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17 de Julho de 2018

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Edição nº 807 / 2015

04/02/2015 - 19:12:00

Quarenta anos sem Jayme Miranda

família do alagoano ainda carece de respostas para o seu desaparecimento

José Martins Especial para o EXTRA

A cada situação, uma assinatura diferente: João, Juarez, Alcides, Cipriano. Tudo para manter a própria segurança. Mas em casa o nome era sempre o mesmo. Além dos limites do pequeno reinado da esposa Elza, o maceioense Jayme Miranda militava pelo fim da ditadura. Dentro do âmbito familiar, o advogado e também jornalista deixou lembranças por ser um pai dedicado que apreciava, nas horas vagas, músicas dos Caymmi e não dispensava uma partida de xadrez.

Era uma família que tinha costumes diferentes das demais. Constantes mudanças, que a fez trocar Maceió pela capital do Rio de Janeiro, segredos e a ansiedade de saber que o lar nem era tão seguro quanto às ruas. Isso até o dia 4 de fevereiro de 1975 quando o militante saiu para mais uma jornada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e não voltou. Após essa data, a esperança de encontra-lo com vida se perdia com o passar dos dias. A única certeza era que aquele chefe de família teria sido mais uma vítima do regime militar.

O segundo dos dez filhos do casal Manoel Simplício de Miranda e Hermé Amorim de Miranda, Jayme Miranda nasceu no ano de 1926. Cursou a faculdade de Direito na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), mas se afastou para tornar-se 3º Sargento de Engenharia aos 22 anos de idade. Em 1950, reabriu o jornal ‘A Voz do Povo’, um periódico voltado à classe operária que tinha o intuito de fazer críticas à sociedade alagoana.

Como defender direitos não era bem aceito naqueles tempos, as publicações fizeram com que Jayme Miranda fosse preso em março de 1951. Ao sair da prisão retornou à faculdade de Direito e se formou naquele mesmo ano. Porém, um estudo mais aprofundado das leis não garantiu que ficasse longe das grades. Anos depois foi detido em Recife, no estado de Pernambuco, e condenado a cumprir um ano de prisão. O crime: articulação de movimento subversivo humanista.

Segredo
Se a vida política sofria turbulências, ele se esforçava para que a particular fosse a mais calma possível. Junto à Elza Miranda constituiu uma família com quatro filhos: os alagoanos Olga e Yuri Patrice e os fluminenses Jayme e André, nomes inspirados em outros militantes. A primogênita, por exemplo, foi uma homenagem à comunista alemã Olga Benário Prestes. Já o nome “Patrice” vem do africano Patrice Lumumba, líder anti-colonial do Congo.

Jayme ganhou o nome do pai e André remetia à lembrança de um companheiro de luta durante os tempos do jornal “A Voz do Povo”.“Não era um pai rígido, esse papel ficava com a minha mãe porque ela tinha que tomar a frente de todos os assuntos. Vivíamos na clandestinidade e era complicado.

Nem sabíamos das atividades políticas do meu pai e a razão das nossas mudanças de casas. Achávamos que era por vivermos de aluguel”, lembra Yuri Patrice Miranda, 53, à reportagem do EXTRA Alagoas. Para evitar chamar a atenção de vizinhos, a educação dos filhos, principalmente dos adolescentes, precisava ser severa. Nada de aprontar confusões nas ruas ou de fazer grandes amizades.Yuri conta ainda os gostos de Jayme.

“Meu pai gostava de tomar duas cervejinhas à noite, tinha o hábito da leitura e amava esporte. Domingo era dia de irmos à praia para jogarmos futebol. Nos levava para assistir ensaios e desfiles de escola de samba”.A verdade sobre quem era Jayme Miranda só viria mesmo à tona após seu desaparecimento. Foi a partir de então que os filhos souberam pela mãe que o pai, um comunista considerado o terceiro homem na estrutura do PCB, estava sendo investigado por militares.Nas lembranças, além de saudades, estão fotos e fatos que são motivos de orgulho à família.

Do encontro com o também comunista Mao Tsé Tung, em Pequim, na China, às conversas com Fidel Castro e Che Guevara, planos para uma sociedade que o capitalismo resolveu sequer dar atenção. Até uma camisa ensanguentada resultado de uma briga com um segurança de fábrica virou peça da história do filho para a mãe de Jayme, Hermé Miranda.Uma vez desaparecido, a luta de Jayme Miranda estava cessada. Agora era a vez de a família encarar o militarismo em busca do corpo do comunista. “O governo não admitiu o desaparecimento dele de jeito nenhum.

O atestado de óbito do meu pai saiu via anistia, mas nunca tivemos uma resposta. Chegaram a mencionar que ele tinha saído do país”, explica Yuri, que na época tinha a expectativa de que o pai voltaria do exterior.Hoje, a família tenta se conformar com uma hipótese genérica de que o corpo do pai foi atirado no oceano Atlântico ou em um rio da cidade de Avaré, no interior de São Paulo. No estado, a Comissão da Verdade, que investiga os crimes da ditadura, escolheu o nome de Jayme Miranda como símbolo da busca pela justiça.


Poesia na tortura

“É horrível ser linchado. Não consigo ficar em pé. As pancadas me embolam e me estendem no chão da amada Recife. Escuto: é um ladrão! É um ladrão! Reúno as forças. Escudo-me com um linchador e clamo a plenos pulmões, denunciando os bandidos e proclamando a condição de patriota. Golpearam na cabeça.

Fico zonzo. Algemaram-me as mãos. Novos golpes. Uma leseira impede-me de senti-los”.Essas palavras narram um dos abusos sofridos por Jayme Miranda quando barrado por militares. Em um romance escrito por ele, o militante ainda estava indeciso: a obra se chamaria Numa Trincheira da Luta ou A Queda? Entre a dúvida, há outra, talvez naquele momento, mais física do que literária: “Quantas dores doem na gente?”, questionou em relato escrito.“Minha cabeça está refletindo o movimento de rotação da terra no sentido inverso. Tudo girando fora do eixo.

Estou correndo de cabeça para baixo. Porque me maltratam? Faz parte do pesadelo”, concluiu entre linhas.Jayme também tinha um lado poeta. Em poema nunca publicado, ele questionava o valor da autenticidade. “O que é ser autêntico? É ser coerente com o trabalho, com os ideais mais belos, com a missão, os compromissos e as responsabilidades assumidas pelo triunfo das belezas da vida!”, refletiu.


Cicatriz familiar

A morte de Jayme Miranda nunca foi superada pela família. Eles apenas seguiram em diante. Yuri e Olga conviveram com o pai ainda adolescentes. André e Jayme, à época duas crianças, têm poucas lembranças. Se estivesse vivo, ele teria presenciado o nascimento de onze netos, duas bisnetas e aguardaria o próximo descendente que está por vir.Thyago Miranda, 28, filho de Yuri, diz que o avô é presente em sua vida, seja por fotos ou pelas histórias contadas por familiares e velhos amigos. “Estudar sobre a ditadura na escola é bem diferente do que ter um caso de abuso militar na família.

A figura do meu avô é muito importante, uma inspiração”, diz. No notebook de Thyago não faltam recordações. São matérias de jornais, obras inéditas do avô e fotografias preto e branco salvas pela tecnologia.A viúva Elza Miranda, 77, lembra da dificuldade de criar sozinha duas crianças e dois adolescentes.

“O Jayme ficava muito fora de casa, mas quando vinha passar o fim de semana, passava o tempo com os filhos. Sem dúvida, o momento que mais me marcou foi o desaparecimento. Me vi numa cidade sem parentes e sem poder contar com ninguém. Ainda sinto falta dele, mas respeito sua escolha de vida”. Um dos planos do militante era esperar a filha Olga completar 15 anos para contar sobre a militância política.

Uma vontade que ficou pendente.“Ele queria que eu tomasse conhecimento do que fazia. Para a gente, meu pai era tradutor de língua estrangeira para jornais. Nem sabíamos que era uma peça importante para a luta humanitária no país. Tenho orgulho porque ele doou a vida por essa causa”, ressalta Olga Miranda, 54. Sobre os jovens que atualmente pedem a volta da ditadura militar, ela é enfática: “Isso é fruto de uma lavagem cerebral desde daquela época. Os livros de história de hoje são muito pobres em informações sobre o que realmente foi o militarismo no Brasil”, conclui.


Documentário

Para marcar os 40 anos do desaparecimento de Jayme Miranda, o documentário “Memórias de Sangue”, do jornalista e historiador João Marcos Carvalho, com direção de fotografia de André Feijó, será apresentado dia 4 de fevereiro, às 20h, no Cine Arte Pajuçara.No filme, o autor cobra do Estado Brasileiro informações sobre o paradeiro de Jayme e de outros 163 opositores da ditadura em todo o país e que ainda estão desaparecidos. A obra situa o militante Jayme Miranda no contexto histórico nacional dos últimos cem anos, contando sua trajetória desde o nascimento até a ascensão como um dos principais membros do chamado Partidão (PCB) no final da década de 60.

Com imagens raras de fatos que agitaram a vida política e social brasileira, somada a depoimentos de historiadores, amigos, familiares e ex-companheiros de Jayme Miranda, o documentário é, de acordo com o jornalista, uma ferramenta para tentar manter viva na memória nacional a saga de um homem que sacrificou uma vida pelas agruras da luta revolucionária.“Memória de Sangue” faz parte de uma série de homenagens que a família Miranda pretende realizar em memória de Jayme Miranda para lembrar os 40 anos do desaparecimento do líder comunista alagoano.

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