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25 de Setembro de 2018

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Edição nº 798 / 2014

25/11/2014 - 13:43:00

Olhar de Nise, filme de Jorge Oliveira, abre mostra de cinema no Arte Pajuçara

Rodado no Rio, em Alagoas e na Alemanha, documentário conta a história da alagoana Nise da Silveira, que se rebelou contra o choque elétrico e revolucionou a psiquiatria usando a arte-terapia no tratamento de doenças mentais

DA REDAÇÃO

O  filme Olhar de Nise, do jornalista e cineasta Jorge Oliveira, com codireção de Pedro Zoca e produção de Ana Maria Rocha, abre no próximo dia 24 (segunda-feira), às 19h30, a Mostra Cine Arte Brasil no Centro Cultural Arte Pajuçara, em Maceió. É a pré-estreia do documentário sobre a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, que começou há quatro anos, com cenas rodadas no Rio de Janeiro, em Maceió e na Alemanha, onde mora o artista plástico Almir Mavignier que ajudou a Nise a implantar a arte-terapia dentro do Hospital D. Pedro II, no Rio de Janeiro.Olhar de Nise resgata a história dessa psiquiatra, a primeira mulher alagoana a se formar em medicina na Bahia, numa turma onde se tinha homens.

Mostra uma entrevista inédita de 1997, dois antes de morrer, onde ela conta toda a trajetória de sua vida: a infância em Maceió, com passagem pela Faculdade de Medicina em Salvador, a chegada ao Rio de Janeiro, a sua prisão no governo do ditador Getúlio Vargas, onde ficou uma cela vizinha ao escritor Graciliano Ramos, conterrâneo, e o seu ingresso no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, em Botafogo.

O filme, um longa-metragem de 90 minutos, também tem reconstituição de cenas. Em uma delas, Nise da Silveira, no leito da morte, lembra do marido Mário Magalhães, médico sanitarista, primo legítimo, com quem viveu no Rio de Janeiro até a sua morte.- É uma cena comovente – diz o diretor Jorge Oliveira. – É o início do filme.

O casal é interpretado pela atriz Mariana Infante e pelo ator Rafael Cardoso, da TV Globo. Busquei trazer para tela o grande sonho da Nise que, quando estava à beira da morte, falou que o marido a chamava para dançar. Acho que realizei o grande sonho dessa psiquiatra que está, sem dúvida, entre as grandes personagens do século XX.Uma parte do filme foi rodado no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro. Lá, a produção recriou uma ala do hospital, onde os doentes eram submetidos a choques elétricos, condenados por Nise.

O documentário também traz para as telas, pela primeira vez, os principais quadros dos pacientes do Engenho de Dentro. Entre eles, estão pinturas destacadas pelas críticas de Isacc, F. Diniz, Adelina, Rahpael, Carlos, Petrus, Emigdio, cujas histórias são narradas pela própria Nise na entrevista inédita no filme e por Mavignier, na entrevista em seu atelier em Hamburgo, na Alemanha.Resgata cenas antigas do atelier do hospitalcom os pacientes em atividades, o Museu da Imagem do Inconsciente e cenas atuais de como vivem os doentes hoje mentais no hospital do Engenho de Dentro, no Rio.

A grande surpresa do filme, no entanto, é a entrevista com Almir Mavignier, o pintor que mora há 60 anos na Alemanha, introdutor do trabalho da arte-terapia no Engenho de Dentro. Foi Mavignier o responsável pela descoberta de todos esses pintores, cujas obras hoje estão expostas no Museu da Imagem do Inconsciente mas estiveram também em exposição em vários museus do mundo. São milhares de obras catalogadas e tombadas pelo Iphan pelo valor histórico e cultural que representam para o Brasil.

Na entrevista em Hamburgo, onde mora até hoje, e se aposentou como professor da principal universidade local, Almir Mavignier com 92 anos de idade, falou sobre a sua história com a Nise e como descobriu os pacientes que tinham vocação para pintura naquele manicômio onde, segundo ele, os doentes viviam em total abandono, desprezado pelo poder público até serem resgatados para os ateliers de pinturas criado pela Nise da Silveira e monitorado por ele. 

Nise, a vizinha de celade Graciliano Ramos

Nise da Silveira, uma “alagoana miudinha, de olhos esbugalhados” na definição de Graciliano Ramos, protagonizou feitos que ficarão para sempre na história da psiquiatria mundial. Na década de 1940, ela trouxe um olhar novo aos pacientes de doenças psiquiátricas do Hospital Pedro II, no Rio, criando-lhes a oportunidade de manifestarem suas angústias interiores através da arte e da terapia ocupacional.

A inovação revolucionou o tratamento psiquiátrico e permitiu que Nisecomprovasse sua tese de que os métodos utilizadosnaépoca,os choques elétricos, eram uma tortura, desumanidades que, na sua opinião, em nada contribuiriam para a melhora dos pacientes.Apenas este olhar diferente de perceber os doentes já seria suficiente e um bom motivo para que a médica psiquiatra merecesse um filme da mesma forma como já motivou atores a levar sua vida aos palcos.

Entretanto, a Dra. Nise da Silveira tem uma história de vida singular, pontuada por muitos episódios cheios de significados e pioneirismo quea tornam personagem ímparcapazdemotivar qualquer diretor de documentários. Mais que interesse, Nise provocou encantamento no diretor deste projeto que tem dedicado a carreira de escritor e a de documentarista a tornar mais visíveis figuras de sua aldeia cuja ação e importância transcendem os limites de Alagoas.Nise da Silveira é reconhecida em seu meio e fora dele. Inspirou dezenas de livros, escreveu outros tantos, assim como inspirou também versos, poesias, peças. Foi samba-enredo de escola de samba e ao som do surdo da Salgueiro desceu à sepultura.Nise Silveira era uma ativista política.

De várias causas. Amiga de intelectuais, vizinha de Manoel Bandeira, viveu em plenitude apolítica do seu tempo. Atuou no Partido Comunista Brasileiro e pagou com a prisão a defesa da democracia na era getulista. Dividiu com Olga Benário a cela e as agruras da prisão, a mesma em que também estava o conterrâneo Graciliano Ramos, autor de Memórias do Cárcere onde a convivência está registrada.Observadora empírica de suas experiências inovadoras com os pacientes esquizofrênicos, Nise foi fundamentar-se em Yung, com quem criou sólida parceria, e, a partir daí, ganha notoriedade internacional ao revelar ao mundo impressionantes personalidades artísticas obstruídas pelas mentes turvas e obscuras da doença mental.

Tais revelações, provenientes da produção nos ateliês de pintura e modelagem organizados por ela despertou tanto interesse científico e utilidade no tratamento psiquiátrico que a levou a criar o Museu da Imagem do Inconsciente, este sim objetivo de filme e muitos documentários.Olhar de Nise conta a história de vida e obra desta alagoana usando como suporte o cinema com o objetivo de permitir que um maior número de pessoas possam conhecer melhor esta brasileira revolucionária, não apenas na área da psiquiatria, mas em suas atitudes em relação à própria vida visto, por exemplo, que foi a única mulher entre seus 157 colegas da turma da faculdade de Medicina da Bahia. O filme, além de circuito comercial e de festivais, pretende ser levado à exibição em TVs privadas e públicas, e também nos espaços acadêmicos com o objetivo de estimular o debate sobre os diversos aspectos da vida e da atuação de Nise, uma mulher que esteve à frente do seu tempo.

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