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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 802 / 2014

28/12/2014 - 10:10:00

Maduda

Cláudio Vieira Advogado e escritor membro da Academia Maceioense de Letras.

É Natal! O costume exige que esse período do ano seja de paz, de alegrias, de amor, de concórdia. Os espíritos tornam-se sensíveis a esse apelo, sendo gratificante notar que as pessoas ficam-se mais gentis, respeitosas, cavalheirescas, exsudando tudo aquilo de bom que há no íntimo.

Essa maravilha da mais importante data cristã é necessária a um mundo cada vez mais impessoal, quando os e-mail, os whatsapp, os facebooks, e outras geringonças da modernidade cada vez mais tornam remotos os contatos realmente pessoais entre nós, os humanos. Então, o retorno a sentimentos e comportamentos antigos, mesmo que por um breve período, resulta também em retorno àquele humanismo que só os racionais podem construir e conscientemente viver.

Sendo ainda algo conservador, e até avesso a regular minha vida por datas de apelo hoje puramente comercial, pergunto-me sobre o porquê de não praticarmos todas aquelas emanações da virtude durante todo o ano. E nesse perguntar vem-me à memória a primeira parte de certo analecto de Confúcio: “O sábio gosta de todas as pessoas e não é parcial para com ninguém”.  

Bem, essas são questões para a sociologia. Deixemo-la, pois, amadurecendo em algum escaninho da mente. O fato é que com aproximação das festas de final do ano, resolvi, para alívio dos eventuais leitores, abandonar áridos temas da política, rendendo-me aos encantos da Maria Eduarda, minha netinha de dois anos e três meses de idade. Chamo-a Maduda desde o feliz dia do seu nascimento.

Por que? Tenho para o carinhoso apelido duas explicações: Ma de Maria, e Duda de Eduarda é a primeira e mais singela; a segunda é mais prosaica, remetendo-nos à língua francesa – Ma de minha e Duda, igual como na primeira, de Eduarda. Há dois anos e três meses nascia Maduda, abrindo para a vida os rutilantes olhinhos na tarde de 05 de setembro de 2012. Não sei se verdade ou se apenas fruto do meu abestalhamento de avô, vi precoce curiosidade intelectiva naqueles olhares com que Maduda dirigia ao ambiente extra-uterino.

Não sorria, nem chorava, apenas olhava como se estivesse a perquirir sobre quem seriam aquelas risonhas pessoas que a miravam e diziam as corriqueiras bobagens. O feliz e ciumento pai, que a trazia nos braços, já avisava aos incautos circunstantes: nada de beliscõezinhos no rosto. Claro que todos obedecemos, as mãos coçando para infringir a proibição paterna. “Chorou quando nasceu?” “Ora se chorou! Essa menina parece ter um pulmão e tanto! Foi o maior berreiro”. Mas Maduda, naquele momento das apresentações, já superara o medo inicial e parecia entrar no mundo com coragem e resolução. 

Passados pouco mais dois anos, Maduda já não chora de medo, mas o pulmão está cada vez mais forte. Chora de desagrado com alguma coisa, e faz barulho mesmo. Voluntariosa, quando quer algo só desiste se for convencida da impossibilidade de tê-lo; e isso tem que ser feito com extrema paciência, senão a teimosia aparece. Fala tudo, quase sempre em voz baixa bem pronunciando as palavras, mas às vezes em esquisita língua que só ela entende; todavia, jamais deixa de manifestar a sua vontade.

Avô abestalhado, com alívio vejo nesse comportamento firmeza de caráter, consciência da vontade, jamais má-criação. Diz o pai, meu filho, que estou a mal-acostumar a menina. Eu me pergunto: se não fosse por isso, para mal-acostumar os netinhos, para que serviríamos os avós? De qualquer sorte, com a minha cavilação sempre ganho beijos carinhosos da Maduda que, algo premonitória, com sua mãozinha segura a minha mão adulta e me conduz a qualquer lugar em que ela queira que eu esteja.                 

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