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18 de Setembro de 2018

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Edição nº 793 / 2014

21/10/2014 - 14:03:00

Todos somos crianças

Alari Romariz Torres Aposentada da Assembleia Legislativa

O tempo vai passando, a velhice vai chegando, o medo assustando e ... viramos crianças.Quando era jovem, achava que uma pessoa de 60 anos (idade em que minha mãe morreu), era velha. No vigor dos meus 15, 20 anos, não imaginava como seria a velhice.Hoje, aos 73 anos, cheia de doenças que incomodam, tento administrar a ¨melhor idade¨. São os ossos que doem, a pressão alta, a glicose subindo, taxas elevadas. Ir a um médico significa que ele vai lhe mandar a outros. Cada um cuida de parte do meu corpo.

Passei pelo bairro da Torre, no Recife, e vi escrito ¨Creche para Idosos¨, Dr. Fulano de Tal. No carro íamos eu, meu marido e minha filha mais velha, Ana Rúbia. Assustei-me e disse: Rubião, eis nosso lugar num futuro próximo. E a filha replicou: Não, mamãe, eu cuidarei de vocês. E senti-me criança de novo!!!Tristemente, vejo amigas de longa data, com a doença do alemão. Vão perdendo a lucidez, desconhecendo as pessoas, saindo do ar. Umas têm sorte com os filhos que se empenham em cuidar delas. Outras ficam entregues à própria sorte.

De vez em quando, leio e vejo reportagens a respeito do Retiro dos Artistas, no Rio de janeiro e me emociono vendo figuras que brilharam no palco virando crianças, em cadeiras de rodas, sendo cuidadas por enfermeiros.Por outro lado, existem artistas com mais de 80 anos, tipo Fernanda Montenegro e Francisco Cuoco, ainda trabalhando, lúcidos e de bem com a vida.Qual o caminho para envelhecer bem? A hereditariedade é de importância vital em matéria de doenças? O que devemos fazer para chegar aos 80 ou 90 anos bem lúcidos, andando para cima e para baixo?Meus filhos e minha irmã morrem de rir quando digo: Se eu estiver senil e numa cadeira de rodas não me levem para passear em lugares públicos. Deixem-me em casa.Na realidade sinto pena quando vejo um velhinho no meio de muita gente com a fisionomia alheia, como se nada estivesse entendendo. Não sei se é vaidade ou preconceito, só sei que é o que sinto.Perdi meus pais muito jovem e vejo amigos meus com pais velhinhos.

Uns com muita paciência e outros nem tanto. Bate uma imensa saudade.Na Inglaterra, a assistência ao idoso é perfeita. Nada é pago, não existem longas filas, há exercícios nas praças e exames periódicos.No Brasil, o convênio médico virou SUS e a grande maioria dos médicos só atende se comprarmos a consulta. Para ser atendido através de convênio, o idoso marca para 2, 3 meses após. Se for particular, a vaga aparece misteriosamente.Tomei conhecimento de que no Sul e no Sudeste há hospitais que constroem casa em seus próprios terrenos e alugam ou vendem para os velhinhos. Eles moram lá mesmo na área do hospital.

No Japão existe um verdadeiro respeito pelos mais velhos: eles viram consultores, trabalham durante muitos anos, fazem exercícios ao ar livre.Em nosso país é um verdadeiro caos: as vagas para idosos não são respeitadas, as lojas nem sempre colocam caixas prioritários e a falta de consideração é muito grande.Um moço irreverente estava almoçando dentro do carro num shopping, na vaga para velhinhos. Um casal chegou e pediu o lugar porque o homem tinha dificuldade de locomoção.

O moço deseducado riu e mandou que procurassem outra vaga. Será que o rapaz ficará velho ou morrerá antes?Ficaríamos aqui por várias horas contando fatos irritantes ocorridos com idosos. São estórias estarrecedoras. Sem falar no grande número de aposentados que sustentam filhos e netos, mesmo assim não são bem tratados.Quando passamos dos 70: a vista encurta, os ossos doem, a glicose sobe, o colesterol dispara, o esquecimento aparece. Precisamos de ajuda para sair do carro, subir escadas. Se levarmos uma queda, a recuperação é lenta ou inexistente.Voltamos à infância, passamos a depender dos outros, viramos palhaços, motivos de risos quando a memória falha e dizemos besteiras.É o declínio da vida pela marcha inexorável do tempo.

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