculino.

Os responsáveis alegaram que o problema era a sua identificação.Apesar dos Mesmo enfrentando constrangimentos, Eryka sempre teve apoio da família,principalmente da mãe e das quatro irmãs. Com o pai, houve conflitos, mas nada comparado com o que passou diante da sociedade.Mãe de coração de dois filhos, uma já atingiu a maior idade, e outro ainda criança, ela diz que o fato de não os ter gerado não muda em nada a sua relação de mãe.

Ela comemora que, neste caso, não sofreu qualquer tipo de preconceito, nem nas ruas e nem nas escolas. “Sempre fui chamada para as festinhas dos dias das mães, entre outras.Só espero que eles se orgulhem de mim no futuro”, se gaba a mãezona ao afirmar que espera que seu caso sirva de exemplo para os casos de adoção .

Desde criança, seu grande sonho era entrar para a Marinha do Brasil. Tanto que conseguiu o feito por duas vezes: como marujo e através de concurso para o Corpo de Fuzileiros Navais. Porém, o sonho durou pouco e foi interrompido devido conflitos em relação à identidade sexual, além de motivos de saúde que a abalaram muito, depois da aposentadoria compulsória. Mas garante que o caso lhe deixou muita experiência e aprendizado de como lidar com as autoridades.


SEM MEDO DE MUDAR

Eryka já passou por várias mudanças. Seguiu um tratamento hormonal com endocrinologista, fez nariz, um pouco na face, implantação de prótese mamaria, e readequação de sexo. “Nunca me considerei um menino. Desde criança gostava de brincar de boneca, e sempre com tendências diferentes dos outros meninos”, conta.Desde criança ela se considera uma pessoa bem resolvida e determinada. Com 10 anos fez curso de datilografia - mesmo a professora achando que eramuito criança pra querer aprender - concluiu as aulas. Depois, a vida a ensinou a ser assim.

Ressaltando que “tudo com muita dignidade, sabendo entrar e sair de qualquer lugar.”Atualmente, Eryka trabalho no Ministério Público de Alagoas como secretária do promotor de Justiça Flávio Gomes da Costa Neto. “Sou eternamente grata pela oportunidade que ele me deu, me fazendo sentir humana e digna de trabalhar ao seu lado, com um gesto de humanidade e cidadania, e seguindo o exemplo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que tem uma assessora transexual”, comemora.Ela diz que quem passa pelo mesmo problema que ela deve acreditar e lutar pelos seus ideais e confiar na sorte, “pois tudo que conseguimos é com esforço e dedicação”. E vai além: “Se nas suas caminhadas alguém te atirar uma pedra, não a devolva, faça dela uma escada e suba”, filosofou.


MOVIMENTO GAY 

Para o presidente do Grupo Gay de Alagoas – GGAL, Nildo Correia, a conquista de Eryka na justiça abriu caminho pra outras pessoas que vivem situação idêntica à dela. Segundo ele, 17 transexuais alagoanos vão entrar com ação em breve pedindo a mudança do nome em seus documentos oficiais e há vários outros pensando em agir da mesma forma.O GGAL também deve solicitar aos governos estadual e municipal o custeio do tratamento do processo transexualizador, para ser feito em outro estado, já que Alagoas não possui programa específico e voltado para esses casos, com base e orientação do Ministério da Saúde.

“Como não existe este programa do Ministério da Saúde em Alagoas, os beneficiados devem receber atendimento em Pernambuco ou na Paraíba.Para Correia, no caso da Eryka, dois fatores chamam a atenção e merecem ser comemorados. A primeira questão diz respeito à jurisprudência, abrindo espaço para outros buscarem o mesmo direito. E há o lado social, pois tal sentença muda completamente a vida do transexual. “A ciência não explica, mas a transexualidade mexe com o seu eu, muitos vivem no anonimato, evadem das escolas, deixam de buscar atendimento de saúde, emprego, devido ao constrangimento, em público, de ser mulher com nome de homem”,afirmou.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia