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25 de Setembro de 2018

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Edição nº 804 / 2015

13/01/2015 - 20:13:00

Alagoas registra 100 mortes por diarreia em apenas nove meses

Relatório confirma falhas na assistência médica a pacientes e falta de orientação à população sobre cuidados com a higiene

Vera Alves [email protected]

Descaso com os pacientes, falta de ações básicas como orientação à população sobre os cuidados com a higiene e falhas na distribuição do hipoclorito de sódio são as principais causas do elevado número de óbitos registrado em Alagoas por diarreia. Entre janeiro e setembro do ano passado, 100 pessoas morreram devido a uma doença evitável e de características medievais, conforme relatório da Superintendência de Vigilância à Saúde da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), que também deixa entrever as falhas de atendimento no Hospital Geral do Estado (HGE), onde ocorreram 31 das mortes.

Os dados de 2014, ainda parciais, apontam para o crescimento de número de óbitos por doenças diarreicas na ordem de 35,1% em relação a 2012 e queda de 114% quando comparados ao mesmo período de 2013, ano em que houve uma epidemia no estado motivada por problemas na qualidade da água consumida pela população.Do total de 4.378 internações por diarreia registradas entre janeiro e setembro de 2014, a maior parte – 1.629 – foi de crianças na faixa etária de 1 a 4 anos. Mas o número de mortes foi maior entre os idosos (acima de 60 anos), que somaram 64% dos óbitos, sendo que a maioria concentrada na faixa de 60 a 79 anos.

Em relação ao sexo, 54% das mortes foram de homens, o que confirma ser ainda incipiente os cuidados com a saúde entre a população masculina. A boa notícia é que não houve registro de mortes no período na faixa etária de 1 a 19 anos, embora o relatório destaque que os dados “não retratam a realidade em virtude de vários municípios apresentarem subnotificação no registro”.


ATENDIMENTO FALHO
As mortes por diarreia foram registradas em 38 municípios alagoanos, sendo que 31 dos mortos residiam em Maceió e 10 em Arapiraca. Palmeira dos Índios, Santana do Ipanema e São José da Tapera, tiveram 4 habitantes mortos por diarreia cada um. Na capital, onde também foram atendidos moradores de outros municípios, é que houve o maior número de óbitos –49 – sendo que 31 ocorreram no Hospital Geral do Estado, de acordo com o levantamento da Sesau. Os hospitais regionais de Arapiraca e Santana do Ipanema registraram 10 mortes cada um por diarreia.

Tais números evidenciam que, ao contrário do que as famílias dos mortos esperavam,a busca pelo atendimento médico não garantiu a sobrevivência do paciente. O relatório revela que, durante as investigações dos óbitos nas unidades hospitalares “observou-se que a maioria dos pacientes apresentou várias entradas.

As informações dos prontuários são pobres; não há registro de anamnese adequada para identificação do estado geral e provável comorbidade do paciente; não há solicitação de exames para diagnóstico laboratorial do agente causador da doença; a observação do estado do paciente até a sua liberação é falha, levando ao retorno com agravamento e estado de choque, e consequência de óbito”.

Traduzindo: quem está com diarreia e procura um hospital da rede pública não é submetido a qualquer exame de laboratório para saber a origem do mal; é medicado de forma quase aleatória, já que o diagnóstico é feito a olho nu, e liberado. Dias depois retorna com o quadro de saúde agravado e termina morrendo.

 Está também no relatório a crítica à falta de ações básicas de saúde, como “ações educativas de orientação à população do simples cuidado de higiene, assiduidade da distribuição de hipoclorito de sódio com as devidas orientações, a falta de acompanhamento das crianças com as consultas de puericultura, a implantação da Terapia Reidratante Oral (TRO) nas Unidades Básicas de Saúde. Essa carência da assistência contribui para a situação crítica, levando o paciente com diarreia a apresentar um agravamento no seu quadro clínico, sendo necessária a procura pela assistência hospitalar”.

O que se depreende das conclusões dos próprios técnicos que investigaram os óbitos é simples: se os governos gastassem menos com publicidade para se autopromoverem e investissem em campanhas de orientação à população sobre cuidados básicos com a saúde e higiene, Alagoas deixaria de registrar mortes por doenças que remontam à Idade Média. 

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