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25 de Setembro de 2018

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Edição nº 804 / 2015

13/01/2015 - 07:17:00

Sebastião Nery: uma amizade que começou na Rússia

Maurício Moreira

O titulo do artigo é muito profundo, pois nunca estive na Rússia, a não ser através da história, da literatura e dos filmes. Mas, de uma maneira muito forte, já estive na Rússia antes de nascer, através de meu pai. Há uma corrente não só de espiritualistas, mas também de cientistas respeitados que tem teorias que carregamos dentro de nós a memória dos genes predominantes que nos formam. No meu caso, com certeza, o gene predominante foi o paterno, não só fisicamente, mas no caráter, psicologicamente e espiritualmente.

Na primavera de 1957 meu saudoso e querido pai, jovem, idealista, filho de usineiro, mas simpatizante dos ideais socialistas, embarcou para Moscou, então capital da extinta União Soviética, para participar do Festival Comunista, onde conheceu o jornalista Sebastião Nery.Ao ser apresentado a Sebastião Nery, tive a sensação, de “déjà vu” expressão que vem do francês e pode ser traduzida literalmente como “já visto”. Depois, ao ler sua coluna, a sensação que senti estava explicada.

Nery comentou em uma de suas crônicas que esteve em Moscou em 1957 e conheceu um amigo do meu pai. E depois de ler a coluna, liguei para o Nery e perguntei se ele tinha conhecido Napoleão Moreira e ele respondeu rapidamente que tinha conhecido muito e até se lembrava da primeira vez que o viu, ressaltando o que anos depois escreveu na sua biografia “A Nuvem”. “Do Nordeste conheci uma figura surpreendente, Napoleão Moreira, jovem, simpático, elegante, bem falante, usineiro esquerdista de Alagoas”.

Espiritualmente, foi exatamente no encontro de Nery com meu pai que foi plantada a semente que viria a brotar no futuro a grande amizade que tenho com Sebastião Nery.

Hoje afirmo, com convicção, que amigo é o irmão que podemos escolher. Mas um grande gesto de Nery e da sua querida esposa e também minha querida amiga Bia, num certo momento de extrema adversidade, em todos os sentidos, em que eu estava vivendo, inclusive correndo risco de vida, pois tinha feito diversas denúncias na imprensa. E nesse momento difícil, eles passaram uma semana em minha casa na Praia do Toque, em São Miguel dos Milagres, e Nery concedeu diversas entrevistas.

E em uma dessas, tive o prazer e a satisfação, de tê-lo ligado a outros meus queridos amigos da imprensa alagoana, como Fernando Araújo e Canetinha.O titulo do livro da biografia de Nery “A Nuvem” é profundo e poético, pois no universo aonde existir vida inteligente sempre haverá a nuvem, por ela trazer a água que irriga a semente fértil e alimenta o homem.

Nery é a própria nuvem, aquela que sempre voltará e a sua passagem aqui na terra foi, é e continuará “ad infinitum”, expressão latina que pode ser traduzida no infinito, por ter se tornado o Papa do jornalismo brasileiro. Tornou-se grande, porque com a sua coragem cívica, pessoal e vigor intelectual bri-lhante, enfrentou muitas vezes o arbítrio e sempre denunciou, com seu estilo único de escrever, os poderosos que lançaram o nosso país num triste momento, durante os anos de chumbo.

Nery sempre esteve ao lado de seus amigos e bravamente os defendia, quando muitos fugiam naquela hora covarde.O meu saudoso e querido amigo Noaldo Dantas costumava citar Ernest Hemingway: “A coragem é a dignidade sobre pressão”. Nery foi um dos poucos jornalistas que ousou e teve a coragem de enfrentar a grande mídia e “nunca cedeu às pressões”.Sebastião Nery é amigo afetuoso, corajoso e leal. Seu estilo é único e inigualável, próprio daqueles que tem alma de gigante.

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